
***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***
Cidade da Praia, 19 Mar (Inforpress) - Primeira mulher juíza de Cabo Verde, poeta de alma aberta e activista de causas inabaláveis, Vera Duarte que encarna, simultaneamente, força e suavidade, nasceu sob o signo da balança e fez do equilíbrio a sua maior resistência.
Das brincadeiras na Rua da Luz ao topo da magistratura e das letras internacionais, Vera Duarte recorda a infância no Mindelo, o rigor do pai 'Maninho' e a luta constante por um mundo onde a cultura e a igualdade sejam a única sentença possível.
Uma “viagem” completa pela vida da Vera Duarte desde as raízes na ilha de São Vicente até ao palco das Nações Unidas e à imortalidade das suas letras, uma panorâmica sobre esta “dupla libriana” que, aos 72 anos, olha para o passado não com nostalgia, mas com a gratidão de quem soube escolher os seus próprios combates.
Nascida em Mindelo, São Vicente, em 1952, ela brinca que a sua vocação estava escrita nas estrelas: “Sou balança, completamente em tudo. Até na profissão, porque o símbolo do Direito é a balança. Sou duplamente libriana”, comentou.
Hoje, a caminho dos 73 em Outubro, Vera Valentina Benrós de Melo Duarte Lobo de Pina, nome grande para uma mulher de estatura ainda maior, vive a vida com muita alegria e satisfação, dando graças a Deus por tudo.
Vera não nasceu na escassez, mas cresceu rodeada pela memória dela. A sua infância foi um mosaico de estabilidade e disciplina, o seu pai, Domingos António Duarte, o eterno “Maninho”, era um self-made man vindo de São Nicolau que prosperou no comércio, desde marcenaria, mercearia e construção, um obreiro que fabricava os próprios móveis da casa, construiu um império de lojas e casas.
Do lado materno, corria o sangue judeu dos Benrós, de Santo Antão, gente de fibra que geria os trapiches das Pombas, onde a pequena Vera passava férias “inesquecíveis”.
Numa casa de nove irmãos, quatro antes do casamento do pai e cinco da união marital com Dona Eufémia, a vida era cheia, mas no topo da hierarquia estava o rigor.
Ela recorda o “sapatão” do pai que, às quatro da manhã, acordava a prole para estudar à volta da mesa da sala de jantar.
“Eu punha o livro em cima e a revistinha de quadradinhos por baixo”, confessa entre risos, revelando a astúcia da menina que já driblava a autoridade para alimentar a sua sede de leitura.
O rigor deu frutos: Vera nunca chumbou.
Lembra também, que na Rua da Luz, em frente à Pracinha da Igreja, era um tempo de portas abertas e ausência de perigos, onde as crianças eram as donas do asfalto, adorava correr, saltar à corda e organizar expedições furtivas ao armazém do pai para roubar chocolates ingleses e ketchup, o que às vezes terminava em indigestões memoráveis.
No topo da casa, o sótão ou sóton, como lhe chamavam, era o palco de teatros improvisados, onde cobravam bilhetes de 10 tostões aos adultos para verem os seus espetáculos.
Aos 10 anos, a vocação despertou, até porque, quando a professora Fátima Bettencourt perguntou o que queriam ser, Vera foi a única a erguer a mão: “Quero ser advogada”.
Sem referências femininas na área, a “menina articulenta” já sabia que o seu lugar era na defesa da palavra, São Vicente tornou-se pequena para a sua ambição, tendo aos 15 anos partido sozinha para Portugal, para um colégio interno, onde concluiu o sexto e sétimo ano antes de entrar na Faculdade de Direito de Lisboa, em 1970, em plena efervescência pré-25 de Abril.
Os anos se passaram e ao regressar a Cabo Verde, Vera Duarte não apenas exerceu a profissão como rompeu barreiras de séculos, tendo sido a primeira mulher na Magistratura, uma posição que a obrigou a enfrentar o cepticismo de uma sociedade patriarcal.
“Tive de abrir o peito às balas”, afirma, referindo que nunca aceitou ser sombra de ninguém, quando veio para a Praia em 1975, fê-lo por mérito próprio, convidada para o Ministério da Justiça, tendo rejeitado carreiras no estrangeiro para “martelar” a cultura e o direito no seu solo.
A jurista que fez campanha contra a pena de morte e que hoje é uma das vozes mais respeitadas dos Direitos Humanos, guarda uma indignação sagrada contra abusadores e ditadores.
