
Cidade da Praia, 15 Out (Inforpress) – O realizador e produtor espanhol Miguel Eek afirmou hoje que o documentário “Amílcar” explora a dimensão humana e poética de Amílcar Cabral e questiona o passado colonial europeu, após 12 anos de investigação e produção.
Em declarações à Imprensa, à margem da abertura da segunda edição do Kafuka African Film Festival, que acolheu a estreia do documentário em Cabo Verde, Miguel Eek explicou que o interesse pela figura do líder independentista surgiu quando chegou ao arquipélago, há 12 anos, na sequência da crise económica em Espanha.
O cineasta contou que, naquela altura, desconhecia a história de Amílcar Cabral, mas a presença de esculturas dedicadas à sua memória despertou-lhe a curiosidade e levou-o a consultar a sua biografia numa biblioteca.
A leitura, segundo explicou, permitiu-lhe descobrir uma figura cujo pensamento e capacidade de comunicação considerou relevantes para reflectir sobre o passado colonial e as relações entre a Europa e África.
“Eu quis saber mais, eu imaginei a possibilidade de fazer um filme para nos fazer questionar os europeus também sobre nosso passado”, afirmou.
Miguel Eek revelou que um dos maiores desafios da produção foi encontrar a estrutura narrativa do documentário, depois de quatro anos de trabalho e mais de 50 entrevistas realizadas em Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, França, Espanha e Suécia.
Segundo o realizador, foram as cartas que Amílcar Cabral escreveu às suas duas mulheres, Ana Maria e Helena, que lhe permitiram encontrar o caminho para construir a narrativa do filme.
A obra combina essas cartas com imagens de arquivo e documentos policiais da antiga Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), procurando aproximar o percurso político do dirigente da sua dimensão pessoal.
Para explorar a vertente poética e utópica de Cabral, a equipa regressou a Cabo Verde, à Guiné-Bissau e a Portugal para realizar novas filmagens com câmaras antigas, de modo a criar uma continuidade visual entre as imagens históricas e as contemporâneas.
O realizador apontou ainda as dificuldades em convencer os financiadores europeus da importância do projecto, que exigiu um longo processo de investigação, filmagem e montagem.
Depois de apresentar o documentário em cerca de 50 festivais internacionais, Miguel Eek considerou particularmente significativa a sua exibição em Cabo Verde, por se tratar do país onde a ideia do filme começou a ganhar forma.
“De alguma maneira, Amílcar volta para casa”, declarou, manifestando emoção por regressar ao arquipélago com a obra e pela oportunidade de promover um diálogo sobre o legado do líder independentista.
Quanto à circulação do documentário, o cineasta afirmou que pretende continuar a acompanhar a sua participação em festivais e procurar oportunidades de exibição em salas de cinema e na televisão.
Miguel Eek anunciou igualmente a apresentação da obra no DocLisboa, em Portugal, onde espera contribuir para o debate sobre o passado colonial e as relações históricas entre Portugal e os territórios africanos.
Lançado em 2025, “Amílcar” é uma coprodução de Espanha, Portugal, Suécia, França e Cabo Verde e propõe uma abordagem intimista à vida e ao legado de uma das figuras centrais da luta pela independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau.
KA/JMV
Inforpress/Fim
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