Recuperados expressam gratidão aos que lhes estenderam a mão e avisam os dependentes que é possível viver sem drogas

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Recuperados expressam gratidão aos que lhes estenderam a mão e avisam os dependentes que é possível viver sem drogas
25/06/24 - 07:03 am

Cidade da Praia, 25 Jun (Inforpress) – Sandro Fonseca, Arnaud Bailleul e Jedilson Barreto expressaram gratidão aos que lhes estenderam a mão quando se encontravam no “fundo do poço” devido ao uso de drogas, e avisam aos ainda dependentes que é possível viver sem usá-las.

Em entrevista à Inforpress, a propósito do Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas, assinalado a 26 de Junho, esses três jovens, que hoje regozijam-se pelo facto de estarem recuperados, agradeceram a todas as pessoas e instituições envolvidas nesta nova fase das suas vidas.

Sandro Fonseca contou que iniciou a sua dependência quando lhe era oferecido a aguardente (“grogue”), ainda criança, para "espantar espírito", pelo que mais tarde ganhou o gosto por este produto, e ao frequentar mais festas, continuando criança, passou a roubar o grogue e beber escondido com o seu grupo.

“A partir do liceu comecei a experimentar e usar outras coisas, e aprofundei mais quando saí de Cabo Verde para frequentar estudo superior na Bolívia, onde a parte espiritual começou a baixar mais, e então preferi voltar para não dar mais prejuízo aos meus pais”, disse.

Segundo afirmou usou todo o tipo de drogas, menos as injetáveis, mas tendo sempre o álcool como entrada, tendo em conta que, conforme sublinhou, é legal e pode ser encontrado em toda a esquina.

“E acho que esta junção é que traz consequências mais devastadoras. Mas depois comecei a ver que os meus planos de vida não estavam a realizar e ficavam apenas na mente, senti que estava a entrar numa fase depressiva, ou seja, não estava a sentir o gosto pela vida, e estava pronto para receber ajuda” reconheceu.

Foi a partir de então que Sandro Fonseca diz ter aceitado ajuda da sua irmã, justificando que percebeu que sozinho não ia conseguir, e que viu exemplo de estado de outras pessoas dependentes de que não queria chegar.

“Fui fazer tratamento interno de seis meses na Granja de São Filipe e foi a melhor escolha que fiz na minha vida. É um tratamento de ferramentas em que é oferecido técnicas de viver limpo e sóbrio, mas o tratamento é todo o dia”, afirmou, assegurando que está limpo há cinco anos e agradece a todos os que o ajudaram e a Deus por até então não ter recaída.

Hoje afirma que fotografar tem sido a sua terapia e tem patente, neste momento, uma exposição de fotografias intitulada "Só por Hoje: Cinco anos de sobriedade, uma caminhada de recuperação”, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, que estará aberta ao público até ao dia 05 de Julho.

Também o cidadão francês Arnaud Bailleul, que escolheu vir para Cabo Verde “fugindo” da droga para tentar uma recuperação, uma vez que se encontrava em consumo activo, afirmou que está limpo há praticamente um ano, pois foi no dia 26 de Junho que deixava de usar a droga, assim como o álcool e tem evitado frequentar lugares onde possa encontra essas substâncias para evitar recaída.

“A droga não me deixava fazer nada, e estava sozinho. E vendo que estava no fundo do poço vi que se continuasse assim não ia durar muito. Então, um dia resolvi comprar passagem, avisei a mãe que viria para Cabo Verde para permanecer durante uns três ou quatro meses em busca de recuperação, uma vez que já tinha estado antes neste país”, contou.

Conforme explicou, a intenção era fugir do consumo, tendo em conta que no arquipélago não conhecia nenhum “passador”, mas reconheceu, entretanto, que isto não é uma boa forma de livrar-se da droga, até porque essas substâncias podem ser encontradas em todos os lugares.

Em Cabo Verde explicou que bebia um pouco, não como no seu país e acabou reatando o seu relacionamento com a sua mãe de filha cabo-verdiana. Mas revelou que quando foi para a ilha do Maio passar férias é que teve o contacto novamente com a droga e regressando à cidade da Praia voltou a ver-se no fundo do poço.

Actualmente, após 35 anos de consumo, avançou que faz tratamento ambulatório, frequentando reuniões de grupo três ou quatro vezes por semana no centro de saúde de Tira Chapéu, e diz-se sentir melhor, e pretende continuar a viver em Cabo Verde, com a missão de ajudar outras pessoas, através da Fundação Garah e outros grupos.

Por seu lado, Jedilson Barreto, há dois anos sem uso de drogas e álcool que diz trazer-lhes muitas consequências, afirmou que entrou neste mundo porque foi muito influenciado pela comunidade onde vive, a Várzea, uma zona que afirmou ser problemática por enfrentar várias vulnerabilidades sociais, como consumo do álcool, droga, prostituição e crianças expostas nas ruas.

“Ou seja, com 12 anos eu queria era estar na rua, olhava as pessoas fumarem, a fazer vandalismo e pensava que queria fazer como eles apesar de que tinha heróis dentro de casa em que poderia me espelhar, mas preferi ficar com o que via na rua, porque não encontrava a minha identidade no seio familiar”, confessou.

No entanto, assegurou que hoje é responsável para tratar e já se declara recuperado, estando há dois anos sem uso, após alguns anos como dependente, o que lhe fez praticar actos de vandalismo na sua comunidade.

Daí que aproveitou para apelar aos que hoje estão a vivenciar momentos difíceis por causa do uso das drogas para procurarem apoio, pois, é possível recuperar, viver sem essas substâncias, mostrando que muitas pessoas já estiveram em situações piores, acabaram por se recuperar e hoje são “grandes homens”.

Jedilson Barreto diz que hoje é activista social, e contribui endereçando mensagens positivas através das suas músicas e promovendo actividades de prevenção junto dos mais pequenos, sobretudo no seu bairro.

ET/CP

Inforpress/Fim

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