
Melbourne, Austrália, 01 Out (Inforpress) – O artista plástico Mito Elias considera que a oralidade crioula, a memória e a experiência da diáspora moldaram uma linguagem artística onde palavra, imagem, som e pintura se cruzam.
Radicado em Melbourne, Austrália, desde 2013, Fernando Hamilton Barbosa Elias, também conhecido como Mito, nasceu na cidade da Praia, em 1965.
Estudou na Ar.Co, em Lisboa, e na Universidade de Victoria, em Melbourne, e vive na diáspora desde 1989. Antes de se fixar na Austrália, o artista residiu em Portugal e nos Estados Unidos.
Expõe regularmente desde 1983 e desenvolve trabalhos nas áreas do desenho, pintura, escrita, vídeo e outras formas de expressão artística.
A sua obra está representada em colecções em diferentes partes do mundo.
Recentemente, esteve em Portugal, onde homenageou os 40 anos da revista Sopinha Alfabeto na CCCV, e em Cabo Verde, onde, conjuntamente com a sua companheira, também artista e parceira do Fandata Studio, dinamizou duas oficinas de arte comunitária.
Ao longo de três semanas, trabalharam com cerca de 200 crianças da cidade da Praia.
Em entrevista à Inforpress, o artista explica que a relação com as artes plásticas começou ainda na infância, através do desenho, da pintura, do recorte e da colagem, antes de pensar na arte como profissão.
“Hoje penso que, muitas vezes, não escolhemos a arte. Somos lentamente conduzidos até ela por uma sucessão de gestos, memórias, encontros e necessidades interiores”, afirma.
A arte tornou-se, entretanto, uma forma de existência e de pensamento, permitindo-lhe expressar aquilo que nem sempre conseguia dizer através da linguagem quotidiana.
“Encontrei nela uma linguagem que ultrapassava a timidez e as limitações da palavra”, explica.
A passagem pela Ar.Co, em Lisboa, representou, segundo Mito Elias, uma “deslocação interior”, sobretudo pelo contacto com novas formas de pensar e de olhar para a criação artística.
Vindo de Cabo Verde, reconhece que trazia consigo uma concepção da arte condicionada pela ausência de referências que não tivera acesso.
Foi na escola portuguesa que entrou em contacto com o conceito de desconstrução, não apenas das formas artísticas, mas também das certezas, dos hábitos de olhar e das ideias preconcebidas sobre aquilo que a arte deveria ser.
“Mais do que me ensinar a fazer, a Ar.Co ensinou-me a olhar”, resume.
Essa aprendizagem levou-o a compreender que criar não significa apenas exteriorizar sentimentos ou impulsos, mas também questioná-los, desmontá-los e confrontá-los com aquilo que já existe.
É nesse percurso que surge o conceito “Mare Calamus”, que, segundo o artista, não nasceu com a intenção de fundar um movimento ou criar uma nova categoria artística, mas da necessidade de nomear uma forma de trabalhar em que escrita, desenho, pintura e memória se encontram.
O próprio nome estabelece uma relação entre o mar e a escrita e, para Mito Elias, o mar é uma presença incontornável na experiência cabo-verdiana, pois, separa e liga, estabelece fronteiras, mas também cria possibilidades de passagem e retorno.
“A escrita, por sua vez, é uma outra forma de navegar”, afirma.
Por isso, “Mare Calamus” é, para o artista, “menos uma categoria e mais um território de passagem”, onde as diferentes linguagens se cruzam e deixam de ter fronteiras rígidas.
“Uma palavra pode ser desenhada. Um desenho pode ser lido. Uma pintura pode guardar uma lembrança. E uma lembrança pode adquirir uma forma visual”, explica.
A oralidade crioula ocupa, por isso, um lugar central no seu universo criativo.
Mito Elias considera a memória uma “matéria viva”, em permanente reconstrução, feita tanto daquilo que se recorda como do que se esquece, do que foi contado e até do que se imagina ter acontecido.
Na cultura cabo-verdiana, sublinha, a história foi durante muito tempo voz, conversa, cantiga, provérbio, conto, música e testemunho.
É nesse sentido que se assume como um “griot”, não necessariamente no sentido tradicional daquele que guarda e transmite a história, mas enquanto alguém que recolhe fragmentos da memória colectiva e os devolve sob outra forma.
“A minha matéria-prima é muitas vezes essa palavra que ouvi, essa história que me contaram, esse fragmento de conversa que ficou suspenso na memória”, diz.
A palavra transforma-se depois em linha, mancha, gesto, desenho ou imagem.
“Interessa-me particularmente esse momento em que a palavra deixa de ser apenas palavra e começa a tornar-se imagem”, acrescenta.
A escrita, a pintura, a música e o vídeo aparecem, assim, como diferentes possibilidades de uma mesma necessidade, comunicar.
Mito Elias conta que já em Cabo Verde fazia caricaturas, declamava poemas, experimentava sons e misturava palavras e imagens.
Mais tarde, vieram a projecção de diapositivos, o vídeo e outras possibilidades tecnológicas.
Não se trata, contudo, de juntar linguagens de forma gratuita, mas de permitir que dialoguem, se contaminem e, por vezes, se contradigam.
“No fundo, talvez eu esteja à procura de uma linguagem que ainda não existe completamente – uma linguagem feita de várias linguagens”, afirma.
A cultura cabo-verdiana está inevitavelmente presente na sua obra, através da memória, da oralidade, da paisagem, do mar, da música, da língua, das histórias, das ausências e das contradições que fazem parte da identidade.
Mas o artista rejeita uma representação meramente literal ou ilustrativa do país.
“Não me interessa fazer uma espécie de inventário visual do país”, afirma.
A relação com Cabo Verde é, antes, mais íntima e interior.
“Cabo Verde está em mim como uma espécie de paisagem interior”, diz.
Essa presença manifesta-se na maneira como pensa, recorda, constrói narrativas e lida com a distância e com o sentimento de pertença.
A experiência da diáspora foi determinante nesse processo. Viver fora de Cabo Verde permitiu-lhe, segundo conta, afastar-se de uma certa saturação em relação ao país e ao contexto político e social que então se vivia.
“A distância permitiu-me dissolver, de forma criativa, uma certa saturação que sentia em relação ao país”, explica.
Foi necessário afastar-se para voltar a ver Cabo Verde e a diáspora permitiu-lhe compreender que um país não é apenas o território onde se nasce, mas também aquilo que se transporta consigo quando se parte.
“É memória, língua, silêncio, paisagem, conflito, afecto, ausência”, enumera.
Para o artista, ser cabo-verdiano na diáspora significa, por isso, habitar um espaço entre a presença e a ausência, transformando a distância em linguagem e a deslocação em matéria artística.
A insularidade também permanece na sua obra, mas não apenas como realidade geográfica.
“A ilha, para mim, não é apenas uma realidade geográfica. É também uma condição interior”, afirma.
Cabo Verde, sublinha, é a sua origem, mas “a ilha não é o meu limite. É o ponto de partida”.
JMV/AA
Inforpress/Fim
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