*** Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***
Cidade da Praia, 23 Set (Inforpress) – O mestre artesão e professor Gustavo Duarte carrega no olhar os vincos de meio século de abnegação, marcada tanto pelo brilho das salas de aula e das oficinas como pelas duras provas impostas pela justiça.
Há biografias que se confundem com a própria espinha dorsal de uma nação, e a de Gustavo Adolfo de Jesus Semedo Duarte é uma delas.
Conversar com Gustavo foi uma oportunidade para revelar a essência humana, a sensibilidade e os bastidores criativos que normalmente não aparecem nas exibições formais do seu trabalho, do tamanho dessa multidão de obras.
Aos 73 anos, o criador que moldou gerações e representou Cabo Verde além-fronteiras - aplicando a filosofia do acrónimo CRIE (Criar, Inovar, Empregar) -, enfrenta hoje o paradoxo de ver a sua própria nação silenciar a sua história.
Natural da freguesia de Santiago Maior, concelho de Santa Cruz, em Porto Madeira, onde viu a luz do dia a 15 de Outubro de 1952 - por expressa vontade da mãe que fez questão de preservar as origens -, Gustavo Duarte foi enraizado desde os quatro anos no Bairro Craveiro Lopes, na Praia, tornando-se num verdadeiro livro vivo da história contemporânea do arquipélago.
“Venho de uma família folgada, humilde, mas sem falta de nada”, recorda com nostalgia, referindo que eram dez irmãos numa casa onde a porta nunca se fechava, e a mãe, num gesto de inesgotável generosidade, acolhia outras crianças para criar.
As férias eram passadas na horta do interior, um tempo “bonito e alegre” a que regressaria de memória, num contraste pungente com as provações que a vida adulta lhe reservaria.
Embora tenha nascido nessa propriedade do interior, a sua vida fez-se na capital, tendo vivido 22 anos do regime colonial, 15 anos de partido único e a transição democrática.
Essa têmpera moldou-lhe o carácter e fê-lo abraçar a vocação para o ensino, formando-se a 26 de Junho de 1974, com 22 anos, meses após o histórico 25 de Abril, vivendo a transição política com o fervor de quem respirava a promessa da liberdade.
Nomeado para a sua terra de preferência - Mendes Faleiro, em São Domingos, onde a mãe tinha uma loja -, deparou-se com o peso do regime colonial logo à entrada da sala de aula no ano lectivo de 1974/1975, onde na parede, lia-se o aviso “Aqui é Portugal”.
Sem hesitar, perante o olhar espantado e temeroso dos populares, apagou a herança metropolitana e escreveu Cabo Verde, antecipando a independência que o arquipélago ergueria a 5 de Julho de 1975.
“Já dei muita contribuição para este país. Há muitas pessoas que foram meus alunos e que hoje desempenham altos cargos, desde engenheiros a doutores”, sublinha o mestre artesão, com o orgulho legítimo de quem semeou a nação nas carteiras de escola.
Em 1979, com 27 anos, integrou um contingente de professores enviados para Angola ao abrigo de um acordo governamental bilateral para a obtenção de divisas.
Foi colocado em Moçâmedes (actual Namibe), em plena zona de guerra, onde a realidade o fustigou logo à chegada quando, três dias após desembarcar, uma emboscada fez 18 vítimas mortais.
Da varanda de casa, na avenida principal, viu passar o atrelado carregado com os 18 caixões e, aquilo, confessou, foi um trauma...
Dos tempos de solteiro em Luanda, numa casa já com melhores condições, Gustavo guarda a memória divertida de uma culinária de sobrevivência, como aquele arroz mal-amanhado que tentou fazer, e acabou rejeitado até por um cão de rua.
Mais tarde, com a maturidade, orgulhou-se de aprender a cozinhar “um arroz de categoria”, embora hoje prefira render-se ao talento culinário da esposa, com quem partilha a vida desde 1981, após o regresso da primeira companheira a Angola por motivos de saúde intransponíveis.
Com 50 anos de carreira dedicados à criação, Gustavo Duarte sente na pele a fractura do esquecimento institucional.
“Em 50 anos de carreira nunca fui reconhecido”, lamenta, apontando o dedo a uma certa cegueira geracional e cultural, e questiona-se por exemplo, nunca ter sido convidado para programas de referência como Código da Vida, enquanto figuras mais jovens e com menor folha de serviços ocupam o espaço mediático.
O desabafo estende-se à falta de preservação histórica.
“Se não temos uma casa de memória, corremos o risco de a nossa história desaparecer. Até de Amílcar Cabral pouco se fala aqui no país... No bairro onde moro os jovens não sabem quem eu sou, não me conhecem”, lamentou.
Pai de seis filhos de dois relacionamentos, todos a viver fora, no estrangeiro, Gustavo Duarte olha para o percurso com a lucidez de quem já passou “por mar bravo e mar manso”, mas a ferida mais profunda não vem da falta de palmas, vem da injustiça dos homens.
Homem de ânimo aberto, que em tempos gostava de dançar, festejar, viver o Carnaval e erguer-se como actor principal em várias companhias de teatro, viu a sua vida social desabar por ter agido de “boa-fé”.
Conta com alguma mágoa que, para colmatar a falta de transporte no Centro de Artesanato onde trabalhou durante 13 anos, colocou a sua carrinha Peugeot ao serviço da instituição, abastecendo-a com verbas internas em vez de recorrer a alugueres onerosos.
Porém, com a mudança política, aquele acto de puro altruísmo acabou por ser reinterpretado pelos novos ventos burocráticos como um crime de peculato, e uma sexta-feira, foi interceptado pela Polícia Judiciária e remetido para a cadeia de São Martinho.
No dia do julgamento, o advogado faltou, culminando numa condenação a quase dois anos de prisão.
“O tribunal não julga a boa-fé, o tribunal julga o acto”, reflecte hoje, sem amargura cega, mas com a lucidez de quem guarda a cicatriz.
“Fecharam-me na cadeia só para humilhar-me. Não matei nem roubei”, exteriorizou, mostrando que, longe de se quebrar, transformou o cárcere num espaço de intervenção e reflexão.
“Aqueles anos que lá passei foram para mim um período de reflexão, dei grande contributo na cadeia, ajudei em muita coisa. Por vezes, mesmo dentro do inferno consegue-se sobreviver, mostrando que lá não é o teu lugar”, manifestou.
Hoje, quando visita estabelecimentos prisionais, leva aos reclusos a palavra de quem sabe que “um marinheiro, se nunca navegar num mar bravo, não terá experiência para enfrentar o mau tempo”.
Vivido entre o regime colonial, o partido único e a democracia, Gustavo Duarte continua a ser uma voz incómoda, mas indispensável.
Acha que a governação é uma “corrida de estafetas”, mas insiste que o artesanato nacional precisa de deixar de ser uma actividade de feira esporádica para se assumir como pilar estrutural da economia, do turismo e da identidade cabo-verdiana.
Da sua passagem pela terra e pelas mãos fica uma máxima indelével, resumida no acrónimo CRIE - Criando, Inovando, Empregando -, e a certeza de que a dignidade de um criador não se mede pelos aplausos efémeros do presente, mas pela solidez imorredoura da obra deixada à posteridade.
SC/CP
Inforpress/Fim
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