
Fontainhas, 14 Mar (Inforpress) – A aldeia de Fontainhas, Ribeira Grande, Santo Antão, celebrou hoje a inauguração da estrada requalificada e de várias intervenções urbanas, mas a associação local acusou o Governo e as autoridades municipais de “excluir e tentar silenciar” a comunidade.
A cerimónia foi presidida pelo ministro do Mar, Jorge Santos, e pelo presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, Armindo da Luz, que evidenciaram a importância da obra para a valorização desta zona, considerada um dos principais cartões-postais turísticos de Santo Antão.
Segundo Jorge Santos, a intervenção procurou melhorar as condições de mobilidade e segurança sem comprometer a identidade histórica da antiga estrada, construída por João Serra e considerada património de valor nacional.
“O objectivo foi requalificar a estrada e torná-la mais transitável e segura, preservando os traços originais em memória daqueles que a construíram”, afirmou o governante, sublinhando que destruir a estrutura inicial teria sido “um crime contra o património”.
Já o presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, Armindo da Luz, destacou que o investimento não se limitou à estrada, abrangendo também a requalificação urbana da aldeia.
Armindo da Luz explicou que, além da reabilitação da via de acesso, foram aplicados cerca de 57 mil contos em intervenções na própria comunidade, incluindo reboco e pintura de habitações, substituição de telhados e tectos, construção de fossas colectivas e melhorias em infra-estruturas locais.
O autarca acrescentou que o Governo classificou Fontainhas como património cultural nacional em 2024, o que obriga a que futuras construções respeitem critérios específicos, como o uso de telha e acabamentos que preservem a arquitectura tradicional da aldeia.
Segundo Armindo da Luz, foi igualmente criado um espaço digital com acesso gratuito à internet para os moradores, numa iniciativa destinada a aproximar a comunidade das tecnologias e melhorar as condições de acesso à informação.
O edil salientou ainda a relevância turística da localidade, afirmando que cerca de 400 turistas passam diariamente por Fontainhas, sobretudo no percurso pedestre Fontainhas–Cruzinha, considerado um dos mais procurados do país.
Apesar do ambiente festivo promovido pelas autoridades, a inauguração ficou marcada pelo descontentamento de representantes da comunidade, cuja paisagem já foi reconhecida pela revista National Geographic como a segunda melhor vista do mundo.
O membro da Associação de Desenvolvimento Integrado de Fontainhas (ADI Fontainhas) Davidson Mota afirmou que a população deveria celebrar a concretização de um sonho antigo, mas considerou que o processo foi conduzido sem o devido envolvimento da comunidade.
“O sentimento deveria ser de alegria, porque a estrada chegou finalmente a Fontainhas, mas a comunidade não foi tida nem achada em nada”, afirmou.
Segundo o responsável associativo, nenhum membro da associação ou da comunidade foi convidado a intervir durante a cerimónia, o que considerou uma forma de “desvalorização do trabalho local”.
Davidson Mota criticou ainda o facto de a associação ter recebido o convite para a inauguração apenas dois dias antes do evento, situação que classificou como “falta de respeito” e que, segundo disse, impediu a organização de uma celebração comunitária.
A associação ameaçou também recorrer aos tribunais para contestar a forma como está a ser atribuída a exploração de um quiosque construído no âmbito da requalificação, defendendo que deveria ser lançado um concurso público.
“Fontainhas não é herança de ninguém. Vamos defender a comunidade dentro da legalidade e não vão conseguir silenciar a nossa voz”, afirmou.
Ainda de acordo com Davidson Mota, a associação participou desde o início no acompanhamento das obras e apresentou, em 2021, propostas de intervenção no âmbito do programa de valorização das aldeias rurais, incluindo o projecto de pintura das casas.
Para a associação, o processo de inauguração ignorou esse contributo e tentou “afastar” a comunidade do debate sobre o futuro da localidade.
A inauguração da estrada de acesso à aldeia de Fontainhas sofreu vários adiamentos ao longo dos últimos meses.
Inicialmente prevista para Janeiro, a cerimónia foi posteriormente reagendada para Fevereiro e, mais tarde, para o início de Março.
Na última data anunciada para a inauguração, moradores da localidade, através da associação local de Fontainhas, chegaram a agendar uma manifestação para expressar descontentamento, alegando que a estrada seria inaugurada sem estar devidamente concluída.
Contudo, a manifestação acabou por ser cancelada depois de as autoridades anunciarem o adiamento da cerimónia, de modo a permitir a conclusão das intervenções.
Segundo explicações avançadas anteriormente pelo presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, Armindo da Luz, os atrasos ficaram a dever-se sobretudo a uma semana de chuvas intensas registada em Dezembro e à indisponibilidade de trabalhadores durante o período das festividades de Natal e do fim de ano.
A empreitada foi lançada pelo primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, em Março de 2023, com um prazo de execução de dez meses e um investimento estimado em cerca de 91 mil contos. No entanto, a obra acabou por ser inaugurada cerca de três anos depois.
Com uma extensão de cerca de 3,4 quilómetros, a estrada integra um conjunto mais amplo de intervenções de requalificação urbana e valorização turística da aldeia de Fontainhas, considerada uma das localidades mais emblemáticas da ilha de Santo Antão e frequentemente destacada em publicações internacionais como uma das aldeias mais bonitas do mundo.
LFS/JMV
Inforpress/Fim
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