
Cidade da Praia, 21 Mar (Inforpress) – A Sociedade Cabo-verdiana de Autores (SOCA) assinala o Dia Mundial da Poesia, hoje, com celebrações culturais e alertas sobre o futuro da criação literária, num contexto em que reforça a importância da leitura e formação dos jovens autores.
O presidente da SOCA, Dany Spínola, afirmou que a data tem sido celebrada há mais de uma década, com iniciativas culturais realizadas em vários municípios do país, num esforço de descentralização da poesia e de aproximação às comunidades.
Ao longo dos anos, as comemorações já passaram por locais como Cidade Velha, São Filipe, Santa Catarina, Tarrafal e Santa Cruz, integrando momentos de declamação, música, tertúlias literárias e feiras do livro.
Entre as iniciativas mais simbólicas esteve a “rua poética”, que levou poesia e intervenção artística ao espaço público, transformando ruas em palcos abertos à criação.
Em algumas edições, explicou que a celebração contou ainda com a participação de figuras institucionais de topo, reforçando a dimensão simbólica da data no panorama cultural cabo-verdiano.
Apesar do ambiente de celebração, o presidente da SOCA, lançou um alerta sobre a qualidade e sustentabilidade da nova geração de escritores.
Segundo aquele responsável, há jovens autores com talento e obras já publicadas, mas muitos ainda não atingiram maturidade literária suficiente, devido sobretudo à fraca relação com a leitura.
“Quando as pessoas não leem muito, não podem ter pretensão de fazer grande coisa”, afirmou, defendendo que a escrita poética exige contacto contínuo com os clássicos e um percurso sólido de formação literária.
Para Spínola, a criação artística não se limita à técnica ou à formação académica, envolve imaginação, disciplina e um processo de construção interna que só se desenvolve com leitura constante e prática.
O poeta rejeita a ideia de uma ruptura entre gerações, mas admite mudanças no modo como a poesia é produzida e consumida. Ainda assim, exortou para o risco de certas tendências modernas se afastarem da profundidade literária.
Na sua visão, a criação poética autêntica exige originalidade e reflexão, e não deve assentar na imitação de modelos existentes.
“Quando o escritor escreve sempre na mesma linha dos outros, perde impacto”, advertiu, sublinhando que a inovação sem base de conhecimento pode fragilizar a qualidade da produção literária.
Este ano, as celebrações incluem também uma forte componente formativa e de reflexão sobre o sector cultural.
Está previsto um encontro que irá abordar a economia criativa, a valorização do trabalho artístico e a gestão de direitos de autor no contexto digital.
Entre os temas em destaque estarão a rentabilização da produção musical e o papel das plataformas digitais na divulgação e remuneração dos artistas.
A iniciativa pretende ainda reforçar o debate sobre o futuro da indústria cultural em Cabo Verde, num contexto em que os criadores enfrentam novos desafios ligados à digitalização e à monetização das obras.
Mais do que uma celebração simbólica, o Dia Mundial da Poesia surge este ano como um espaço de reflexão sobre o estado da criação literária no país.
Entre a valorização das iniciativas culturais e o reconhecimento de novos talentos, permanece o alerta central: sem leitura consistente e formação contínua, a poesia corre o risco de perder profundidade num cenário cada vez mais marcado pela rapidez e pela produção imediata.
Num país onde a poesia sempre ocupou um lugar central na identidade cultural, o desafio agora passa por garantir que a nova geração não apenas escreva, mas compreenda, estude e transforme a tradição literária num futuro sustentável.
As actividades deste ano estão previstas para a próxima quinta-feira, dia 26, em simultâneo com a celebração do Dia da Mulher Cabo-verdiana, no local ainda por confirmar, conforme avançou a SOCA.
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Inforpress/Fim
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