
Assomada, 04 Set (Inforpress) – A falta de água, emprego e acessos está a agravar o isolamento de Mato Sanches, Santa Catarina, onde casas fechadas e terras por cultivar contrastam com a memória de uma comunidade outrora mais povoada e produtiva.
Para chegar à ribeira de Mato Sanches, em Santa Catarina, é preciso seguir pelo caminho de Chã de Tanque e continuar por um percurso de terra que atravessa a ribeira, evidenciando uma das dificuldades enfrentadas diariamente pelos moradores, sobretudo quando chove e a passagem se torna mais complicada.
Quem chega à localidade encontra uma paisagem marcada pela secura, com acácias a ocupar grande parte da ribeira, num contraste com a memória dos moradores, que recordam o tempo em que aquele espaço era verde, com terras cultivadas e capaz de produzir alimentos que chegavam ao mercado de Assomada.
“Primeiramente, a estrada que a gente tem, sem condições. Problema de água também…”, resume Maria de Fátima Pereira, ao apontar os principais obstáculos da comunidade, onde a falta de chuva e de água já não permite cultivar como antes.
A transformação da paisagem traduz também as dificuldades das famílias, que deixaram de contar com a agricultura como fonte segura de sustento e passaram a procurar outras formas de sobrevivência numa terra onde a água já não chega em quantidade suficiente sequer para garantir as necessidades básicas.
A escassez de água atingiu igualmente a criação de animais, enquanto a venda de lenha, areia e brita retirada das ribeiras passou a fazer parte das alternativas de rendimento, com as remessas de familiares emigrantes a ajudarem algumas famílias a fazer face às despesas do quotidiano.
A falta de água obriga ainda os moradores a recorrer à compra de água em autotanques, por cerca de 1.500 escudos. Contudo, as más condições da estrada fazem com que os vendedores muitas vezes não queiram deslocar-se até Mato Sanches, alegando que não compensa levar apenas um tanque.
Por isso, explicam os moradores, é necessário juntar pelo menos duas pessoas para encher dois tanques e justificar a deslocação.
“Como é que nós estamos vivendo?”, questiona a moradora, ao descrever as dificuldades de conciliar a falta de água, as despesas e a necessidade de encontrar formas de rendimento numa comunidade onde as oportunidades de trabalho são praticamente nulas.
Mesmo essas actividades perderam força, pois a falta de chuva reduziu o movimento das ribeiras e, com menos areia e brita disponíveis, diminuiu uma das fontes de rendimento, enquanto as más condições da estrada afastam compradores e dificultam a circulação.
Paulina de Oliveira conhece de perto essa realidade e, como outros moradores, sente que viver em Mato Sanches significa enfrentar diariamente dificuldades que começam na própria saída de casa, sobretudo quando é necessário procurar água, comprar alimentos, transportar produtos ou recorrer a serviços de saúde.
A estrada, em terra e com passagem pela ribeira, torna-se ainda mais problemática em períodos de chuva, situação que preocupa os moradores perante uma emergência médica, pois chegar ao hospital pode transformar-se num esforço difícil para quem precisa de assistência.
Para quem precisa de transporte, as opções também são reduzidas, uma vez que, segundo os moradores, apenas dois carros fazem actualmente o serviço na zona, com o frete fixado em 150 escudos.
A ausência de um pequeno comércio agrava ainda mais o isolamento, já que os moradores precisam deslocar-se para outras zonas para comprar produtos básicos, suportando o custo do transporte e, muitas vezes, pagando mais pelos produtos.
Iriana Vieira, uma das jovens ouvidas pela Inforpress, representa uma geração que cresceu num território onde as oportunidades parecem cada vez mais reduzidas, num contexto em que a falta de emprego, serviços e acessos alimenta a vontade de procurar melhores condições fora da comunidade.
A saída de moradores já deixou marcas visíveis em Mato Sanches, onde muitas famílias partiram e várias casas permanecem de portas fechadas. Os que continuam na localidade temem que sejam cada vez menos aqueles dispostos a construir uma casa e permanecer na comunidade.
“Abandonado mesmo”, responde um dos moradores quando questionado sobre como se sente perante a falta de apoio, traduzindo, num curto desabafo, o sentimento de quem diz ver os problemas persistirem sem respostas capazes de mudar o quotidiano.
Entre a ribeira seca coberta de acácias, as terras que já não são cultivadas, as casas fechadas e uma estrada que dificulta a entrada e a saída, Mato Sanches conserva famílias que insistem em permanecer, mas que começam a questionar até quando será possível viver onde a água falta, o trabalho escasseia e o futuro parece cada vez mais distante.
DV/JMV
Inforpress/Fim
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