Associação pede “inclusão efectiva e reforço da língua gestual” no sistema educativo nacional

Inicio | Sociedade
Associação pede “inclusão efectiva e reforço da língua gestual” no sistema educativo nacional
18/04/26 - 01:01 am

Cidade da Praia, 18 Abr (Inforpress) - A vice-presidente da Associação Cabo-verdiana de Surdos (ACS) partilhou com à Inforpress o seu percurso de 25 anos, apontando desafios na educação, inclusão e acesso à língua gestual como factores fundamentais para igualdade de oportunidades.

Com mais de duas décadas dedicadas à causa das pessoas surdas, Adelcia Tavares recorda que o seu percurso teve início em 2001, quando integrou a então Associação de Apoio ao Desenvolvimento e Integração de Crianças com Deficiência (AADICB), em que trabalhou com crianças, adolescentes e jovens até aos 18 anos.

O primeiro contacto com a realidade revelou um cenário até então pouco visível.

“Nunca sabia que tinha tantas crianças com deficiência no meu bairro”, referiu, evocando o levantamento realizado em Tira Chapéu, na cidade da Praia, que marcou o início do seu envolvimento directo com a comunidade.

Foi também nesse período que teve o primeiro contacto com a língua gestual, através de formações com um professor surdo regressado de Portugal, onde adquiriu competências que viriam a influenciar a criação da língua gestual cabo-verdiana.

A experiência trouxe desafios iniciais, sobretudo pela ausência de referências no país, como contou, mas abriu caminho para o desenvolvimento de materiais e metodologias adaptadas.

Ao traçar uma linha evolutiva, a responsável descreveu profundas mudanças no panorama nacional.

Nos anos 90 e início de 2000, considerou, alunos surdos frequentavam escolas sem qualquer suporte, limitando-se a copiar conteúdos sem compreensão e a ausência de professores preparados e de intérpretes condicionava o processo de aprendizagem e reforçava sentimentos de exclusão.

Com o envolvimento da associação, surgiram respostas no acompanhamento escolar, ainda que marcadas por limitações de recursos, sendo que os técnicos se deslocavam entre várias escolas da Praia, muitas vezes com meios próprios, para apoiar alunos distribuídos por diferentes zonas da capital do país.

A partir de 2011, registou-se “um avanço significativo” com a integração de alunos surdos no ensino secundário, nomeadamente na Escola Secundária Pedro Gomes.

Explicou que a presença de intérpretes e a formação de professores contribuíram para resultados positivos, com vários estudantes a concluir o ciclo de estudos e a prosseguir trajectórias profissionais e académicas.

“O pouco de alunos que começámos a acompanhar conseguiram terminar com sucesso”, assinalou, sublinhando o impacto desse processo na motivação de gerações mais novas.

Ao longo dos anos, a expansão da formação em língua gestual e a capacitação de profissionais permitiram alargar respostas a outras ilhas, como Fogo, São Vicente, Santo Antão e Sal, reforçando a inclusão no sistema educativo.

Apesar dos progressos, persistem desafios, sobretudo ao nível da qualidade do ensino.

Segundo disse, casos de alunos no ensino secundário com dificuldades de leitura e escrita continuam a ser uma preocupação, assim como a adaptação no 7.º ano, que tem sido uma fase “mais crítica”.

Para esta responsável, a necessidade de rever metodologias e reforçar a formação de docentes surge como prioridade.

A partir de 2012, a Associação Cabo-Verdiana de Surdos passou a centrar-se exclusivamente na comunidade surda, com intervenções a nível de apoio escolar, promoção da inclusão, formação em língua gestual e criação de parcerias institucionais.

Neste sentido, a ACS pretende introduzir conteúdos de língua gestual na televisão pública, com o objectivo de sensibilizar a população e alargar o acesso ao conhecimento básico desta forma de comunicação.

Adelcia Tavares defende uma maior participação dos próprios surdos na liderança e na defesa dos seus direitos, associada a uma educação de qualidade que permita autonomia e integração no mercado de trabalho.

“As pessoas surdas têm capacidades, precisam de oportunidades”, precisou.

Entretanto, avançou que o financiamento da ACS continua dependente de projectos e colaborações, apesar do apoio estatal ao funcionamento.

KF/AV//AA

Inforpress/Fim

Partilhar