
*** José Maria Varela, da Inforpress ***
Cidade da Praia, 20 Jul (Inforpress) – A coleção de discos do pai despertou em Paulo Renato Mariano de Figueiredo, conhecido artisticamente como Paló, o interesse pela música, conduzindo-o mais tarde ao Finaçon, um dos grupos marcantes da música cabo-verdiana.
Muito antes de subir aos palcos ou de entrar num estúdio de gravação, foi em casa que começou a construir a sensibilidade musical que marcaria toda a sua carreira.
Entre discos de vinil cuidadosamente guardados pelo pai e horas passadas a ouvir artistas de diferentes géneros, descobriu um universo que acabaria por moldar o seu percurso profissional.
A infância decorreu num ambiente familiar tranquilo, onde a música ocupava um lugar de destaque.
A coleção de discos do pai foi a sua primeira escola. Ali conheceu vozes e estilos que ultrapassavam as fronteiras de Cabo Verde e despertavam uma curiosidade permanente por novas sonoridades.
Aretha Franklin, Elvis Presley, The Platters e Fausto Papetti figuravam entre os artistas que mais o impressionavam naquela fase da vida.
Mais do que ouvir música, Paló procurava compreender a forma como era construída.
A atenção aos instrumentos, aos arranjos e às diferentes interpretações despertou-lhe cedo o desejo de aprender a tocar.
Sem imaginar que faria da música uma profissão, foi desenvolvendo um ouvido atento e uma crescente sensibilidade artística.
A mudança para Portugal foi um momento decisivo no seu percurso.
O contacto com uma realidade cultural diferente permitiu-lhe descobrir novos géneros musicais, como o funk, o reggae, o blues, a música disco e o rock, influências que viriam a alargar o seu horizonte artístico sem diminuir a ligação às raízes cabo-verdianas.
Foi também em Portugal que Paló começou a dedicar mais tempo à aprendizagem dos instrumentos.
A formação fez-se sobretudo pela prática, pela observação de músicos mais experientes e pelas longas horas de ensaio.
Numa época em que o acesso ao ensino especializado era reduzido, a persistência tornou-se uma das principais ferramentas de aprendizagem.
A bateria foi o primeiro instrumento a despertar o seu interesse pela prática musical.
Mais tarde, aprofundou os conhecimentos noutros instrumentos, encontrando no baixo a forma de expressão que melhor correspondia à sua maneira de entender a música, privilegiando o equilíbrio do conjunto e o diálogo entre os diferentes músicos.
A escolha deste instrumento marcaria definitivamente o seu percurso artístico.
Foi também nessa fase que integrou o primeiro grupo musical, na cidade da Praia, pouco depois da independência de Cabo Verde, como baterista.
Tratou-se da sua segunda actuação em palco, depois da estreia aos nove anos, experiência que reforçou a convicção de que a música ocuparia um lugar central na sua vida.
Essa experiência reforçou a convicção de que a música poderia transformar-se num projecto de vida e abriu caminho à profissionalização.
Mais tarde, Paló integrou a banda Clave de Tó, em que a música deixou de ser apenas uma paixão para se transformar numa actividade profissional.
A vivência intensa dos palcos consolidou a decisão de seguir carreira e preparou-o para uma nova etapa, marcada pelo convite para integrar a banda musical Finaçon
O grupo procurava novos músicos para reforçar a formação, e Paló foi chamado para ocupar uma das vagas disponíveis.
Na década de 1980, o Finaçon afirmou-se como uma referência da música cabo-verdiana, conciliando ritmos tradicionais com novas abordagens musicais e contribuindo para a valorização da identidade cultural do país.
Paló recorda esse período como uma das etapas mais importantes da sua formação.
Os ensaios exigentes, a disciplina de trabalho e a convivência diária com músicos experientes permitiram-lhe consolidar conhecimentos e desenvolver uma forma de estar na música assente no rigor, na humildade e no espírito de equipa.
Mais do que os concertos ou o reconhecimento público, destaca a aprendizagem proporcionada pelo grupo.
O Finaçon funcionava como um espaço de criação permanente, onde cada músico era incentivado a aperfeiçoar a sua técnica e a compreender o papel que desempenhava no resultado colectivo.
Essa experiência marcou profundamente o seu percurso artístico.
Foi no Finaçon que consolidou a convicção de que a qualidade musical depende tanto do talento individual como da capacidade de cada músico colocar esse talento ao serviço do grupo, princípio que continuaria a orientar a sua actividade como instrumentista, produtor musical e sonoplasta.
JMV/AA
Inforpress/Fim
Partilhar