
Melbourne, Austrália, 02 Out (Inforpress) – O artista plástico Mito Elias defende uma maior aproximação das artes visuais às escolas e comunidades, considerando que a criação artística deve questionar o quotidiano e intervir sobre os problemas da sociedade.
Em entrevista à Inforpress, o também poeta reconhece a evolução das artes visuais em Cabo Verde, particularmente na cidade da Praia, onde tem estado com maior frequência, destacando a presença de murais como uma forma de levar a criação artística para o espaço público.
Considera, contudo, que persistem desafios para consolidar esse movimento e criar condições para uma intervenção mais continuada dos artistas.
Para Mito Elias, a arte não deve limitar-se à produção de obras destinadas à exposição, devendo estabelecer uma relação permanente com a sociedade e os seus problemas.
“A arte não vive apenas de exposições. Precisa de conversa, confronto, pensamento e convivência”, sustenta.
Nesse sentido, defende uma maior aproximação das artes visuais às escolas e a criação de espaços de encontro entre artistas, criadores, público e comunidade.
A relação entre arte, memória e identidade constitui outra dimensão importante na sua concepção da criação artística.
Mito Elias considera que a arte pode contribuir para preservar histórias e experiências colectivas, funcionando como uma forma de resistência ao desaparecimento da memória.
“Um povo começa a desaparecer quando deixa de reconhecer as suas próprias histórias”, afirma.
Para o artista, uma pintura pode guardar aquilo que uma geração viveu, uma fotografia pode devolver um rosto ao tempo, uma canção pode transportar uma língua através de décadas e um poema preservar uma determinada forma de sentir.
Mas preservar a identidade não significa, na sua perspectiva, mantê-la imutável.
“A memória precisa de continuar viva, e aquilo que está vivo transforma-se”, defende.
É a partir dessa perspectiva que questiona também a repetição de determinadas referências na produção artística cabo-verdiana.
Sem contestar a importância histórica de um determinado método associado a Albano Neves e Sousa, que se instalou em Cabo Verde a partir dos anos 1960 e permaneceu como referência, Mito Elias manifesta reservas relativamente à reprodução automática dessa gramática visual, que associa ao que designa por “painel do cachito”.
“O problema começa quando esses elementos deixam de ser matéria de investigação e passam a funcionar como uma fórmula permanente”, afirma.
A questão, segundo Mito Elias, não está na existência de referências ou influências, mas na necessidade de os artistas continuarem a questioná-las e a procurar novas formas de expressão.
O artista defende que as artes visuais devem manter uma relação directa com a realidade cabo-verdiana e abordar questões que afectam o quotidiano das comunidades.
Entre os problemas que considera poderem constituir matéria de criação e reflexão artística estão o lixo, a degradação urbana, a betonização das praias e o desrespeito pelo património arquitectónico.
Para Mito Elias, a arte pode contribuir para colocar esses problemas no espaço público e provocar discussão sobre as transformações da sociedade.
Ao mesmo tempo, considera necessário criar condições para que os artistas possam desenvolver um trabalho continuado, para além da realização pontual de exposições.
O artista reconhece que os jovens criadores dispõem actualmente de mais oportunidades do que a sua geração, nomeadamente mais espaços para expor, maior acesso à informação e maior facilidade na obtenção de materiais.
Mas entende que os desafios também mudaram.
Quando iniciou o seu percurso, recorda, os artistas tinham dificuldades em encontrar espaços para apresentar os seus trabalhos. Hoje, considera que a questão passa também pela necessidade de construir uma voz própria perante a multiplicidade de imagens, referências e possibilidades disponíveis.
Entre os artistas que considera estarem a desenvolver um trabalho conceptual e artístico relevante em Cabo Verde, Mito Elias destaca Tchalê Figueira, Yuran Henrique, Bento Oliveira, Gamal, César Schofield, Hélder Paz, Sónia Lopes e Liliane Reis.
Mais do que identificar tendências ou escolas, Mito Elias valoriza a capacidade de os criadores questionarem o contexto em que trabalham e desenvolverem linguagens próprias.
Na sua perspectiva, a vitalidade das artes visuais depende não apenas da produção de obras, mas também da existência de espaços de diálogo, confronto e reflexão, apontando, a título de exemplo, a Rua das Artes, dinamizada pelo artista Tutu.
É nesse cruzamento entre criação artística, memória e sociedade que situa parte importante da sua própria experiência, defendendo uma arte capaz de permanecer ligada ao território sem ficar limitada por ele.
JMV/AA
Inforpress/Fim
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