Cinema nacional enfrenta limitações de financiamento e aposta em coproduções internacionais – produtores

Inicio | Cultura
Cinema nacional enfrenta limitações de financiamento e aposta em coproduções internacionais – produtores
07/08/26 - 05:08 pm

Cidade da Praia, 07 Ago (Inforpress) – A insuficiência de financiamento nacional continua a condicionar a produção cinematográfica em Cabo Verde, levando produtores a recorrer a coproduções e programas internacionais para viabilizar projectos e garantir condições técnicas e artísticas competitivas.

Conforme intervenientes no sector, à Inforpress, a dependência de coproduções internacionais, residências e programas de financiamento estrangeiros tem permitido a realização e circulação de obras cabo-verdianas.

Contudo, os profissionais do sector defendem que estas alternativas não devem substituir a criação de uma política cinematográfica nacional capaz de garantir financiamento regular e condições sustentáveis de produção.

A produtora Natasha Craveiro considera que perante a actual realidade do sector as parcerias com produtores e instituições estrangeiras constituem uma das principais vias para concretizar obras com padrões técnicos e artísticos, capazes de competir nos mercados internacionais.

“Nós ainda não dispomos de fundos nacionais estruturados para o cinema. Fazer um filme com os padrões exigidos pelos mercados internacionais é praticamente impossível contando apenas com os apoios existentes no país”, afirmou, em entrevista à Inforpress.

Como exemplo, apontou “Omi Nobu”, produzido através de parcerias entre África e Europa, com um orçamento de cerca de 250 mil euros. 

A coprodução permitiu assegurar recursos para a produção e realizar a pós-produção fora de Cabo Verde, recorrendo a estruturas e profissionais especializados.

Para realizadora, mais do que depender do exterior para cada projecto, Cabo Verde precisa criar condições internas para consolidar o sector, nomeadamente através de fundos públicos de apoio ao cinema e audiovisual, incentivos fiscais e formação contínua de técnicos, realizadores e produtores.

“O talento e as histórias já existem. O que falta é que as políticas públicas acompanhem a maturidade e a ousadia dos nossos criadores”, considerou.

A falta de estruturação interna é também apontada pelo director, produtor, roteirista e fundador da Servir Cinema, Júlio Silvão, como uma das principais fragilidades do sector.

Segundo o cineasta, Cabo Verde dispõe de uma Lei do Cinema, mas a legislação ainda não produziu um sistema de financiamento estável e mecanismos especializados de gestão.

“Nós já temos o que é fundamental, ou melhor, o que é determinante, que é uma lei do cinema”, afirmou, defendendo a sua aplicação e posterior avaliação para determinar eventuais necessidades de revisão.

Júlio Silvão chama igualmente a atenção para o Núcleo Nacional do Cinema (Nunac), estrutura prevista na legislação para contribuir para a gestão do sector, mas que, segundo afirma, não funciona de forma efectiva.

Na sua perspectiva, a ausência de uma estrutura especializada dificulta a definição de critérios regulares para o financiamento e leva os produtores a procurar alternativas fora do país.

O cineasta recorda ainda que Cabo Verde manteve, no passado, acordos de cooperação cinematográfica com países como França e Portugal e participou em iniciativas com o Brasil. 

Entre estas, apontou o DOC TV CPLP, concurso em que afirma ter vencido a primeira edição realizada em Cabo Verde, obtendo 50 mil euros para a produção de um filme.

“Cabo Verde, neste momento, não tem nenhum acordo cinematográfico com nenhum país do mundo. Como podemos ter financiamento de fora se nós não temos acordo para financiamento? Isso é gravíssimo”, afirmou.

Enquanto procuram financiamento, os produtores recorrem a residências, laboratórios e mercados internacionais. 

É nesse circuito que se insere “Dja Branku Dja”, longa-metragem híbrido de Natasha Craveiro, actualmente em fase final de desenvolvimento, após passagem por residências e mercados de coprodução na África e na Europa.

O projecto aborda os traumas coloniais e as complexidades de um Cabo Verde pós-colonial, evidenciando como os criadores nacionais procuram no exterior financiamento, estruturas técnicas e redes profissionais para concretizar as suas obras.

Para Júlio Silvão, o problema ultrapassa ainda a produção e envolve a exibição, questionando a sustentabilidade de um sector que procura financiamento para realizar filmes, mas enfrenta limitações para os apresentar ao público.

“Não há nenhuma sala de cinema pública a funcionar em Cabo Verde”, lamentou.

O desafio passa, assim, por transformar a actual dependência de mecanismos externos numa estratégia de internacionalização acompanhada por políticas públicas nacionais capazes de garantir financiamento regular, estruturas de gestão, cooperação internacional e melhores condições de produção e exibição.

A consolidação dessas condições poderá permitir que as coproduções internacionais deixem de representar apenas uma resposta à falta de recursos internos e passem a constituir uma escolha estratégica para ampliar a presença do cinema cabo-verdiano nos circuitos internacionais.

KA/AA

Inforpress/Fim

Partilhar