
Cidade da Praia, 18 Out (Inforpress) – A batucadeira Isilda Tavares considera que o batuque tem conquistado maior reconhecimento na cultura cabo-verdiana, mas pede mais oportunidades nos grandes palcos do país para preservar, valorizar e transmitir esta expressão cultural às novas gerações.
Em declarações à Inforpress, no âmbito das celebrações do Dia Nacional do Batuque, Isilda Tavares, conhecida artisticamente por Sulita, afirmou que o batuque é “muito mais do que música e dança”, pois é “uma paixão, uma forma de expressão, um espaço de convívio e, acima de tudo, uma parte essencial da sua vida”.
A batucadeira destaca os avanços alcançados na valorização desta manifestação cultural cabo-verdiana, mas alerta para a necessidade de garantir maior presença dos grupos nos grandes festivais do país.
Tavares fundou o grupo Mondon, já com 21 anos de existência.
Depois de deixar o grupo, há cerca de um ano, passou a integrar o Raiz Tambarina, de Achada Grande Trás, na cidade da Praia.
O grupo tem vindo a retomar a sua atividade com novos elementos, mantendo viva uma história que, segundo a artista, ultrapassa os 30 anos.
Actualmente, Raiz Tambarina conta com 23 elementos ativos e procura dinamizar o batuque através de diferentes iniciativas, incluindo atuações em espaços noturnos e apresentações em ocasiões especiais, como aniversários, casamentos e baptizados, além de recepções a pessoas no aeroporto.
Ao avaliar a situação actual do batuque em Cabo Verde, Sulita considera que esta manifestação cultural tem registado uma evolução positiva, sobretudo a partir de 2019 e 2020, período que identifica como um momento de viragem para a sua valorização.
Na sua perspetiva, durante muito tempo, os grupos de batucadeiras tiveram pouco acesso a palcos, apoios e espaços de apresentação.
A mudança deve-se, em grande parte, à dinâmica desenvolvida pelas próprias batucadeiras, incluindo as que vivem na diáspora, que têm contribuído para dar maior visibilidade ao batuque dentro e fora do arquipélago.
Para a artista, o reconhecimento alcançado não deve significar um ponto de chegada.
Defende que é necessário continuar a trabalhar com dedicação, motivação e fé para consolidar o lugar do batuque na cultura cabo-verdiana.
Isilda Tavares destaca também a importância da evolução artística e da participação das novas gerações.
Na sua opinião, o batuque não deve ficar preso ao passado, mas preservar as suas raízes e, ao mesmo tempo, acompanhar as transformações da sociedade.
“Eu acho que nós evoluímos para melhor”, afirma, mas cada mudança deve acrescentar algo àquilo que foi construído pelas gerações anteriores.
Apesar dos avanços que reconhece, Sulita considera que o batuque continua a ter uma presença insuficiente nos grandes festivais realizados em Cabo Verde, situação que contrasta com a importância histórica e cultural desta expressão artística.
A artista considera que os organizadores dos festivais devem reservar mais espaço aos grupos de batuque, permitindo-lhes apresentar o seu trabalho perante públicos mais alargados.
Considera igualmente que o Governo deve incentivar os agentes culturais a incluir esta manifestação nos respetivos programas.
“O batuque não está a ter muito espaço nos grandes festivais. Há festivais que não têm batuque, e nós devemos investir mais nesta tradição. Acredito que o Governo deve incentivar os agentes culturais a incluir o batuque nos festivais, porque é uma parte importante da nossa cultura e merece mais visibilidade”, reiterou.
Tavares aponta a realização de festivais de batuque na Praia e no interior do país como exemplos do trabalho desenvolvido pelas próprias batucadeiras para manter a tradição ativa.
Destaca ainda a iniciativa Roda de Batuque, promovida por Bob Mascarenhas, que considera ter sido importante para a valorização e a visibilidade dos grupos.
Na sua perspetiva, o batuque merece maior presença nos grandes palcos não apenas pela sua dimensão artística, mas também pelo seu papel na preservação da identidade cultural cabo-verdiana.
Através das letras, das vozes e das mensagens transmitidas, esta manifestação pode contribuir para a sensibilização da sociedade sobre questões importantes.
A batucadeira acredita que o batuque tem capacidade para chegar a diferentes públicos, desde crianças e jovens até adultos, incluindo os homens, que também podem participar nesta expressão cultural.
Sobre a participação masculina, defende uma visão inclusiva, considerando que os homens devem ter liberdade para brincar batuque, tal como as mulheres. Na sua perspetiva, a participação de todos contribui para a continuidade e a evolução desta tradição.
A artista sublinha ainda a importância das redes sociais e dos meios de comunicação na divulgação do trabalho dos grupos, considerando que a presença nos meios digitais ajuda a manter o batuque na memória coletiva e a garantir que as novas gerações conheçam esta herança cultural.
Quando fala do significado do batuque na sua vida, Sulita destaca a ligação profunda que mantém com esta arte.
Para ela, o batuque representa terapia, descontração, prazer e trabalho, e seu principal espaço de lazer, uma atividade que lhe permite expressar sentimentos, partilhar experiências e manter-se ligada às suas raízes.
A sua trajetória, desde a fundação do Mondon até à atual integração no Raiz Tambarina, reflete uma ligação duradoura a esta tradição, que continua a defender e a promover.
No âmbito do Dia Nacional do Batuque, assinalado a 31 de julho, a mensagem de Sulita centra-se na valorização e continuidade desta manifestação cultural. Para a batucadeira, preservar esta expressão exige o envolvimento dos grupos, das instituições, dos agentes culturais e da sociedade em geral.
Mais do que manter vivo um ritmo tradicional, trata-se, segundo a entrevistada, de garantir que o batuque continue a ocupar o lugar que merece na cultura cabo-verdiana, com mais oportunidades, visibilidade e presença nos palcos do país.
CG/AA
Inforpress/Fim
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