ENTREVISTA/Calú Bana: "Hoje qualquer batida cantada em crioulo já é considerada música cabo-verdiana"

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ENTREVISTA/Calú Bana: "Hoje qualquer batida cantada em crioulo já é considerada música cabo-verdiana"
25/07/26 - 06:45 am

***Por: José Maria Varela, da Agência Inforpress***

Pawtucket, Estados Unidos, 25 Jul (Inforpress) – O cantor cabo-verdiano Calú Bana considera que a música nacional conheceu uma evolução significativa nas últimas décadas, mas alerta para a crescente descaracterização dos géneros tradicionais, defendendo a preservação da identidade musical e do legado dos grandes compositores cabo-verdianos.

Em entrevista à Inforpress, o intérprete faz um balanço de mais de quatro décadas de carreira, recorda as principais influências artísticas, analisa a evolução da música cabo-verdiana e deixa um apelo às novas gerações para valorizarem o património musical do país.

Calú Bana conta que a música entrou cedo na sua vida por influência da família, recordando o avô Miguel Rodrigues Castro e o pai, Eduardo João Xalino, ambos músicos, bem como o incentivo da mãe para seguir a carreira artística.

Entre as referências que marcaram o seu percurso destaca Bana, Ildo Lobo, Zeca de Nha Reinalda, Norberto Tavares, Tchim Tabari e Nácia Gomes.

Ao nível da composição, aponta Manuel d'Novas, Paulino Vieira, Betu, Antero Simas, Ano Nobo, Norberto Tavares e Catchás como autores que influenciaram a sua formação musical.

O cantor considera que a vitória na primeira edição do concurso Todo o Mundo Canta, em 1982, marcou o início da sua carreira profissional. Foi também nessa fase que passou a ser conhecido como Calú Bana, alcunha atribuída pelo público devido à semelhança do timbre da sua voz com o do Bana.

Outro momento determinante foi a emigração para os Estados Unidos, em 1989. Segundo explica, a mudança permitiu-lhe gravar praticamente toda a sua discografia, alargar contactos profissionais e internacionalizar a sua carreira, embora reconheça que o processo de adaptação ao país tenha sido exigente.

Antes da carreira a solo integrou grupos como os Ice Band e Os Pecos, experiências que considera fundamentais para a sua evolução artística.

Em 1997 editou Pescador, o primeiro álbum em nome próprio, inspirado nas histórias dos pescadores cabo-verdianos e das famílias afectadas pelas tragédias do mar.

Sobre a evolução da sua carreira, Calú Bana reconhece que os avanços tecnológicos melhoraram significativamente a produção musical, mas considera que o principal factor de crescimento foi a experiência acumulada ao longo dos anos.

"Hoje posso afirmar que sou um artista maduro", afirmou.

Apesar de gravar temas de carácter mais comercial, rejeita a ideia de ter abandonado a música tradicional, assegurando que continua profundamente ligado à morna, coladeira, funaná, batuco e talaia baxu.

Manuel d'Novas ocupa, segundo afirma, um lugar único na música cabo-verdiana. O cantor considera-o um dos maiores compositores nacionais e explica que o álbum Portador di Nos Alma foi concebido como homenagem àquele que descreve como um dos melhores retratistas da identidade cabo-verdiana.

Ao analisar o panorama musical actual, Calú Bana reconhece maior criatividade e melhor qualidade técnica nas novas produções, mas manifesta preocupação com aquilo que considera uma descaracterização do conceito de música cabo-verdiana.

"Hoje qualquer batida, mesmo que não pertença aos nossos géneros musicais, se for cantada em crioulo já é considerada música cabo-verdiana", criticou.

Ainda assim, reconhece que músicos e compositores contemporâneos têm contribuído para renovar géneros tradicionais como a morna, o funaná, o batuco e a coladeira.

Na sua perspectiva, a classificação da morna como Património Cultural Imaterial da Humanidade abriu novas oportunidades para a projecção internacional da música cabo-verdiana.

Aos jovens músicos recomenda que preservem o legado de compositores como Manuel d'Novas, Paulino Vieira, Betu, Norberto Tavares, Bana, Ildo Lobo, Cesária Évora, Catchás e Zeca de Nha Reinalda, sem deixar de aproveitar os recursos tecnológicos disponíveis.

Embora não tenha um novo álbum em preparação, anuncia para breve o lançamento do single N'ka Krê Fala de Amor, em parceria com Augusto Pires.

Entre os projectos que ainda pretende concretizar, destaca o sonho de actuar acompanhado por uma orquestra de 72 músicos perante um milhão de espectadores.

No final da entrevista, agradece o apoio dos fãs ao longo da carreira e sublinha a importância da união e da resiliência do povo cabo-verdiano.

JMV/HF

Inforpress/Fim

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