
** Por Keila Antunes da Agência Inforpress **
Cidade da Praia, 11 Ago (Inforpress) – As famílias cabo-verdianas de baixos rendimentos enfrentam diariamente o desafio de garantir o sustento dos filhos, equilibrando despesas básicas e dívidas, muitas vezes sem salário fixo e dependentes de pequenos trabalhos para sobreviver.
Em casas onde o dinheiro é contado antes de ser gasto, sobreviver tornou-se uma equação diária. Há quem venda doces, quem faça trabalhos ocasionais e quem dependa de um salário mínimo. Há também quem adie estudos, abandone projectos pessoais e passe fome para garantir que os filhos tenham alguma coisa para comer.
São histórias diferentes, mas atravessadas pela mesma realidade: rendimentos insuficientes e a procura constante por uma oportunidade capaz de transformar a sobrevivência em estabilidade.
Em Bela Vista, na cidade da Praia, Vanusa, de 46 anos, mãe de seis filhos, conhece bem essa realidade.
Quando a Inforpress chegou à sua residência, encontrava-se a limpar a varanda. Com um sorriso e a simpatia que contrastam com as dificuldades que descreve, contou que a venda de doces e pequenos trabalhos na área da culinária constituem uma das principais fontes de rendimento da família.
A actividade nasceu da necessidade, mas também da vontade de construir uma alternativa.
Vanusa frequentou, há cerca de oito anos, uma formação profissional em culinária, onde aprendeu técnicas e ganhou conhecimentos que poderiam ajudá-la a iniciar um negócio próprio, mas faltou-lhe o capital para dar o passo seguinte.
“Tive formação em culinária, aprendi muito, mas depois não consegui apoio para começar o meu próprio negócio”, explicou.
A falta de recursos continua a limitar aquilo que se consegue produzir e vender.
“Se tivesse condições, podia trabalhar todos os dias. O problema é que falta dinheiro para comprar materiais e avançar com o negócio”, afirmou.
Entre as despesas da casa e as necessidades dos seis filhos, muitos dos seus próprios planos foram ficando para trás. Investir no negócio, aumentar a produção e alcançar maior autonomia financeira são sonhos que permanecem adiados.
“Nunca consegui aquele apoio que precisava para fazer crescer o meu negócio. Gostava de avançar, mas sem capital torna-se muito difícil”, lamentou.
A melhoria das condições habitacionais, alcançada depois de a família ser contemplada com uma intervenção habitacional através de um programa do Estado, representou uma conquista importante. Mas uma casa com melhores condições não eliminou a dificuldade de garantir o sustento diário.
Para Vanusa, o que muitas famílias precisam não é apenas de ajuda pontual, mas de condições para trabalhar e gerar rendimento.
“Há pessoas que querem trabalhar, querem melhorar, mas precisam de uma oportunidade para começar”, defendeu.
A poucos metros da casa de Vanusa, também em Bela Vista, Yasmim, mãe de quatro filhos, enfrenta uma doença que a impossibilita de trabalhar, enfrentando assim uma dura realidade.
O agregado familiar depende essencialmente do salário mínimo recebido pelo marido. É desse rendimento que saem as despesas com alimentação, educação dos filhos e outras necessidades básicas.
O problema, explica, não está apenas no valor que entra em casa, mas na quantidade de responsabilidades que precisam ser cobertas com esse rendimento.
“Às vezes fazemos escolhas difíceis. Há coisas que gostaríamos de proporcionar aos nossos filhos, mas nem sempre conseguimos”, relatou.
Entre o que se ganha e aquilo que é necessário pagar, algumas necessidades acabam por ser adiadas. E, quando a prioridade é garantir comida, nem sempre há espaço para pensar no dia seguinte.
A história de Humberto, morador na localidade de Casa Lata, acrescenta outra dimensão à mesma luta.
