
Assomada, 18 Fev (Inforpress) – Os moradores da localidade de João Dias, um povoado do município de Santa Catarina de Santiago, dizem-se abandonados pelas autoridades locais e centrais, vivendo um dia de cada vez e à mercê da sorte.
A Inforpress foi hoje conhecer a realidade deste povoado, que vive da agricultura e criação de gado, também fustigada pela perda da população rumo à emigração e que de infra-estruturas somente beneficia de um jardim infantil e uma Escola Básica.
Maria José Mendes nasceu, criou e vive nesta localidade e, segundo a mesma, a comunidade não conheceu grandes avanços, considerando até que houve algum retrocesso em alguns pontos.
Conforme contou, para chegar a esta localidade a estrada não tem grandes condições e que a situação fica pior na época das chuvas, mas, além disso, é uma comunidade onde somente há início de instalação de tubos para a ligação de água domiciliária. O processo não chegou a ser concluído e praticamente todos os anos, essa comunidade viveu períodos de penúria de água para sobreviver e dar de beber às suas cabeças de gado.
É que, segundo a mesma fonte, dependem de uma nascente, quando a água é abundante como este ano, vive-se tranquilo, mas quando há escassez quem consegue compra autotanques de água, quem não consegue tem de se colocar na bicha de madrugada até quando der à espera de conseguir um pouco de água que pinga na nascente.
Pese embora a falta de água potável, outra questão que, de acordo com Maria José Mendes, traz-lhes muitos constrangimentos é a falta de luz eléctrica, pois há várias residências que ainda não têm acesso a este bem e nem sabem quando a empresa responsável vai finalizar o processo.
Nesta localidade já emigraram muitos jovens, não só por causa da falta de trabalho, mas esta moradora considera também que a saída advém de um pouco de desânimo da situação de abandono da localidade.
“Aqui não temos nada mesmo. É uma escola que recebe alunos até o 4º ano do Ensino Básico Obrigatório, um jardim infantil e mais nada”, elencou, salientando que não há um espaço jovem, não há uma placa desportiva, nem um centro comunitário e muito menos uma Unidade Sanitária de Base.
Quanto às crianças que estudam a partir do 5º ano, estas têm de se deslocar às escolas secundárias em Assomada, sendo a mais próxima o Napoleão Fernandes em Cruz Grande, mas, segundo a moradora, nem todas essas crianças dispõem de apoios no transporte e há vários pais que não conseguem arcar com todas as dificuldades que enfrentam na localidade, acoplado dos materiais exigidos na escola, lanche e o transporte diário.
Quem uniu a sua voz a estas reclamações e lamentações foi Filomena Lopes, monitora do jardim infantil na localidade desde 2015, que ano após anos tem visto o número de crianças diminuírem, ressaltando até que este ano, além de ter uma turma composta, tem somente 14 alunos.
Os desafios na localidade são vários e para ela estas dificuldades são sentidas logo no pré-escolar, desabafando até que trabalhar nesta comunidade e com as condições que tem disponível é uma prova de resiliência, mas acima de tudo de paixão e amor à profissão e de fazer com que essas crianças tenham um futuro brilhante.
Pois, contou que os materiais didácticos são escassos ou quase que inexistentes e os poucos que tem são produzidos por ela mesma e muitas vezes os pais nem conseguem contribuir com algum dinheiro para compra de matérias-primas.
Além disso, reforçou que a escola não tem apoio de nenhuma outra instituição e entidade, e que sente falta de ligação de rede de água domiciliária e mesmo da luz eléctrica, o que, no seu entender, inovaria e dinamizaria em alguns aspectos o seu trabalho.
Espaços de lazer para as crianças, melhoria na estrada, apoios para as pessoas idosas, foram algumas das reivindicações apresentadas por esta moradora que já diz estar “desanimada”.
“Aqui vivemos à mercê da sorte e da fé em Deus”, declarou, ajuntando que as autoridades só os vêem na altura das campanhas eleitorais e mesmo assim nem todos os candidatos passam por lá.
Aos idosos desta ribeira, Filomena pede mais um pouco de atenção nem que seja para a reposição dos serviços no Posto de Saúde que antigamente se tinha nesta localidade, mas que foi demolida, reconstruída de novo, só que não foi coberta até então.
“Este posto deixa muita falta, porque com um agente de saúde poupava-se e muito o sofrimento e o sacrifício dos idosos que para controlarem uma pressão arterial ou o açúcar no sangue são obrigados a deslocarem até o hospital”, disse a moradora.
Nesta localidade também há uma escola, que, segundo a responsável Maria Luísa, tem 43 alunos matriculados do 1º ao 4º ano, sendo que há uma turma composta de alunos do 1º e 2º ano.
Esta escola também sentiu a saída desenfreada da população desta comunidade, manifestada na diminuição dos alunos.
Questionada sobre os problemas desta escola, esta responsável elencou que são várias, desde a falta da ligação de rede de água, luz eléctrica, inovação dos materiais didáctico, apoio para a construção de um horto escolar que melhorava a ementa e a alimentação dos alunos, mas também na melhoria das condições de um reservatório de água que já começou a cair aos pedaços, mas mesmo assim são obrigados a usar esta água porque não há outra solução.
Sobre a localidade, decidiu não repetir o que os outros moradores já tinham exposto, reforçando que a situação desta zona é “triste e lamentável”.
MC/ZS
Inforpress/Fim
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