REPORTAGEM: Entre o asfalto e o ganha-pão na batalha quotidiana pelas calçadas da Praia

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REPORTAGEM: Entre o asfalto e o ganha-pão na batalha quotidiana pelas calçadas da Praia
22/07/26 - 01:49 pm

***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 22 Jul (Inforpress) - A mobilidade urbana choca todos os dias com a dura necessidade de sobrevivência nas calçadas da capital, onde a urgência do ganha-pão disputa cada metro quadrado com carros, esplanadas e o direito de caminhar em segurança.

Por entre o cinzento do betão e o ritmo acelerado da Praia, o peão aprendeu a equilibrar-se num espaço cada vez mais espremido.

São oito da manhã. O sol começa a aquecer as paredes cinzentas dos edifícios, mas o trânsito já não espera por ninguém, e mal começa o dia, na calçada — já por si estreita e recortada por buracos e pedras soltas —, não há espaço para pôr um pé.

Nesta ronda, a Inforpress constata, de um lado, alguidares coloridos repletos de peixe, frutas e vegetais e, do outro, uma viatura estacionada com duas rodas em cima do passeio e as cadeiras de uma esplanada a fechar o corredor.

Para dona Cesaltina de 68 anos, que caminha devagar com a ajuda de uma bengala, a escolha não é uma questão de preferência, mas de necessidade, descer a guia e caminhar no asfalto, isto é, dar um passo para baixo, saindo da parte elevada do passeio para entrar na faixa de rodagem dos veículos.

“Caminhar no passeio é impossível. Se não tropeço numa bacia, bato no espelho de um carro. O problema é que na estrada os carros passam a rasar. A gente vive com o coração na mão” desabafa a reformada enquanto se desvia de um ‘hiace’ que buzina nas suas costas.

Dona Cesaltina não está só. Grávidas com sacos de compras, mães com carrinhos de bebé e pessoas com mobilidade reduzida partilham diariamente a via de rodagem com táxis, autocarros e carrinhas de carga, num jogo perigoso de esquiva urbana.

A poucos metros dali, sentada num banco de plástico improvisado, está a ‘rabidante’ (vendedora) Luísa Mendes que, com quatro filhos para sustentar e sem qualquer alternativa no mercado formal, faz da calçada o seu posto de trabalho há mais de uma década.

“Ninguém gosta de estar aqui no meio da poeira e do perigo. Se eu tivesse um espaço coberto, com clientes a entrar, achas que ficava ao sol?” pergunta, enquanto arruma cuidadosamente as mangas na bacia.

“Nós sabemos que atrapalhamos quem passa, mas se sair daqui os meus filhos não comem à noite. É uma questão de prioridade”, exterioriza.

O cenário no Sucupira não é isolado, repete-se na Achada Santo António, no Plateau, e outras zonas, revelando a verdadeira anatomia deste conflito urbano.

No centro da questão está uma premente necessidade social, na medida em que, longe de ser um capricho, o comércio informal funciona como a principal rede de salvação económica perante a escassez de emprego formal, constituindo a verdadeira espinha dorsal do sustento de milhares de famílias na capital.

Esta realidade choca de frente com um evidente gargalo urbano, onde a infraestrutura da cidade simplesmente não acompanha o seu crescimento acelerado.

Trata-se de um espaço público sufocado, com passeios que muitas vezes não chegam a ter um metro de largura útil, desprovidos de rampas e constantemente bloqueados por esplanadas fixas ou pelo estacionamento selvagem de uma frota automóvel fora de controlo.

O impacto na segurança surge como a consequência mais grave deste estrangulamento, pelo que, sem espaço para circular, centenas de peões, entre os quais idosos, grávidas e crianças, são diariamente empurrados para a faixa de rodagem em zonas de tráfego intenso, elevando drasticamente o risco de atropelamentos e transformando a simples caminhada diária num acto de coragem.

Para a maioria das pessoas abordadas pela Inforpress, o grande desafio da Praia reside precisamente nesta balança delicada: de um lado, a urgência da subsistência diária, do outro, o direito básico à cidade, à acessibilidade universal e à segurança rodoviária.

No entender destas, a solução não passa por apagar a vitalidade do comércio de rua — que é parte integrante da identidade cabo-verdiana —, mas por desenhar soluções inclusivas como mercados de proximidade dignos, fiscalização efectiva do espaço público e um planeamento urbano que volte a colocar o peão no centro das atenções.

Até lá, as calçadas da Praia continuam a ser este palco vivo de negociação diária, onde cada metro quadrado disputado conta uma história de sobrevivência e resistência urbana.

As pessoas almejam ver e viver numa cidade capital bonita e aprazível, pelo que o apelo que emerge desta realidade dirige-se, em primeiro lugar, à Câmara Municipal e ao Governo.

É entendimento geral que é urgente passar da reacção pontual para um planeamento urbano inclusivo, exigindo-se das autoridades a criação de mercados de proximidade dignos que retirem as rabidantes da extrema vulnerabilidade do asfalto, acompanhada de uma fiscalização firme sobre o estacionamento ilegal e o bloqueio comercial dos passeios.

Em jogo não está apenas a estética da capital, mas a dignidade de quem trabalha e a segurança de quem nela caminha.

O apelo ganha hoje uma urgência renovada, já que, segundo o engenheiro José Monteiro, se antes a gestão do espaço público ficava refém de empurrões institucionais, a nova geografia política não deixa margem para esquivas: a Câmara e o Governo falam hoje a mesma língua e partilham a mesma visão.

Resta saber se este alinhamento perfeito se traduzirá em soluções concretas para as ‘rabidantes’ e para os peões, ou se a calçada continuará a ser o parente pobre das prioridades da capital.

SC/CP

Inforpress/Fim

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