
Cidade da Praia, 24 Fev (Inforpress) - O Museu Etnográfico da Praia acolhe a partir de hoje a exposição que retrata as resistências históricas e os avanços alcançados para a afirmação da língua cabo-verdiana.
A mostra surge na sequência do Dia Internacional da Língua Materna, assinalado a 21 de Fevereiro, e enquadra-se no conjunto de actividades que o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativa tem desenvolvido.
De acordo com a directora dos Museus, Aleida Aguiar, o Museu Etnográfico realiza periodicamente exposições temáticas, e esta tem como objectivo destacar a importância da língua materna, contextualizando o seu surgimento no século XV, fruto da fusão entre povos africanos escravizados trazidos do continente e europeus, especialmente portugueses.
"A exposição evidencia as resistências enfrentadas pela língua cabo-verdiana para se afirmar no país. Durante muito tempo, era proibida em espaços públicos, sendo o português a única língua permitida. Actualmente, essa realidade mudou, com maior abertura para o uso do crioulo, inclusive em experiências pedagógicas em algumas escolas", afirmou Aleida Aguiar.
A exposição destaca momentos marcantes dessa evolução, como o papel do Movimento Claridade, que impulsionou a publicação de livros na língua cabo-verdiana a partir de 1932, contribuindo para a valorização do crioulo na literatura e na sociedade.
A mostra estará aberta ao público por um período entre seis meses a um ano e apresenta informações em crioulo, português e inglês.
Além de painéis explicativos, os visitantes, avançou Aleida Aguiar, podem interagir com vídeos, relatos orais, provérbios e jogos interativos, que enriquecem a experiência e promovem o envolvimento com o tema.
Para a directora dos Museus, a valorização da língua materna passa essencialmente pelo seu uso no quotidiano e em diversos espaços da sociedade.
"A língua é um pilar fundamental da identidade cultural de um povo. Desde as primeiras palavras que aprendemos a falar, a nossa ligação com a língua materna é inseparável da nossa identidade. A sua preservação ocorre naturalmente através do uso e transmissão entre gerações", concluiu a directora dos Museus.
Por seu lado, Marciano Moreira, estudioso da língua cabo-verdiana, destacou durante a inauguração as principais diferenças entre o alfabeto cabo-verdiano e o alfabeto português. Explicou que, no alfabeto crioulo, cada som é representado de uma única forma, evitando assim dúvidas entre os mais novos quanto à maneira correcta de escrever.
Para Marciano Moreira, o crioulo tem evoluído de várias formas, sobretudo porque a evolução da sociedade cabo-verdiana impulsiona também o desenvolvimento da língua.
O crioulo tem vindo a ser cada vez mais utilizado não apenas em contextos informais, mas também em espaços formais, como a Assembleia Nacional, a rádio e a televisão.
Segundo ele, este reconhecimento é essencial, pois qualquer forma de marginalização da língua cabo-verdiana representa também a marginalização dos próprios cabo-verdianos, limitando a sua liberdade linguística e afectando a sua identidade e dignidade.
TC/ZS
Inforpress/Fim
Partilhar