
Madrid, 11 Jun (Inforpress) - O Papa chega hoje às ilhas Canárias, em Espanha, para uma visita de dois dias dedicada à imigração e ao fenómeno das 'pateras' com que lida o arquipélago.
Esta ida às Canárias culmina a viagem a Espanha que Leão XIV iniciou no sábado, em Madrid, onde já se referiu várias vezes à imigração.
O Papa defendeu na segunda-feira, num discurso inédito de um líder da Igreja Católica no parlamento nacional do país, que o “trágico drama migratório” deve agitar “a consciência das nações” e apelou à cooperação multilateral para lhe ser dada uma resposta “solidária e eficaz” que tenha no centro a dignidade humana.
Noutros dois discursos no sábado, apelou à Europa para abandonar discursos polarizadores com “simplificações estéreis” e a reconhecer “a complexidade” como uma bênção.
Leão XIV alertou ainda para “ideologias mundanas ou posicionamentos políticos e económicos” que levam a “generalizações injustas”, num encontro com pessoas em situação de exclusão social, como imigrantes e sem-abrigo.
Esta é a primeira visita de um Papa a Espanha em 15 anos e Leão XIV vai concretizar o desejo do antecessor, Francisco, de ir às Canárias, ilhas que lidam diariamente com a chegada de migrantes em embarcações precárias oriundas de África conhecidas como ‘pateras’ ou ‘cayucos’.
Esta visita coincide ainda com um processo extraordinário de regularização de imigrantes lançado pelo Governo do socialista Pedro Sánchez, que a Igreja Católica reivindicou e apoiou publicamente e que desencadeou um confronto entre os bispos do país e o terceiro maior partido no parlamento nacional, o Vox, de extrema-direita.
Os dirigentes da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), além de apoiarem a regularização extraordinária de imigrantes, têm criticado os discursos anti-imigração de dirigentes do Vox e os recentes acordos desta força de extrema-direita com o Partido Popular (PP) para coligações de governo em regiões autónomas, que incluem a defesa de um princípio de “prioridade nacional” para aceder a serviços e apoios públicos. O objetivo, assumido pelo Vox, é discriminar os imigrantes.
A imigração e a regularização dos fluxos migratórios “é um assunto maior que precisa de referências éticas que se chamam dignidade humana e bem comum“, disse recentemente o presidente da CEE, Luis Argüello, questionado sobre ataques do Vox a vários bispos.
Durante os dois dias que estará nas Canárias, Leão XIV vai encontrar-se com imigrantes e com organizações não-governamentais (ONG) e outras entidades e autoridades que resgatam e acolhem pessoas que viajam nas ‘pateras’.
Um dos momentos mais simbólicos será a ida desta quinta-feira ao porto de Arguineguín, na ilha de Gran Canária, “conhecido como o cais da vergonha em 2020”, no início de um novo pico de ‘pateras’ com direção às Canárias, “pela forma como se geriu a realidade que ali se viveu” naquele ano, com milhares de pessoas amontoadas e à intempérie no local dias a fio, explicou na semana passada uma das coordenadoras da visita de Leão XIV às ilhas, Enélida Hernández.
“Queremos que esse porto deixe de ser o cais da vergonha para ser o porto da esperança” e mostrar “a realidade caritativa” atual, com “milhares e milhares de pessoas que foram acolhidas, foram integradas e fizeram a sua vida em conjunto com o resto dos habitantes das Canárias”, acrescentou.
Cerca de 1.800 pessoas imigrantes vão estar neste porto para receber o Papa e Leão XIV fará uma homenagem aos mortos no mar e a quem salva vidas, como os pescadores das ilhas.
Em 2025, segundo dados oficiais, chegaram 17.788 pessoas em ‘pateras’ às Canárias, depois dos recordes de 2023 e 2024, quando foram 39.910 e 46.843, respectivamente. Outras 3.100 morreram no mar no ano passado, segundo a ONG Caminando Fronteras, que classifica a “rota das Canárias” a rota de imigração mais mortal do mundo.
Inforpress/Lusa
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