
*** Por Sandra Custódio, da Inforpress ***
Cidade da Praia, 12 mar (Inforpress) – De um nascimento apressado a caminho da Preguiça à consagração nos microfones da Rádio de Cabo Verde, Moisés Évora é a voz icónica da RCV e a alma sonora de uma ilha que conhece como ninguém.
A história de Moisés Sabino Livramento Évora, de seu nome completo, começa com uma pressa divina. Em Maio de 1962, os seus pais faziam a pé o trajecto de Pedra do Lume para a Preguiça, e a mãe, grávida e resiliente, que carregava no ventre aquele que viria a ser uma das vozes mais conhecidas de Cabo Verde, sentiu os sinais do parto.
“Por pouco não nasci na estrada”, recorda o homem da rádio, alto e de tez clara, que acabou por ver a luz em casa, num lar que descreve como um “autêntico clube”, onde o chá da meia-noite e as portas abertas eram regra numa família de dez irmãos, todos baptizados com nomes bíblicos por um pai de fé inabalável.
Poucos sabem que o jornalista sério, que carrega o Sal no nome e no coração, é também um compositor de mão cheia. As suas peças instrumentais já chegaram ao cinema, integrando bandas sonoras de realizadores como Júlio Silva e Samira Vera-Cruz.
“Tenho o projecto de gravar um disco; é uma promessa que fiz ao meu pai”, revela, referindo que as suas composições são homenagens sonoras, tendo cada tema o nome de um familiar ou amigo.
É a sua forma de imortalizar os afectos. Com quase 1,90 m de altura, “Moita” é um gigante gentil que, se não fosse comunicador, seria músico a tempo inteiro.
Por entre frequências de rádio, teclas de piano e as dunas da ilha do Sal, o guardião das ondas da RCV construiu uma vida onde o silêncio não tem lugar, revelando que o seu maior segredo é a fé na alegria e o respeito pelo próximo.
Nascido num lar onde a porta raramente se fechava, a infância de Moisés Évora foi um ensaio de felicidade em tons de sépia.
A casa dos pais, na Preguiça, não era apenas uma habitação; era o que Moisés chama de “um autêntico clube”, lembrando que o pai tinha um prazer quase sagrado em receber pessoas e que, todas as noites, após os cultos, a casa transbordava de fiéis e amigos.
Embalado nas suas memórias, conta que ali, entre anedotas e conversas, celebrava-se o “chá da meia-noite”, sempre acompanhado de pão, um doce e um sumo improvisado pela mãe Rosinha, uma mulher de “alma grande” que nunca se aborrecia com a algazarra constante.
Foi nessa atmosfera de partilha que Moisés aprendeu que a riqueza não se mede pelo que se tem, mas pela alegria que se transborda.
Antes de a electricidade chegar ao Sal, o mundo de Moisés era iluminado pelo Petromax e pelos candeeiros a óleo. As ruas eram o seu verdadeiro quintal, onde passava horas a jogar à bola e, quando a noite caía, entregava-se às brincadeiras de “mãos ao ar”, aos jogos de cartas e outros divertimentos.
Um dos momentos mais marcantes da sua infância foi a chegada da luz eléctrica, em 1973, recordando com nitidez o espanto e a alegria das crianças na Praça da Preguiça quando, pela primeira vez, a luz venceu a escuridão da ilha.
Moisés é filho da Igreja do Nazareno. Foi lá que, ainda criança e adolescente, começou a perder a timidez, participando em récitas de Natal e declamando poemas, desenvolvendo a desenvoltura que mais tarde o levaria aos microfones.
A música também entrou cedo na sua vida, de forma quase improvisada, entre um acordeão pequeno que ele próprio “calafetou” para funcionar e as primeiras notas nos teclados, para preencher a ausência do irmão Djila.
“A gente não sonhava com muito; contentava-se com o que os pais nos davam. Éramos felizes sem preocupações, vivendo a leveza de quem tem o pão de cada dia e uma casa cheia de amor”, sublinhou.
Mas foi a curiosidade pelo mundo que o levou a “brincar de relator” com uma lata de sumo na mão, imitando as vozes que vinham de Portugal ou da Voz da América.
A sua entrada na rádio foi pela porta da secretaria, mas o talento para a locução rapidamente o empurrou para o microfone.
Passou pelo CENJOR, estagiou na RDP Internacional em Portugal, onde chegou a ser convidado para ficar, mas o magnetismo do Sal foi mais forte.
“Acredito que era mais necessário aqui, e hoje sinto-me feliz e satisfeito”, confessa.
Quando o microfone do jornalismo se desliga, acendem-se as luzes do palco, revelando o Moisés, homem da noite boémia e artística, pois desde 1985 o teclado e o piano são o seu refúgio.