Pai de duas meninas, uma de 18 anos e outra de apenas cinco, não possui um emprego fixo. Sobrevive através de “biscates”, trabalhos informais e ocasionais que lhe permitem conseguir algum dinheiro para as despesas da casa.
A instabilidade do rendimento transforma cada dia numa nova procura por trabalho.
Mas existe ainda uma dor que ultrapassa as dificuldades financeiras. Segundo contou à Inforpress, a mãe das meninas deixou a família e partiu para a Europa, inicialmente prometendo que proporcionaria às filhas melhores condições de vida. Depois de cerca de um ano, afirma, deixou de contactar as crianças.
Humberto fala sobre o assunto entre suspiros e com os olhos marejados.
“Foi horrível (…) elas são o meu refúgio e tenho que cuidar delas. Às vezes passo fome para que elas consigam comer alguma coisa, mas nem sempre dá”, contou.
A frase resume a dimensão do esforço que faz para manter as filhas. E mesmo sem rendimento fixo, procura garantir o mínimo para as crianças. Dívidas acumuladas e despesas que aumentam diariamente fazem parte da rotina. Familiares e amigos constituem uma rede de apoio, mas insuficiente para resolver todas as necessidades.
O mesmo conta que também procurou ajuda junto de entidades, mas recebeu, segundo afirmou, a mesma resposta: “A demanda está enorme e, infelizmente, o senhor tem que esperar”.
Aos 18 anos, a filha mais velha começou a trabalhar informalmente como vendedeira e passou também a contribuir para as despesas da casa.
A necessidade de ajudar o pai e a irmã mais nova acabou por pesar nas escolhas da jovem, ela não conseguiu prosseguir os estudos como gostaria, tendo optado por trabalhar e contribuir para o sustento familiar.
Assim, enquanto outras jovens da mesma idade projectam os próximos anos, ela aprendeu cedo a dividir o pouco que consegue ganhar entre as necessidades da família.
As histórias de Vanusa, Yasmin e Humberto revelam uma dimensão humana de um fenômeno que também é medido através de indicadores estatísticos.
Saindo das histórias destas famílias e olhando para os dados oficiais, os indicadores do Instituto Nacional de Estatística (INE) apontam para uma redução da pobreza em Cabo Verde. A pobreza absoluta recuou de 35,5 por cento (%) em 2015 para 24,75% em 2023, enquanto a pobreza extrema passou de 4,56% para 2,28%. Nas zonas urbanas, a incidência da pobreza absoluta diminuiu de 28,08% para 21,31% e, nas zonas rurais, de 48,87% para 35,23% no mesmo período.
Já o Banco Mundial, com uma metodologia e linha internacional de pobreza diferentes, estimou em 53,8% a população abaixo desse limiar em 2024, prevendo uma redução para 49,2% em 2026. Os valores não são directamente comparáveis devido às diferenças metodológicas.
O Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) desempenha um papel importante na proteção social em Cabo Verde, através de prestações e apoios destinados aos segurados e beneficiários em diferentes situações de vulnerabilidade, incluindo apoio na doença, maternidade, desemprego involuntário e outras eventualidades previstas no sistema.
Contudo, para famílias com baixos rendimentos ou sem emprego formal, os mecanismos de proteção social nem sempre conseguem responder a todas as necessidades, uma vez que muitas pessoas permanecem fora do sistema contributivo.
Apesar dos indicadores nacionais apontarem para uma redução da pobreza, a realidade vivida por famílias como as de Vanusa, Yasmin e Humberto revela que muitos cabo-verdianos continuam a enfrentar dificuldades para transformar rendimentos limitados em condições de vida estáveis.
Para estas famílias, sobreviver significa fazer contas, procurar biscates, adiar sonhos e, muitas vezes, sacrificar necessidades pessoais para garantir o essencial aos filhos.
Entre contas por pagar e sonhos adiados, permanece o desejo de conquistar não apenas ajuda, mas oportunidades de trabalho, formação e financiamento que permitam construir uma vida mais digna e autónoma.
KA/CP
Inforpress/Fim
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