REPORTAGEM: Fazenda da Esperança Feminina acolhe mulheres em busca de recomeço (c/video)

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REPORTAGEM: Fazenda da Esperança Feminina acolhe mulheres em busca de recomeço (c/video)
23/04/26 - 04:00 am

*** Por Luís Carvalho, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 23 Abr (Inforpress) – Longe da cidade e dos olhares de julgamento, a Fazenda da Esperança Feminina (FEF) acolhe mulheres com histórias marcadas pelo álcool e outras drogas, que procuram um recomeço num ambiente onde a vontade de mudança é grande.

A Inforpress foi a esta instituição conhecer o dia-a-dia das primeiras oito mulheres que ali procuram libertar-se dos vícios, tendo como objectivo principal a recuperação.

A missão é conduzida por Luzia Miguel, missionária angolana de 21 anos, que deixou o seu país natal para abraçar o desafio de apoiar mulheres em situação de vulnerabilidade em Cabo Verde, promovendo a sua reintegração social e espiritual.

Com experiência anterior na recuperação de dependentes em Angola, onde actuou durante dois anos, Luzia aceitou o convite da comunidade e integra actualmente a Família Consagrada da Esperança, cujo trabalho assenta na reabilitação através da mudança de comportamento e reconstrução de projectos de vida.

“Mais do que deixar as drogas, é necessário passar por um processo de conversão, uma mudança interior que devolve dignidade à pessoa”, explica a missionária, sublinhando que a fé desempenha um papel central nesse percurso.

Actualmente, a Fazenda acolhe oito internas, três crianças e conta com duas missionárias, todas angolanas.

O dia-a-dia é marcado por disciplina e organização, começando cedo, com actividades físicas, momentos de oração e meditação, seguidos de tarefas domésticas e trabalho no campo.

As internas são responsáveis por diversas actividades, desde a limpeza e organização da casa até a preparação das refeições e cuidado do jardim. Parte do trabalho inclui também a recolha de pedras para melhoria das infra-estruturas do espaço, numa lógica de colaboração com a ala masculina da Fazenda.

Durante a tarde, privilegiam-se actividades mais leves, como o artesanato e a costura, que, além de funcionarem como terapia, oferecem às mulheres competências que poderão ser úteis no futuro.

“Queremos que elas saiam daqui com uma habilidade que lhes permita sustentar-se”, afirma Luzia Miguel.

Conforme a missionária, cerca de 80 por cento (%) das internas enfrentam problemas relacionados com o consumo de álcool, sobretudo grogue, sendo também registados casos de uso de cocaína e tabaco.

“A entrada na Fazenda é voluntária e depende da aceitação da própria pessoa em iniciar o processo de recuperação”, explicou a responsável.

O método adoptado, indicou, baseia-se num tripé composto por espiritualidade, convivência e trabalho, não recorrendo ao uso de medicamentos.

“Acreditamos que o vício é muitas vezes reflexo de problemas internos. Trabalhar o interior ajuda a transformar o exterior”, esclareceu a missionária.

O programa tem duração de 12 meses e inclui uma fase inicial de adaptação de três meses, durante a qual as internas não recebem visitas, permitindo maior concentração no processo.

Após esse período, as famílias podem participar em encontros mensais, promovendo a reconciliação e o fortalecimento dos laços afectivos.

Durante o período de internamento, as internas ficam sem acesso a telemóveis. É a regra da casa.

A Fazenda dispõe de capacidade para acolher até 16 mulheres e quatro crianças, estando neste momento ainda em fase inicial de funcionamento, o que, segundo a missionária, representa desafios acrescidos.

“É mais difícil começar do que dar continuidade a algo já estruturado, mas tem sido uma experiência de crescimento”, afirmou Luzia Miguel.

As três crianças de dois, três e cinco anos, respectivamente, que acompanham as respectivas mães, frequentam o jardim infantil em S. Martinho Pequeno.

Mas, este problema tem dias contados, pois na Fazenda Feminina vai ser construído um centro para actividades, que, além de um pequeno espaço para acolher crianças, vai dispor de uma sala multiuso para trabalhos manuais e de artesanato.

O sustento da comunidade é garantido através de doações e de uma contribuição das famílias das internas, embora Luzia Miguel sublinhe que ninguém deixa de ser acolhido por falta de recursos.

Apesar das dificuldades, a missionária destaca o apoio recebido da população cabo-verdiana e a importância da solidariedade no funcionamento da iniciativa.

“Quem tem fé vai até onde ele quer, com o auxílio de Deus. Então a Fazenda da Esperança tem essa missão, fazer com que um ser humano ganhe, volte a ganhar dignidade por intermédio do processo da conversão”, diz Luzia Miguel.

Segundo esta missionária, o trabalho da Fazenda não faz distinção religiosa, acolhendo mulheres de diferentes crenças, com o objectivo comum de promover uma transformação profunda.

“Nós somos uma comunidade ecuménica. Então o nosso maior objectivo é apresentar a Jesus”, esclareceu a missionária, acrescentando que o propósito da Fazenda é fazer com que estas mulheres mudem e ganhem uma nova vida.

Eunice Olívia Moreno, de Assomada, e Solange Patrícia Mendes, da cidade da Praia, aceitaram falar à Inforpress contando as suas experiências de quase três meses na Fazenda da Esperança.

Ambas pediram ajuda porque, conforme alegam, estavam a sentir que tinham caído “no fundo do poço”.

Eunice confessa que tinha problemas com o álcool, que lhe retirou o tempo para cuidar dos filhos menores, enquanto a sua colega Solange, além do alcoolismo, fumava o tabaco.

A Fazenda da Esperança Feminina surge, assim, como um espaço de acolhimento, reconstrução e esperança para mulheres que procuram um novo rumo, longe da exclusão e mais próximas de uma vida com dignidade.

“A adesão ao projecto de recuperação é voluntária, aqui não fica quem não quer, primeiro elas vêm, conhecem o espaço e, depois, decidem”, conclui a responsável.  

Como mensagem final, deixa um apelo às famílias e à sociedade: “Não desistam de quem está no vício. Enquanto há vida, há esperança. Todos podem mudar, desde que tenham apoio e oportunidade”.

LC/AA

Inforpress/Fim

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