Foi membro da histórica Asa Band e um dos primeiros a tocar no Hotel Morabeza, ao lado de nomes como Antero Simas e Mirri Lobo.
Moisés não foge à verdade com a sua transparência habitual. Jovem, alto (1,89 m), músico e dono de uma voz que seduzia através das ondas da rádio, confessa que a sua juventude foi vibrante.
“Não vou ser hipócrita. Fiz as minhas traquinices”, revela entre risos.
Como qualquer jovem artista que dominava os palcos e os microfones do Sal, Moisés conheceu muitas namoradas e viveu as curiosidades típicas da idade.
Quando questionado sobre fidelidade, responde com o seu habitual espírito de “ladino”: “O ladrão é aquele que é apanhado”, brinca, embora hoje reconheça que cada fase teve o seu tempo e que a indisciplina da juventude deu lugar à responsabilidade de um homem de família.
O casamento de Moisés e Leila não foi um evento comum; foi um marco histórico. Casaram-se na viragem de 1999 para 2000, exactamente à meia-noite, enquanto o mundo temia o “bug do milénio”, Moisés e Leila celebravam o amor.
Conta entre risos que foi uma “doidice” planeada, onde o pastor Silvino os declarou marido e mulher no exacto momento em que o século mudava. A festa foi tão emblemática que a Antena 1 fez um directo do casamento e os jornais noticiaram o evento.
“Todo o mundo festejou o nosso casamento”, brinca Moisés, cujo enlace lhe deu dois rapazes, hoje homens feitos, e o primogénito presenteou-o com dois netos.
Após quase 26 anos, numa harmonia perfeita ao lado de Leila, cuja história começou num banco da Igreja do Nazareno, o ciúme é apenas o “tempero” de quem ainda gosta. Aprendeu a ceder, a ser o “noveleiro” que acompanha a esposa todas as noites em frente à televisão.
“A vida ensinou-me que a família é o porto seguro. Quando surgem os momentos menos bons, são eles que dizem ‘presente’.”
Se na rádio Moisés domina os tempos e as pausas, na cozinha o ritmo é de comédia.
Há uma história que ele conta para “fazer rir sem esforço”: a tentativa de estrelar um ovo no micro-ondas.
“Fez pau, pau, pau! O ovo espatifou-se todo, mas pus o sal e comi. Estava gostoso”, conta entre gargalhadas, provando que o bom humor é o seu tempero principal.
“Fui mal-habituado”, confessa, lembrando as irmãs e a mãe que sempre dominaram os fogões. Quando a esposa, Leila, viaja, o cenário é quase de sobrevivência, estribando-se em latas de atum ou jantares fora.
Aos 64 anos, a vida de Moisés parece escrita por um argumentista atento. Conta que duas vezes a presença da esposa Leila foi o gatilho para salvamentos memoráveis.
A primeira, quase cinematográfica, ocorreu numa piscina de hotel ao amanhecer. Lá, Moisés avistou um miúdo a afogar-se e, sem hesitar, saltou de roupa e tudo.
“Mais dois minutos e aquele miúdo era cadáver”, narra, recordando que o rapaz saiu a correr, assustado, e ele nunca mais o viu, carregando até hoje o peso daquele fôlego resgatado.
A segunda, numa noite de jornalismo épico: durante o lançamento do livro do seu pai, seguido de um jantar de família, um detalhe banal – Leila queria trocar os sapatos que a magoavam – levou-a para casa. Nesse meio tempo, o telefone tocou: um barco com 25 imigrantes senegaleses e franceses estava a afundar-se em Pedra de Lume. Moisés trocou o jantar pela rádio.
Fez uma emissão histórica, mobilizou barcos de recreio e pescadores e coordenou o resgate através das ondas da rádio, transformando-se num herói por acaso.
“Ajudámos a salvar 25 pessoas devido a um par de sapatos”, comentou.
Agora, prestes a abraçar a reforma, Moisés olha para o futuro com a serenidade de quem cumpriu a missão, mas nunca como um ponto final.
“Parado não vou ficar”, garante, prognosticando que, seja a ver novelas com a Leila, a tocar num hotel ou a contar uma anedota na redacção, continuará a ser o mesmo homem que aprendeu com o pai a viver a vida pelo lado positivo.
Quanto ao legado que gostaria de deixar, disse apenas: “Dediquei-me de corpo e alma à minha profissão. Só quero sair de consciência tranquila”, referindo que, a nível pessoal, o seu sonho é fazer um concerto a solo apenas com as suas composições originais.
SC/JMV
Inforpress/Fim
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