
Cidade da Praia, 30 Out (Inforpress) – O artista plástico Mito Elias alertou hoje para os riscos da normalização do fascismo, da intolerância e do discurso de ódio em Cabo Verde, na sequência das declarações do candidato presidencial Gilson Alves durante o debate eleitoral.
Numa publicação na sua página da rede social Facebook, Mito Elias considerou preocupante a participação, num debate presidencial, de alguém que, na sua avaliação, se assume publicamente como fascista, defendendo uma reflexão sobre os limites da convivência democrática.
A reação do artista surge na sequência das declarações de Gilson Alves no debate realizado a 27 de Outubro, transmitido pela Radiotelevisão Cabo-verdiana (RTC), durante a abordagem dos poderes do Presidente da República e da eventual necessidade de revisão constitucional.
Na ocasião, o candidato defendeu a atribuição de poderes muito amplos ao chefe de Estado, recorrendo à expressão “poder absoluto”, e manifestou a intenção de eliminar os limites materiais da revisão constitucional, afirmando que a mudança pretendida poderia ser alcançada “a jeito ou à força”.
Gilson Alves fez ainda referência ao eventual fuzilamento do actual Presidente da República e candidato à reeleição, José Maria Neves, caso venha a vencer as eleições presidenciais de 15 de Novembro.
Entretanto, o candidato negou ter ameaçado directamente José Maria Neves com o fuzilamento, sustentando que se tratou de uma hipótese cuja concretização dependeria de alterações legais e constitucionais e da condenação do actual chefe de Estado por corrupção.
Na sua publicação, Mito Elias considerou que não se pode compactuar com ideias que promovem a eliminação do outro, a intolerância e a negação da dignidade humana.
O artista manifestou também preocupação com a banalização do insulto e da agressividade verbal no discurso político, considerando que a empatia parece ter perdido espaço entre os valores fundamentais da vida pública.
Mito Elias defendeu ainda a necessidade de discutir seriamente os limites da liberdade de expressão e a responsabilização pelo discurso de ódio, pelas ameaças e pelas manifestações de desumanização, salvaguardando, contudo, os princípios do Estado de Direito.
“Há caminhos que não devemos importar”, escreveu, acrescentando que a necropolítica, a intolerância e a normalização do ódio não são tendências desejáveis para Cabo Verde, nem em nome da modernidade, da liberdade ou da democracia.
Para o artista, o futuro colectivo do país exige mais humanidade, responsabilidade e respeito pela dignidade de cada pessoa.
JMV/AA
Inforpress/Fim
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