
São Filipe, 08 Set (Inforpress) – A comunidade educativa do Fogo está desolada após o acidente rodoviário de sábado, que vitimou 25 pessoas, incluindo seis alunos, e antevê um novo ano lectivo marcado pela dor, disse hoje uma professora.
Liliana Correia, professora de Língua Portuguesa e Literatura do Agrupamento VI, que integra a Escola Secundária Pedro Verona Pires, falava à imprensa na sequência do acidente ocorrido no sábado, 05, no trajecto entre Chã das Caldeiras e Campanas de Cima, que provocou ainda 14 feridos.
Com tristeza e profunda mágoa, a docente, de 32 anos, revelou ter perdido seis alunos no acidente, destacando a relação de amizade e cumplicidade que mantinha com os estudantes, para além da sala de aula.
“Numa escola rural, a proximidade entre professores e alunos é muito forte. Transformamo-nos em mães, psicólogos, em tudo”, explicou.
Residente na localidade de Velho Manuel, Liliana Correia disse sentir-se “muito orgulhosa” dos seus alunos, que descreveu como jovens alegres, bem-comportados e cheios de sonhos.
Além dos seis alunos que perdeu no acidente, a professora disse conhecer e acompanhar outros jovens envolvidos em actividades escolares, nomeadamente no teatro e no projecto de rádio da escola.
“Considero que são todos os meus alunos, e perdi-os”, lamentou.
A docente descreveu os jovens como pessoas alegres, ligadas ao futebol e às actividades da comunidade, incluindo a igreja e grupos recreativos, e que tinham “um contributo a dar” à sociedade.
“A nossa comunidade ficou frágil, porque os alunos e adolescentes se foram”, afirmou.
Para Liliana Correia, os alunos demonstram uma grande capacidade de resistência, sobretudo perante as dificuldades que enfrentam diariamente para frequentar a escola.
“Estando no meio rural, a escola fica dispersa. O facto de levantar e decidir ir para a escola já é uma forma de resistência”, explicou.
A professora lamentou que muitos dos jovens tivessem sonhos e planos para o futuro e vontade de contribuir para a sociedade, mas tenham perdido a vida de forma inesperada.
Liliana Correia contou ainda que, enquanto estudante, participou em passeios promovidos pelo mesmo condutor e, posteriormente, já como professora, também acompanhou alguns desses passeios, embora com menor frequência nos últimos tempos.
Segundo a docente, o passeio realizado anualmente representava uma espécie de reconhecimento aos estudantes pelo esforço, dedicação e passagem de ano, sendo aguardado por todos com grande entusiasmo.
Após o acidente, teve contacto com alguns dos alunos sobreviventes, encontro que descreveu como marcado pelo silêncio, abraços e lágrimas.
“Sobreviveram, mas não estão bem”, afirmou, manifestando preocupação com o impacto da tragédia no regresso às aulas.
Com o início do novo ano lectivo previsto para 21 de Setembro, Liliana Correia considera que os professores terão de reunir forças para acolher os alunos e ajudá-los a enfrentar as consequências emocionais da tragédia.
A docente, que integra a equipa de direcção na área da acção social, inclusão e promoção da cidadania, informou que está prevista para quarta-feira, 09, uma reunião da equipa de direcção para preparar o acolhimento dos alunos de toda a região, sobretudo daqueles que perderam colegas, e das famílias afectadas.
“Estamos unidos, todos os professores, temos conversado para saber como está a situação, mas temos de ser o mais acolhedores e humanos possível, porque o conteúdo programático deste ano tem de esperar. Não vai ser fácil olhar para a carteira e sentir que vários alunos não voltam mais”, acrescentou.
A escola dispõe já de uma equipa de psicólogos, enquanto a delegação do Ministério da Educação no concelho de São Filipe reuniu igualmente com os directores para avaliar as condições necessárias ao início do ano lectivo.
A professora defende, por isso, que o acompanhamento emocional dos alunos deve constituir uma das prioridades no arranque do novo ano lectivo.
AV/JMV
Inforpress/Fim
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