Com mais de 20 livros publicados, ela prova que a toga não silenciou a poeta, pelo contrário, deu-lhe os argumentos para lutar pela dignidade.
Se na vida pública Vera Duarte é sinónimo de firmeza, em casa ela é o ponto de união.
Mãe de dois rapazes, Nuno, que é médico e Zé Miguel, gestor, frutos do seu primeiro casamento com Zé Maria, colega dos tempos de faculdade em Lisboa, Vera rompeu conscientemente com a educação rígida que recebeu…trocou o “chinelo” pelo diálogo.
“O meu pai dizia que eu me ia arrepender, mas eles criaram-se muito melhor com diálogo do que com pancada” recorda com orgulho.
A sua determinação profissional nunca travou a maternidade, tendo trabalhado até ao último minuto de cada gravidez.
Conta que no dia em que Zé Miguel nasceu, ia a caminho do tribunal quando decidiu passar pelo hospital apenas para um controlo, o médico não a deixou sair, tendo-lhe dito: “Fica logo aqui”, e horas depois, o filho nascia, vindo de uma mãe que nunca viu a biologia como uma limitação para a sua autonomia.
Após o divórcio, de um casamento de mais de 20 anos, a vida trouxe-lhe um novo companheiro, Tony de Pina, dez anos mais novo do que ela, mas Vera enfrentou a diferença de idades com a leveza de quem defende a igualdade.
Estão casados há 27 anos, é com ele que partilha as cantorias desafinadas na sala e as fugas para o Tarrafal, vive uma igualdade que se estende às tarefas domésticas, embora com fronteiras bem definidas.
Hoje, o escritório de Vera Duarte é o território favorito das suas netas e do pequeno Nico, de 10 meses.
Vera avó, não há protocolo…há apenas o prazer de ver a vida renovar-se, mantendo o foco naquela que é a sua maior obra, isto é, uma família unida pela liberdade e pelo respeito mútuo.
Com a honestidade que a caracteriza, confessa que a cozinha e o ferro de engomar não são, de todo, o seu forte.
“Não tenho essa intimidade com a cozinha”, admitiu, mas se o marido a servir à mesa, ela aceita de bom grado, preferindo mil vezes a criatividade de pôr a casa bonita ou o rigor de a manter arrumada do que a rotina dos fogões.
“Gosto da minha casa sempre bonitinha e curto muito o meu escritório”, revelou, num desabafo que partilha o lado humano de quem prefere alimentar a alma com livros do que o corpo com receitas complexas.
Com uma saúde de ferro, conforme disse, a sua única doença são os seus olhos, uma visão precária herdada do pai, mas Vera continua a produzir incessantemente.
Entre antologias no Brasil e palestras na Macaronésia, ela mantém o foco na emancipação da mulher e na valorização da cultura, e ao som de ‘The Sound of Silence’, a sua música da vida, a “menina do Mindelo” continua a olhar para o horizonte.
Embora esteja reformada há algum tempo, uma decisão acelerada pela saúde visual que a obrigou a deixar o trabalho permanente, a reforma de Vera Duarte está longe de significar inactividade, pelo contrário, é um período de intensa produção intelectual.
“A mente ajuda,” diz ela, que se vê hoje mais requisitada do que nunca.
A sua agenda de “reformada” faria inveja a muitos jovens: apresentações de livros, conferências sobre direitos humanos, prefácios para autores brasileiros e encontros de poetas na Macaronésia.
Com mais de 20 livros publicados e três na calha, Vera sente-se mais livre do que nunca para ser, acima de tudo, a poeta, estando ainda em boa maré de traduções com obras suas a serem introduzidas na Argentina, China, Itália, Venezuela e França.
No seu escritório, entre papéis e memórias, ela gatinha com o neto Nico, de 10 meses, provando que a reforma não é um fim, mas a oportunidade de viver plenamente todas as suas versões.
Para Vera Duarte, “pioneira” é mais do que uma definição, é o fio condutor de uma vida onde o legado supera os títulos.
“Gostaria de ser lembrada como alguém que viveu para a cultura e para a liberdade, pois a cultura é o que mantém o ser humano vivo”, confessa.
Entretanto, enquanto restar uma mulher em situação subalterna ou uma injustiça por denunciar, a sua balança não descansará, procurando sempre o ajuste perfeito entre o rigor da lei e a pulsação do coração.
SC/ZS
Inforpress/Fim
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