
***Por: Keila Antunes e Simão Rodrigues, da Agência Inforpress***
Cidade da Praia, 27 Mar (Inforpress) – Na ilha da Boa Vista, onde o turismo dita ritmos e contrastes, Diana Santos, jovem agente da Polícia Nacional, aprendeu cedo a olhar para além do óbvio e abraçou uma profissão dantes exclusiva aos homens.
Na data em que se assinala o Dia da Mulher Cabo-verdiana, Diana Santos abriu o coração e partilhou com a Inforpress os desafios, as conquistas e a realidade de ser mulher na Polícia.
Aos 26 anos, carrega na voz a firmeza de quem escolheu servir e, ao mesmo tempo, a leveza de quem insiste em viver plenamente cada papel que a define.
“Sou uma jovem senhora que desde muito cedo quis alcançar o céu, sem tirar os pés do chão”, afirmou, numa síntese que traduz o seu percurso e a sua forma de estar na vida.
Filha de mãe boavistense e pai natural do interior de Santa Cruz, na ilha de Santiago, Diana cresceu entre referências familiares que moldaram o seu sentido de responsabilidade.
Foi ainda na infância, enquanto estudava na escola de Sal Rei, que começou a perceber o papel da Polícia Nacional na sociedade, uma presença que não lhe passou despercebida.
“Identifiquei logo… o sangue bateu”, recordou, ao explicar o momento em que percebeu que aquele também poderia ser o seu caminho.
Determinada, aguardou completar 20 anos para se candidatar e, viu o sonho tornar-se realidade, quando superou as provas e ingressou na corporação.
Hoje, com dois anos e meio de serviço, integra o Centro de Comando e Controlo de Câmaras de Vigilância, e contribui, diariamente, para a segurança da ilha que considera “querida”.
Mas é fora da lógica operacional que o perfil de Diana ganha densidade.
Questionada sobre quem é a mulher por trás da farda, não hesita.
“É uma força criadora”, refere nesta expressão, quase poética, revelando uma visão que ultrapassa a rigidez institucional e se ancora numa ideia de resiliência e capacidade de gestão, não apenas de tarefas, mas de emoções e expectativas.
A rotina é exigente. Entre turnos, responsabilidade pública e vida pessoal, Diana encontrou no desporto um eixo de equilíbrio.
Treina regularmente, pratica ginásio e natação, e vê no movimento uma forma de disciplina e libertação.
“Às vezes também falho porque não somos máquinas”, reconhece.
Essa consciência humaniza a figura policial e aproxima-a da realidade de muitas mulheres cabo-verdianas que conciliam múltiplos papéis.
No caso das mulheres na polícia, há um factor adicional, o escrutínio social.
“Muitas vezes somos cobradas fora do trabalho. Há lugares onde as pessoas acham que não deveríamos estar, só porque somos polícias”, explica, ressaltando que “entre o uniforme e o lazer, existe uma linha ténue que, para muitas, ainda é julgada”.
A jovem recusa essa limitação, pois defende o direito de ser, simultaneamente, agente e mulher, profissional e pessoa comum.
O ingresso na Polícia Nacional alterou também a sua forma de ver o mundo, pois situações antes encaradas como normais passaram a ser observadas com maior atenção e sentido crítico.
“Hoje levo a vida de forma mais cautelosa e com vontade de ajudar mais”, disse, sublinhando uma evolução que não é apenas profissional, mas também humana.
Nos momentos livres, para além do treino, encontra na música outra forma de expressão, uma ligação antiga que mantém viva.
Soma-se a isso o convívio com a família e os amigos “verdadeiros”, numa valorização clara do essencial.
Entre a disciplina da farda e a liberdade da vida pessoal, Diana Santos constrói o seu caminho com o equilíbrio possível, nem sempre perfeito, mas consciente.
Neste Dia da Mulher Cabo-verdiana, a sua história reflecte uma geração que desafia estereótipos e redefine lugares.
Uma mulher que vigia, protege e serve, sem abdicar de ser, simplesmente, humana.
KA/SR//HF
Inforpress/Fim
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