PERFIL/Entre o verso e a rebeldia: Arménio Vieira, o Camões que preferia o xadrez e mulheres

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PERFIL/Entre o verso e a rebeldia: Arménio Vieira, o Camões que preferia o xadrez e mulheres
17/01/26 - 02:00 am

***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 17 Jan (Inforpress) - Arménio Vieira foi o primeiro cabo-verdiano a erguer o Prémio Camões, e aos 84 anos, o homem que já foi o “Marlon Brando da Praia”, quer viver a vida como ela é, recusando o pedestal da solenidade.

A sua vida seria marcada, desde cedo, por uma dualidade: a leveza do “menino de rua” que jogava à "tacada" e a densidade do intelectual que desafiaria impérios.

Nesta conversa, o poeta abre o livro da sua vida, onde a ficção e a realidade já não se fundem no habitual cigarro entre os dedos, que apagou recentemente por questões de saúde, se quiser ficar mais algum tempo nesta peregrinação terrena.

Nascido no bairro da Achadinha, a história de vida de Adroaldo Vieira e Silva, que o mundo conhece como Arménio, seria marcada por uma dualidade, entre a densidade do intelectual e a leveza de um homem que fez do amor e das mulheres, uma das suas maiores paixões.

Criado sob o olhar de um pai que nunca o bateu e abominava a violência e de uma tia que o acolheu após a separação dos progenitores, Arménio Adroaldo Vieira e Silva, de seu nome completo, cresceu entre a liberdade da Praia e o rigor dos estudos.

Mas o seu espírito não cabia em moldes. No Liceu, a sua gola levantada, a camisa desabotoada e os jeans dobrados, o estilo "Teddy Boy" inspirado em James Dean e Marlon Brando, colidiam com a austeridade de professores como Baltasar Lopes.

Arménio não era apenas um aluno, era uma personagem de cinema que preferia abandonar a lição a submeter-se à norma, e essa rebeldia não era apenas estética.

Em Maio de 1961, a poucos dias de concluir o 7.º ano, a liberdade foi interrompida pelas grades da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), integrando o primeiro grupo de presos políticos da Praia, viu a sua "lâmpada" de estudante apagar-se, mas a de leitor acender-se e, mais tarde, a PIDE também bloqueou o seu acesso a empregos públicos. 

Na prisão, entre livros e resistência, forjou o pensamento crítico que o acompanharia sempre.

A veia literária, que nascera com quadras satíricas na escola primária, atravessou desertos.

Durante os três anos de serviço militar obrigatório numa companhia disciplinar, o castigo do regime para quem "mandava umas bocas" contra a opressão, a sua poesia emudeceu.

Contudo, o regresso à vida civil trouxe uma "enxurrada" de versos que nunca mais parou.

Tanto assim é, anos mais tarde, em Abril de 2009, o telefone tocou com uma notícia que parecia uma partida de Carnaval: ele era o vencedor do Prémio Camões: O primeiro cabo-verdiano a receber a maior distinção da língua portuguesa.

Com a ironia que lhe é característica, ao saber do valor monetário, comparou-o ao Nobel, depois, fiel ao seu espírito de quem vive o momento, viu esse mesmo dinheiro "sumir" entre viagens, hotéis e a boa vida que a literatura lhe proporcionou.

Houve um tempo em que ele era o Marlon Brando da Praia (devido ao corte de cabelo e estilo "rebelde" de filmes como Júlio César e A Fúria de Viver), de gola levantada e franja rebelde, hoje, aos 84 anos, e prestes a completar 85, no dia 29 de Janeiro, olha para o passado com a ironia de quem viu o dinheiro de um Prémio Camões 'sumir' entre hotéis e viagens, mas guarda intacta a memória das mulheres que amou e das lutas que travou contra o regime colonial.

O primeiro cabo-verdiano a conquistar o Prémio Camões é uma mistura rara de erudição e rua: um 'Conde' por autoproclamação (nome que o próprio se deu, inspirado no poeta Conde de Lautréamont), que trocou a glória académica pelo cinema, o xadrez e as paixões avassaladoras que quase lhe custaram a vida.

