
Mindelo, 23 Mar (Inforpress) – A cidade do Mindelo acolheu hoje a cerimónia de celebração do 90.º aniversário da Revista Claridade, que “representou o fundamento cultural da luta pela liberdade, soberania e democracia cabo-verdiana”, destacou o Presidente da República.
José Maria Neves proferiu estas considerações ao presidir ao evento, organizado em parceria entre a Editora Rosa Porcelana e a Universidade do Mindelo (Uni-Mindelo), para assinalar a criação da revista, em Março de 1936, na cidade do Mindelo.
Para o chefe de Estado, foi a partir desta “cintilante geração de intelectuais, verdadeiros visionários”, que a decisão de manter os pés assentes no chão se tornou “um signo, um imperativo existencial e uma afirmação da identidade do país”.
“Os espíritos dos claridosos estão, talvez, entre as mais significativas formas de expressão literária de Cabo Verde, aquela que mais nos identifica nacional e internacionalmente, aquela que define com inegável clareza a arma deste povo”, sublinhou.
Segundo a mesma fonte, este movimento literário é, sem sombra de dúvida, o fundamento cultural da luta pela liberdade, soberania e democracia daqueles que “miravam a dignidade humana dos cabo-verdianos”.
“O contributo destes filhos da Terra para a consolidação da nação cabo-verdiana é, a todos os títulos, inestimável”, acrescentou José Maria Neves, para quem, mesmo passados 90 anos sobre o surgimento da revista Claridade, “ainda não é fácil encontrar o ângulo exacto para se fazer um retrato crítico à altura da viragem e do reposicionamento da cabo-verdianidade e da crioulidade de Cabo Verde que ela terá desencadeado”.
Da parte da Uni-Mindelo, o reitor Albertino Graça evidenciou a importância desta data, que também assinala a criação da futura Cátedra Claridade numa instituição parceira de ensino superior no estrangeiro, a Universidade de Estudos Internacionais de Roma (Unint), em Itália.
Uma iniciativa que, segundo a mesma fonte, pretende não apenas homenagear a memória da Claridade, mas também projetar o seu legado no contexto académico e internacional, promovendo a investigação, reflexão e difusão cultural.
Constitui objecto da Cátedra, adiantou Albertino Graça, criar condições para alargar a oferta de estudos relativos à língua portuguesa e às culturas de expressão portuguesa, com especial enfoque na língua e cultura cabo-verdianas em todas as suas vertentes.
Em representação da Unint, a reitora Mariagrazzia Russo, que participou através de plataforma digital, disse acompanhar de perto as dinâmicas culturais e sociais de Cabo Verde, não apenas do ponto de vista académico, mas também humano.
Ressaltou o convívio com a comunidade cabo-verdiana desde o início da sua formação como professora e garantiu ter-se inspirado na “força, coragem e resiliência” das mulheres cabo-verdianas que conheceu.
Neste sentido, a Cátedra Claridade será, assegurou Mariagrazzia Russo, um espaço que permitirá aproximar os estudantes italianos da realidade cultural, linguística e literária de Cabo Verde.
“Trata-se de um instrumento que permitirá assegurar uma presença estável, contínua e qualificada da cultura cabo-verdiana no nosso meio académico, ao mesmo tempo que cria novas possibilidades de diálogo e cooperação com a cultura italiana”, garantiu a reitora da Unint.
Para além dos discursos, a cerimónia contou com momentos de apresentação de poemas dos claridosos pela escritora Fátima Bettencourt, pormenores sobre a revista com Filinto Elísio e Isabel Lobo, e ainda o lançamento do livro Para uma história das ideias cabo-verdianas, de Manuel Brito-Semedo.
A Claridade é uma revista literária e cultural surgida em 1936. na cidade do Mindelo, estando no centro de um movimento de emancipação cultural, social e política da sociedade cabo-verdiana.
Teve como principais rostos Manuel Lopes, Baltasar Lopes da Silva (que usou o pseudónimo poético Osvaldo Alcântara) e Jorge Barbosa.
LN/JMV
Inforpress / Fim
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