ENTREVISTA: Embaixador da China exalta 50 anos de relações “sólidas e frutíferas” com Cabo Verde (c/vídeo)

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ENTREVISTA: Embaixador da China exalta 50 anos de relações “sólidas e frutíferas” com Cabo Verde (c/vídeo)
28/03/26 - 03:05 am

*** Por Luís Carvalho, da Inforpress ***

Cidade da Praia, 28 Mar (Inforpress) – O embaixador da China em Cabo Verde afirmou hoje que os 50 anos de relações diplomáticas entre os dois países traduzem uma amizade “cada vez mais sólida” e um percurso marcado por “resultados frutíferos” em diversos sectores.

Em entrevista à Inforpress, no âmbito das comemorações do cinquentenário das relações bilaterais, Zhang Yang começou por enquadrar a cooperação sino-africana através de três marcos temporais.

Segundo explicou, há cerca de sete décadas, China e África partilharam a luta pela independência e pelo desenvolvimento, um processo que cimentou uma base histórica comum.

No que se refere a Cabo Verde, disse que “50 anos representam o estabelecimento das relações diplomáticas”, formalizadas em Abril de 1976, sublinhando que, desde então, os dois países “têm sido verdadeiros amigos e bons parceiros”, tratando-se “como iguais” e prestando “assistência mútua de forma sincera”.

O terceiro marco apontado pelo diplomata chinês é a tradição da diplomacia chinesa de eleger África como destino da primeira visita anual do ministro dos Negócios Estrangeiros, uma prática, frisou, mantida há mais de três décadas, resistindo a todas as adversidades, tornando-se um princípio de uma crença da diplomacia chinesa.

Para o embaixador, este facto demonstra a continuidade da amizade entre a China e África, bem como “a estabilidade da política externa chinesa” e a unidade entre os países do chamado Sul Global, compartilhando “experiências históricas semelhantes e ideias comuns”.

Relativamente ao balanço das cinco décadas de cooperação com Cabo Verde, Zhang Yang considerou que a relação bilateral “está num bom caminho para o desenvolvimento comum”, realçando ganhos concretos em áreas como infraestruturas, educação, saúde, agricultura, tecnologias de informação e formação de recursos humanos.

“Ao longo destes 50 anos, a China tem apoiado activamente o desenvolvimento económico e social de Cabo Verde, dentro das suas capacidades”, afirmou, lembrando que o apoio chinês remonta ainda ao período da luta pela independência do arquipélago.

Entre os principais marcos da cooperação, o diplomata apontou o elevado nível de confiança política entre os dois Estados e a recente elevação das relações a parceria estratégica, formalizada em Setembro de 2024, o que, vincou, abre caminho para “mais 50 anos de ainda maior sucesso”.

Zhang Yang elencou ainda diversos projectos emblemáticos construídos com apoio chinês, que considera símbolos da amizade bilateral, como o Palácio do Governo, o Palácio da Assembleia Nacional, o Estádio Nacional e o novo campus da Universidade de Cabo Verde.

Apontou igualmente iniciativas nas áreas da segurança, habitação social e saúde, com destaque para a construção da maternidade do Hospital Baptista de Sousa, em São Vicente.

A cooperação pragmática entre os dois países, sublinhou, tem produzido resultados “muito frutíferos”.

“Gerações de engenheiros e técnicos chineses têm viajado dezenas de milhares de quilómetro até Cabo Verde, um país próspero e seguro, para participarem na construção de edifícios emblemáticos com assistência chinesa”, indicou o diplomata Zhang Yang. 

Outro aspecto salientado foi a presença contínua de equipas médicas chinesas em Cabo Verde ao longo de mais de quatro décadas, contribuindo para a partilha de conhecimento e melhoria dos serviços de saúde no país.

Questionado sobre novas oportunidades de cooperação, nomeadamente na área da economia verde, o embaixador afirmou que a China é líder mundial em sectores como veículos eléctricos, tendo no ano passado produzido e comercializado mais de 16 milhões de unidades, enquanto no sector de produção de baterias de lítio ocupa mais de 70 por cento do mercado internacional.

Quanto à energia fotovoltaica, avançou o diplomata, há dez anos consecutivos que o seu país lidera o mercado mundial.

Para o representante de Pequim na cidade da Praia, a China está disponível para apoiar Cabo Verde na área da economia verde, conforme as suas necessidades.

“A palavra-chave é o que Cabo Verde quer. A China pode oferecer soluções nessa área”, garantiu, avançando que decorrem negociações para um acordo de parceria económica entre os dois países.

No mesmo âmbito, anunciou que o gigante asiático irá implementar, a partir de Maio deste ano, um regime de tarifa zero para 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas, incluindo Cabo Verde, medida que visa impulsionar o comércio e criar novas oportunidades de desenvolvimento.

Segundo Zhang Yang, o futuro acordo bilateral permitirá “alavancar as vantagens geográficas de Cabo Verde” e criar novos polos de crescimento em sectores como energias renováveis, economia azul, logística e infraestruturas, além de atrair mais investimentos chineses.

“A relação entre os nossos países já transcendeu o âmbito bilateral, exercendo uma influência muito significativa na África e no mundo”, afirmou, assegurando que a China está disposta a trabalhar lado a lado com Cabo Verde para “construir um futuro mais brilhante e próspero”.

Zhang Yang esclareceu ainda que a cooperação sino-cabo-verdiana “não se dirige contra qualquer terceiro” e não impõe condições políticas, reiterando a oposição da China a “quaisquer acusações infundadas” que visem prejudicar esta parceria.

A cooperação entre os dois países, continuou o diplomata, deixou de ser meramente institucional para uma acção envolvendo empresários chineses em Cabo Verde, o que é “particularmente visível e impactante” no sector do comércio, em que desempenham “um papel central” na dinamização do mercado interno e no acesso da população a bens de consumo.

Desde meados da década de 1990, com a abertura das primeiras lojas chinesas na cidade da Praia, assistiu-se a uma rápida expansão deste tipo de negócio por várias ilhas do arquipélago.

Hoje, as chamadas “lojas chinesas” fazem parte do quotidiano cabo-verdiano. 

Espalhadas por centros urbanos e bairros periféricos, estas lojas de comércio geral oferecem uma grande diversidade de produtos, desde vestuário e utensílios domésticos até materiais escolares e de construção civil.

A criação da Associação dos Comerciantes Chineses e a sua expansão por várias ilhas reflectem não só o crescimento do número de lojas, mas também a intenção de integrar melhor as práticas comerciais às normas nacionais e fortalecer a relação com as instituições cabo-verdianas.

Na mensagem final aos cabo-verdianos, Zhang Yang enalteceu a estabilidade política, a segurança e a hospitalidade do país, qualificando Cabo Verde como “um parceiro muito importante da China em África”.

O Governo de Cabo Verde não fica indiferente em relação aos resultados da cooperação entre os dois países, a avaliar pelas declarações dos ministros Victor Coutinho e Paulo Rocha, respectivamente das Infraestruturas e da Administração Interna. 

LC/AA

Inforpress/Fim

 

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