Livro Iniciativa Outros Bairros propõe nova abordagem para zonas autoproduzidas – Arquitecto Nuno Flores

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Livro Iniciativa Outros Bairros propõe nova abordagem para zonas autoproduzidas – Arquitecto Nuno Flores
30/04/26 - 08:14 pm

Cidade da Praia, 30 Abr (Inforpress) – O arquitecto Nuno Flores, co-autor do livro Iniciativa Outros Bairros, afirmou hoje que a obra constitui um contributo para compreender melhor os processos de urbanização em zonas autoproduzidas em Cabo Verde.

Falando à Inforpress à margem do lançamento do livro, realizado em parceria com a autoria e co-editado por Rita Rainha, o arquitecto explicou que a publicação resulta de um trabalho desenvolvido entre 2019 e 2022 em três áreas de produção informal – Covada de Bruxa, Fernando Pó e Alto Bomba, na ilha de São Vicente, com uma abordagem centrada na escuta das comunidades.

Segundo o autor, apenas no Alto Bomba chegaram a ser executadas intervenções físicas, uma vez que o projecto acabou por ser descontinuado, ainda assim, considerou importante registar e analisar o processo vivido.

“Decidimos perceber como as pessoas envolvidas – desde técnicos a moradores – olharam para esta experiência e que reflexões resultaram desse trabalho colectivo”, explicou.

A obra reúne entrevistas, testemunhos e textos académicos, procurando captar diferentes perspectivas sobre a reabilitação urbana em contextos informais.

Para Nuno Flores, o principal contributo do livro passa por propor uma mudança de paradigma na forma de intervir nas cidades.

“Tradicionalmente pensa-se a cidade a partir de projectos previamente definidos. Nestes territórios, é fundamental compreender, primeiro, como eles se produzem e evoluem, antes de actuar”, sublinhou.

O arquitecto defendeu que Cabo Verde, à semelhança do resto do mundo, enfrenta um processo acelerado de urbanização, pelo que é “urgente abandonar rótulos como ‘informal’ ou ‘clandestino’” e apostar em políticas públicas baseadas no conhecimento real dos territórios.

Na sua opinião, o livro poderá ajudar a melhorar a intervenção urbana no país, ao incentivar uma abordagem gradual e participativa.

“Trata-se de construir decisões passo a passo, com base na compreensão de cada contexto e na escuta das pessoas que vivem nesses espaços”, frisou.

Questionado sobre a possibilidade de o conteúdo da obra contribuir para prevenir desastres naturais, como os associados a chuvas intensas, o arquitecto admitiu que o conhecimento gerado pode ajudar a reduzir vulnerabilidades. 

Ainda assim, alertou que fenómenos extremos tendem a tornar-se mais frequentes, exigindo uma melhor preparação ao nível das infra-estruturas, sobretudo, em zonas sensíveis como ribeiras.

Apesar de o estudo incidir sobre São Vicente, Nuno Flores advertiu contra a replicação automática de soluções noutros contextos, como no município da Praia.

“O método – escutar e compreender antes de intervir – pode ser aplicado em qualquer lugar, mas copiar soluções sem considerar as especificidades locais é arriscado”, disse.

Relativamente à vulnerabilidade dos bairros autoproduzidos, reconheceu a existência de fragilidades, sobretudo pela ausência de infra-estruturas adequadas. 

Contudo, rejeitou abordagens que passem pela eliminação desses espaços.

“Há ali potencial social e cultural. O caminho deve ser investir nesses territórios para garantir qualidade de vida equivalente a outras zonas da cidade”, defendeu.

Para o arquitecto, é essencial repensar o imaginário urbano e adaptá-lo às realidades locais, promovendo intervenções que valorizem as práticas existentes e reforcem a segurança habitacional e urbanística.

O livro “Iniciativa Outros Bairros” apresenta-se, assim, como um instrumento de reflexão sobre a urbanização em Cabo Verde, propondo soluções mais inclusivas e sustentáveis para o desenvolvimento das cidades.

LC/HF

Inforpress/Fim

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