
Cidade da Praia, 22 Jul (Inforpress) – A modernização das infra-estruturas hospitalares, o acesso a tecnologia clínica avançada e o reforço do apoio psicossocial aos estudantes são os pilares essenciais para consolidar o curso de Medicina em Cabo Verde.
A posição foi defendida pela coordenadora do mestrado integrado em Medicina da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), Antonieta Soares, em entrevista à Inforpress, na qual alertou para a urgência de dar maior visibilidade e acompanhamento estruturado aos alunos no ambiente prático.
“Temos estudantes do 1º ao 6º ano presentes no ambiente hospitalar, mas a sua presença é frequentemente invisibilizada. Tanto professores quanto alunos defendem a criação urgente de uma estrutura de acompanhamento contínuo dentro dos hospitais, incluindo a figura de um mentor”, alertou Antonieta Soares.
Isso porque, explicou, a transição dos estudantes de medicina do ambiente teórico da universidade para a prática clínica real exige mudanças urgentes na infraestrutura hospitalar e no acesso a tecnologias médicas avançadas.
Para responder a este desafio, a professora advogou a transformação efectiva dos hospitais centrais em "verdadeiros hospitais universitários", onde se garantam condições adequadas de permanência, estudo e treino prático para os futuros médicos.
Neste âmbito, Antonieta Soares afirmou que, nos três primeiros anos do curso, os alunos mantêm-se focados na academia, mas o cenário muda radicalmente no 6º ano. Nesta fase final, os estudantes passam a viver a tempo inteiro dentro do hospital, cumprindo horários rigorosos que incluem reuniões noturnas e plantões contínuos aos fins de semana.
“Esta imersão total exige que o hospital acolha os formandos com espaços dedicados ao estudo, eventos científicos e alojamento permanente”, disse, indicando que o maior desafio surge na transição do terceiro para o quarto ano, quando os estudantes passam do nível básico para o nível clínico.
Esta fase, explicou, exige a mudança para um contexto altamente competitivo e complexo, como o estágio em Coimbra ou em hospitais centrais, onde os alunos lidam directamente com pacientes e barreiras linguísticas.
Face a este processo, Antonieta Soares esclareceu que os hospitais universitários do país ainda carecem de um regulamento específico para as áreas de ensino e extensão, afirmando estar em curso a elaboração da legislação e de estatutos próprios para os hospitais e docentes, incluindo a criação de centros de simulação médica de proximidade.
A coordenadora do mestrado integrado em Medicina alertou ainda que o actual gabinete de saúde universitário não consegue dar a resposta necessária à altura das exigências, pelo que apela à urgência da implementação de um acompanhamento psicossocial robusto.
Propõe também a criação de grupos de estudo, programas de mentoria e equipas de voluntários para ajudar os alunos a adaptarem-se ao exigente ecossistema da medicina.
Isso porque, realçou, a rotina dos estudantes de Medicina tem sido marcada por uma forte pressão psicológica e física devido à intensidade do curso em regime de tempo integral.
“O percurso académico exige elevado engajamento e resiliência, gerando debates sobre a necessidade de melhorias nas condições de permanência na universidade e no apoio psicossocial durante a transição para os hospitais”, destacou, frisando que muitos alunos enfrentam longas deslocações diárias a partir de zonas periféricas, dependendo de autocarros e lidando com dificuldades no acesso a refeições frescas.
Apesar do apoio do serviço social universitário e da prestação de refeições quentes, a comunidade académica aponta que a instituição - que celebrou 11 anos - precisa de reforçar estas estruturas básicas de acolhimento, com salas de relaxamento adequadas.
Defendeu ainda que o sucesso dos futuros médicos depende diretamente do tempo que os profissionais de saúde têm para os acompanhar. Por isso, apontou a urgência em autorizar que os médicos formadores tenham um alívio da carga de trabalho hospitalar ordinária para se dedicarem à docência, investigação e acompanhamento dos alunos.
Questionada sobre o avanço da área da formação médica, Antonieta Soares advogou que o curso não pode ficar limitado ao ambiente hospitalar de alta complexidade, alegando ser fundamental focar na medicina geral e familiar para garantir médicos a nível comunitário.
“O contacto com os centros de saúde e a atenção primária permite que os alunos entendam a importância da prevenção e promoção da saúde, superando a visão restrita do tratamento da doença”, disse.
Quanto ao desafio do curso de medicina na área da tecnologia, explicou que a formação prática em tecnologias clínicas ainda enfrenta grandes lacunas, dispondo os alunos apenas de simuladores básicos para reanimação cardiopulmonar, suporte de vida e treino de auscultação, carecendo de modelos de interação mais sofisticados.
Para contornar o facto de Cabo Verde ser um país pequeno e com uma amostra limitada de patologias raras, defendeu que o investimento em simuladores de alta fidelidade assume um papel crítico, já que o objectivo é capacitar os estudantes a reagirem com a rapidez e eficácia exigidas em qualquer parte do mundo.
Embora o ministério da Saúde avalie a criação de um centro de simulação, Antonieta Soares realçou que o plano prevê o seu posicionamento estratégico directamente no hospital e não no campus universitário.
“Esta decisão visa beneficiar directamente os alunos do último ano, potenciando o desenvolvimento de competências clínicas avançadas onde são mais necessárias”, concluiu.
PC/CP
Inforpress/Fim
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