Entrevista: “A política deixou de ser instrumento científico de governação e transformou-se em arma de discussões banais” - Adriano Pires

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Entrevista: “A política deixou de ser instrumento científico de governação e transformou-se em arma de discussões banais” - Adriano Pires
08/03/26 - 05:06 am

*** Por Luís Carvalho, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 08 Mar (Inforpress) – O escritor Adriano Pires afirmou hoje que a principal motivação para escrever o livro “Quando a política vira discussão” surgiu da necessidade de organizar e partilhar reflexões produzidas ao longo de vários anos, sobretudo sobre geopolítica.

Em entrevista à Inforpress, o coronel na reforma explicou que sempre manteve o hábito de escrever por gosto e como forma de exercício intelectual, além de considerar importante partilhar conhecimentos e informações com o público.

“Quem me acompanha sabe que eu escrevo muito, mas mesmo muito e por gosto”, disse Adriano Pires, acrescentando que escreve sobretudo para se exercitar intelectualmente, mas também para partilhar as informações e conhecimentos que tem.

Segundo o autor, a ideia de reunir esses textos em formato de livro surgiu num momento particular da sua vida, quando ficou vários meses sem carro devido a uma avaria.

“Estive mais de quatro meses sem carro e aproveitei esse tempo para organizar as minhas escritas em livros. Muitas pessoas que me acompanham, sobretudo no Facebook, pediam-me sempre para guardar essas reflexões e compilá-las”, explicou o autor de “Quando a política vira discussão”, acrescentando que então resolveu formatar e organizar aquilo que vem escrevendo há alguns anos.

Adriano Pires revelou que actualmente tem estruturado cerca de oito livros dedicados à geopolítica, entre eles uma obra intitulada “O fim do império”.

O livro agora apresentado inclui também elementos ficcionais. Uma das histórias decorre numa ilha imaginária chamada Santana, descrita como um lugar simbólico situado “no fim do mundo”, onde se desenrola um processo revolucionário protagonizado por diferentes personagens e visões políticas.

Outra narrativa acompanha a trajetória de um personagem chamado Perivaldo Vaz Júnior, professor de filosofia com fortes ligações a Cuba, país onde teria realizado várias formações e pelo qual desenvolveu um profundo afecto.

Na história, acrescenta, Perivaldo acaba por morrer em Cuba aos 85 anos, durante uma viagem, sendo homenageado com um funeral de Estado que contou, segundo a narrativa, com a presença de Fidel Castro e discursos de altas autoridades culturais cubanas.

De acordo com o autor, esse personagem também representa simbolicamente figuras reais que marcaram a sua vida, incluindo o seu irmão Herculano Pires, recentemente falecido.

“Em algumas passagens pus palavras na boca do Herculano como um dos personagens da narrativa. Por isso o livro também é uma homenagem a ele”, esclareceu.

Adriano Pires contou ainda que a obra inclui um capítulo sobre um personagem chamado Branco Bila, amigo de infância de Herculano na ilha do Fogo, cuja história aborda debates sobre o conceito de comunismo e as diferentes percepções políticas existentes na sociedade.

Apesar dessa dimensão pessoal, o autor garante que o livro não é uma biografia do irmão, mas sim uma obra composta por vários capítulos independentes que abordam temas distintos.

“O livro não é uma biografia do Herculano. Aproveitei o acto de apresentação para fazer também uma homenagem a ele. Na introdução explico as razões da dedicatória”, clarificou.

Além de Herculano Pires, a obra é também dedicada ao intelectual cabo-verdiano Frederico “Nhonhô” Hopffer Almada, inspiração para um capítulo que aborda os conceitos de direita e esquerda na política.

Segundo ele, a ideia surgiu de um debate que acompanhou nas redes sociais, onde percebeu que muitos participantes utilizavam esses conceitos de forma distorcida.

“Resolvi explicar o que entendo por direita e esquerda. O Nhonhô respondeu dizendo que nunca tinha lido uma explicação tão convincente e sugeriu que eu desenvolvesse o tema. Depois de publicar o texto, ele ficou muito contente, mas acabou por falecer pouco tempo depois”, recordou.

Para o autor, o debate político actual enfrenta uma “crise profunda”, marcada pela degradação do diálogo e pela transformação da política em instrumento de conflito.

“A política no mundo inteiro deixou de ser usada como instrumento científico necessário para a governação e para a resolução de problemas”, observou Adriano Pires, para quem a política se transformou numa arma de “discussões banais, sem sentido, visando sobretudo a destruição uns dos outros”.

Questionado se ainda acredita na recuperação de uma cultura de diálogo político, respondeu de forma afirmativa e defendeu a urgência de mudanças.

“É possível, é necessário e é urgente. Se continuarmos a interpretar a política da forma como estamos a ver, qualquer dia podemos destruir o próprio planeta com base na irracionalidade que tem tomado conta da política”, alertou.

Para o escritor, a política deve voltar a ser encarada como uma actividade nobre, conduzida por pessoas com sentido de responsabilidade pública.

“A política é uma actividade muito nobre, mas para isso é preciso pessoas nobres à frente dela e não oportunistas que a utilizam apenas para satisfazer a sua ganância”, frisou.

Adriano Pires acredita ainda que o contexto político cabo-verdiano poderá melhorar, sobretudo com “maior rigor na escolha dos representantes políticos”.

“Espero que nas próximas eleições os partidos introduzam correcções, seleccionando pessoas mais adequadas para nos representarem, por exemplo, no parlamento”, concluiu.

Entretanto, no mesmo dia, Adriano Pires vai ser ele próprio a falar de uma outra obra intitulada “Transição silenciosa”, que considera um “testemunho histórico” que aborda o processo político de Cabo Verde desde a independência até à consolidação do multipartidarismo.

O livro nasce da necessidade do autor de esclarecer versões incompletas ou distorcidas sobre momentos importantes da história política do país.

A ideia do livro surgiu após uma conversa privada nas redes sociais, na qual o autor explicou a um interlocutor alguns factos que testemunhou directamente durante a transição política para o multipartidarismo.

“Essa conversa acabou por circular publicamente e despertou o interesse de várias pessoas, levando-me a perceber que havia curiosidade e necessidade de registar essa memória histórica”, realçou Adriano Pires.

O autor analisa a transição do período colonial para a independência, destacando que, apesar das dificuldades sociais e económicas, o processo político cabo-verdiano foi relativamente pacífico e sem conflitos armados, diferentemente de outros países africanos.

Uma parte central da obra descreve o processo que levou à abertura política e às primeiras eleições multipartidárias, realizadas a 13 de Janeiro de 1991.

O autor relata acontecimentos que vivenciou, pois ocupava na época o cargo de director de Segurança Pessoal do Estado, estando próximo de várias figuras políticas importantes, como: o então primeiro-ministro Pedro Pires, o líder da oposição Carlos Veiga e outros dirigentes políticos da época.

Ele explica também como foi organizada a segurança de líderes da oposição, mostrando que o processo de transição política ocorreu com “profissionalismo e respeito institucional”.

O livro analisa ainda os primeiros 15 anos do multipartidarismo, reflectindo sobre conquistas, desafios e exageros que também ocorreram durante o processo.

A obra “Quando a política vira discussão” é apresentada no dia 20 de Março, às 17:00, na Biblioteca Nacional, na cidade da Praia.

LC/CP

Inforpress/Fim

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