REPORTAGEM/Quando o ventre vira negócio: riscos da exploração reprodutiva das cadelas em nome do lucro (c/áudio)

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REPORTAGEM/Quando o ventre vira negócio: riscos da exploração reprodutiva das cadelas em nome do lucro (c/áudio)
26/09/26 - 11:30 am

*** Por Kateline Ferreira, da Agência Inforpress +**

Cidade da Praia, 26 Set (Inforpress) - Durante anos, a reprodução de cães foi encarada como forma de preservar raças ou garantir ninhadas, mas quando cada gestação passa a representar dinheiro, o limite entre a criação responsável e a exploração comercial torna-se cada vez mais evidente.

É contra a lógica de transformar o animal numa fonte de rendimento regular que a activista e cuidadora independente Adelaide Monteiro lançou o alerta “útero de cadela não é emprego”, lembrando que o animal não existe para gerar dinheiro para o proprietário, uma mensagem que rapidamente ganhou eco nas redes sociais.

O problema ganha dimensão quando a cadela é submetida a sucessivas gestações sem o devido acompanhamento médico e seu tempo de recuperação necessário. “O útero de uma cadela não é um emprego. Ela não está aqui para reproduzir dinheiro para o dono”, defende a cuidadora.

O médico veterinário Madueno Cardoso enquadra a discussão na saúde animal e na necessidade de regulamentação. Ao partilhar dessa preocupação, o especialista aponta a ganância de alguns proprietários como um factor que coloca o lucro à frente dos cuidados essenciais.

Segundo o veterinário, o comércio de cães, impulsionado pelo elevado valor de mercado de determinadas raças, sobretudo as de pequeno porte, exige uma vigilância contínua que inclui vacinação, desparasitação, acompanhamento pré e pós-parto, ecografias e, em muitos casos, intervenções cirúrgicas como cesarianas.

Adelaide Monteiro corrobora este cenário, relatando que os animais de raça são muito procurados pelo valor financeiro que alcançam no mercado, sendo as cadelas de pequeno porte as mais expostas à exploração.

A preocupação, contudo, vai além do preço de venda dos cachorros. Nem todos os partos ocorrem sem complicações: determinadas raças e cruzamentos apresentam maior dificuldade e exigem a intervenção de um profissional.

É precisamente neste ponto que a reprodução deixa de ser encarada como uma simples sequência de cruzamentos. “Existe um período de gestação, parto, recuperação e cuidados contínuos. Ignorar essas etapas pode colocar o animal perante riscos que só uma avaliação veterinária consegue identificar”, acrescenta Madueno Cardoso.

A insistência em gestações repetidas e precoces provoca um severo desgaste físico e emocional. Entre os riscos mais graves para o aparelho reprodutor está a piometra, uma infecção uterina grave que pode ser fatal se não for detectada a tempo.

O veterinário explica que a doença se manifesta de duas formas: na piometra aberta, há drenagem de secreções pelo trato genital; na forma fechada, o conteúdo permanece acumulado no útero, podendo evoluir para uma infecção generalizada.

“A piometra é uma doença uterina grave e, se não for detectada atempadamente, pode levar à morte do animal”, alerta, ressalvando, contudo, que a patologia exige avaliação clínica e não deve ser atribuída automaticamente à reprodução sucessiva.

A fronteira entre a criação ética e a exploração assenta em critérios claros. Enquanto o criador responsável conhece a raça, planeia os cruzamentos e assegura assistência médica e bem-estar, a exploração comercial caracteriza-se pela busca exclusiva do lucro.

Nestes últimos casos, os animais são frequentemente mantidos em espaços reduzidos como varandas ou terraços, sem condições de higiene ou interacção social.

A este cenário soma-se o alerta de Madueno Cardoso para os cruzamentos indiscriminados entre raças diferentes sem critérios genéticos, o que pode transmitir problemas comportamentais e de saúde às gerações futuras.

Para além das questões clínicas, Adelaide Monteiro apela a uma mudança na forma como a sociedade encara os animais, rejeitando que sejam tratados como objectos de decoração ou mercadorias.

A sua experiência no resgate de animais abandonados e doentes desde 2012 demonstra que a aquisição por impulso resulta frequentemente em abandono assim que surgem os primeiros custos. Entre as situações que recorda estão gatos deixados em sacos e cães de raça encontrados sem qualquer cuidado.

São histórias que, para a criadora, ajudam a ilustrar um problema maior, a facilidade com que algumas pessoas adquirem um animal sem avaliar previamente os custos, o tempo e a responsabilidade envolvidos.

Perante esta realidade, ambos os entrevistados defendem uma regulamentação específica para a actividade de criação, que inclua registo, identificação por microchip, castração como controlo populacional e fiscalização das condições de alojamento.

Por outro lado, quem se dedica à criação e comercialização de cães rejeita a associação directa entre a actividade e a exploração animal.

Um criador ouvido pela Inforpress explicou que a sua cadela de raça Pitbull não cruza de forma contínua e que os valores de venda dos cachorros, entre os 15 e os 20 mil escudos para machos e montantes superiores para fêmeas, servem maioritariamente para cobrir os custos com alimentação, vacinas e cuidados veterinários, nem sempre resultando num lucro significativo.

Apesar das diferentes perspectivas, a preocupação com as condições a que as cadelas são submetidas permanece central entre os profissionais de saúde veterinária e protectores de animais, sobretudo quando a actividade passa a priorizar a obtenção de ninhadas em detrimento da saúde e da qualidade de vida do animal.

KF/CP

Inforpress/Fim

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