ENTREVISTA: Coordenadora de Medicina alerta para desafios urgentes na regulamentação digital, docente e estrutural do curso

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ENTREVISTA: Coordenadora de Medicina alerta para desafios urgentes na regulamentação digital, docente e estrutural do curso
23/07/26 - 08:15 am

Cidade da Praia, 23 Jul (Inforpress) – O ensino superior em Cabo Verde, particularmente o curso de Medicina, enfrenta desafios críticos na transformação digital, regulatória e na gestão de recursos humanos, alertou a coordenadora do mestrado integrado em Medicina da Uni-CV, Antonieta Soares.

Em entrevista à Inforpress, Antonieta Soares apontou a ausência de um quadro jurídico específico para o ecossistema digital académico como uma prioridade premente, de forma a garantir a transparência nas avaliações e mitigar riscos de fraude.

A professora da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) salientou ainda que as restrições orçamentais têm condicionado o acesso a bases de dados bibliográficos internacionais e a plataformas de partilha de recursos científicos, indispensáveis para a elevação da qualidade da formação e da investigação.

“A evolução tecnológica abriu portas a alternativas económicas para contornar as restrições logísticas e éticas do uso de cadáveres ou modelos anatómicos físicos. O uso de óculos 3D de realidade virtual surge como a solução ideal para o ensino moderno da anatomia”, defendeu, reconhecendo que, apesar destas limitações, os alunos têm mantido elevados níveis de aproveitamento.

Explicou que o curso de Medicina em Cabo Verde, viabilizado através de uma parceria entre os governos cabo-verdiano e português, com o envolvimento da Universidade de Coimbra, reclama também reformas na formação pedagógica do corpo docente e na infra-estrutura do Instituto de Medicina Legal (IML).

“A constatação reflecte os desafios actuais na consolidação da carreira académica dos médicos locais e a necessidade de deslocalizar o IML para junto de um hospital ou universidade para potenciar a investigação científica”, afirmou.

Questionada sobre os desafios na carreira académica e na formação de professores, Antonieta Soares avançou que o corpo docente do curso enfrenta barreiras estruturais ligadas à regulamentação das instituições de ensino e de saúde, sendo que a maioria dos profissionais do hospital actua na Uni-CV como prestadores de serviços, divididos entre as regras da academia e as da saúde.

“Os médicos integrados no ensino superior necessitam de formação pedagógica e de graus de mestre ou doutor, independentemente da sua especialidade clínica”, realçou, apontando a necessidade de investimento e de reforço de competências docentes, abrangendo áreas como planeamento de aulas, avaliação e acompanhamento de alunos em ambiente hospitalar.

Quanto ao financiamento, Antonieta Soares revelou que a Universidade de Coimbra mantém total disponibilidade para apoiar o projecto, as deslocações, reuniões e missões de trabalho que geram custos substanciais e que requerem soluções financeiras sustentáveis.

Referindo-se ao apoio do IML para que os alunos de Medicina possam trabalhar a vertente prática, avançou que, apesar da existência de um protocolo bilateral que garante a continuidade do curso, as autoridades cabo-verdianas enfrentam o desafio de definir uma estratégia clara para corrigir as lacunas estruturais neste campo.

Quanto aos desafios, a professora afirmou que a Uni-CV tem uma decisão clara de retoma e consolidação da formação médica, cujo foco não se limita apenas a formar profissionais, mas a encarar a formação em saúde com a máxima seriedade.

“Precisamos disso para catapultar a nossa qualidade, reduzir custos de forma sustentável e evitar a paralisia do sector. Sem esse rigor, o futuro dos estudantes que escolhem esta área torna-se incerto e sem garantias sobre o que irão enfrentar no mercado de trabalho”, acrescentou.

Neste âmbito, completou que o Programa de Acção Pedagógica (PAP) reside, sem dúvida, na gestão dos recursos humanos como o maior desafio do curso.

A coordenadora entende que, para resolver a questão dos professores, é preciso motivar e reter os docentes. Afirmou ainda que o curso não sofre uma crise de financiamento imediata, porque o Governo tem financiado regularmente o projecto, enquanto as parcerias continuam a fazer o seu trabalho.

“O problema crítico não é o dinheiro, é a falta de recursos humanos na Universidade e no hospital. Para manter os profissionais focados, precisamos de motivação académica e financeira”, frisou, assegurando que o projecto “tem pernas para andar” e continuará a elevar a projecção internacional do país.

PC/CP

Inforpress/Fim

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