Diz que não sabe usar um micro-ondas, mormente cozinhar, por culpa de uma educação machista, mas escreve com uma sensibilidade que poucos alcançam.

Arménio Vieira, o poeta que tentou o suicídio por ciúmes e que “passa graxa” no cabelo para enganar o tempo, é o último dos românticos incorrigíveis.

Entre passeios diários pela Praia e memórias da prisão política, o homem que prefere a “não vida” à dor física, explica que o seu maior legado não são as notas bancárias, mas os versos que o tornaram imortal.

Ele recorda com humor o início dos seus "vícios", onde para ganhar coragem antes de namorar a primeira rapariga, entrou numa mercearia e pediu um maço de cigarros 8008 e um copo de whisky. 

O whisky estranhou, mas o cigarro entranhou, e foi o cinema que lhe ensinou a abraçar e a beijar, a prática, ele encontrou-a nas ruas da Praia e de São Vicente, onde teve a sua primeira namoradinha aos dez anos, um amor de vizinhos, ainda sem sexo, mas cheio de afectividade.

O escritor cowboy, um homem de coração inquieto e numeroso nunca escondeu que "gostava de meninas", ao longo da vida foram tantas as namoradas e mulheres que ele próprio confessa ter perdido a conta e, por vezes, até os nomes, no entanto, guarda as memórias das que mais amou.

“Gostei do cigarro. Nunca mais parei até cerca de um ano quando tive aquelas dores horríveis. Gosto de meninas, tive muitas namoradas, muitas mulheres…Sem dúvida. Perdi a conta e às vezes esqueço os nomes delas. As que eu mais amei, lembro-me”, conta exibindo um sorriso.

O amor, para ele, não foi apenas lazer, foi também motivo de desespero, tendo nesta narrativa revelado um lado dramático, em que tentou o suicídio por duas vezes por causa de mulheres.

Uma delas na prisão, quando soube que a namorada tinha outro, tentando uma congestão forçada através de ginástica e comida, outra, ao beber uma garrafa inteira de whisky após uma crise de ciúmes e mal-entendidos.

Como um verdadeiro herói de Shakespeare, ele via o ciúme como uma questão de orgulho, comparando-se a Otelo, alguém que não admitia ser trocado.

Apesar da vida de "paródia" e conquistas, Arménio seguiu o conselho do pai Luíz Vieira e Silva, que nunca se casou, e da tia que o criou, isto é, que o casamento era algo para depois dos quarenta, tendo-se casado apenas há cerca de 16 anos, com uma moça muito mais nova do que ele, de 34 anos, já depois de se tornar "meio rico" com o Prémio Camões.

Foi nessa fase de maturidade que nasceu a sua filha, Yara, agora com 15 anos, o que trouxe uma nova dimensão à vida do eterno boémio, que também tem mais dois filhos homens, já maiores, na casa dos trinta e 40 anos.

Para ele, a vida social é agora uma conversa agradável e a memória de um tempo em que era o James Dean das ilhas. Vive de forma simples, evita espelhos que mostram rugas e mantém a vaidade de quem pinta o cabelo para desafiar o tempo, frequenta o Café Sofia e observa o xadrez, embora já não jogue para evitar a derrota que o tempo impõe, e gosta de ler e ouvir música.

“A vida social é isto. Conversar com as pessoas, já não pratico xadrez, porque comecei a perder várias vezes. Antes ganhava, era um dos melhores, mas gosto de ver. Às vezes dou palpite… já não fumo e nunca gostei de álcool”, comentou.

O seu legado não é apenas o Prémio Camões, mas a trajetória de um homem que amou muito, sofreu por amor e transformou essa dor e prazer na matéria-prima da sua imortalidade literária.

“Desejo apenas que leiam os meus livros. O que é que eu fiz mais?”, questionou, Arménio Vieira que não se vê como um monumento, mas como um homem comum, cético, mas com "boa alma", e amante da liberdade total.

Para a história, fica o "Conde Lautréamont" das ilhas, um poeta que soube ser mestre sem nunca deixar de ser o rebelde da gola levantada.

SC/ZS

Inforpress/Fim

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