REPORTAGEM/Lar de Esperança e Conforto: quando cuidar dos mais velhos também passa por reinventar a forma de estar em família

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REPORTAGEM/Lar de Esperança e Conforto: quando cuidar dos mais velhos também passa por reinventar a forma de estar em família
31/08/26 - 10:44 pm

***Por: Marli Coutinho Mendes, da Agência Inforpress***

Assomada, 01 Set  (Inforpress) – Entre o desejo de cuidar dos pais e as exigências de uma vida cada vez mais ocupada, famílias cabo-verdianas enfrentam um dilema: como garantir aos mais velhos companhia, segurança e cuidados quando já não conseguem assegurar tudo em casa?

Em Achada Galego, perto do centro da cidade de Assomada, o Lar de Esperança e Conforto, inaugurado a 10 de Agosto, nasceu precisamente dessa realidade. A nova estrutura pretende proporcionar aos idosos um espaço de acolhimento onde os cuidados incluam, além da alimentação, higiene e acompanhamento diário, afecto, convivência, segurança e dignidade. 

A ideia nasceu de uma experiência familiar. Os fundadores, Ana Maria Tavares e Domingos Furtado, casal de emigrantes, viveram de perto as dificuldades de acompanhar os próprios pais numa fase da vida em que a presença e os cuidados passam a ser cada vez mais necessários.

Foi essa experiência que os levou a pensar noutras famílias que, entre a distância, o trabalho e as responsabilidades do dia-a-dia, podem querer cuidar dos seus idosos, mas nem sempre conseguem fazê-lo sozinhas.

“Esta experiência desafiante levou-nos a questionar de que forma podíamos fazer a diferença”, explicou à Inforpress o responsável pelo lar, Paulino Marçal.

A questão surge num contexto de envelhecimento progressivo da população cabo-verdiana. Dados do Instituto Nacional de Estatística indicam que Cabo Verde tinha, em 2023, 54.489 pessoas com 60 anos ou mais, correspondentes a 10,7% da população.

Mas por detrás dos números existem histórias familiares. Há filhos que vivem noutras ilhas ou no estrangeiro, familiares que passam grande parte do dia a trabalhar e outros que, apesar da vontade, não  dispõem de condições para assegurar cuidados permanentes. 

Neste contexto, a procura de uma estrutura residencial pode representar, para algumas famílias, uma alternativa para garantir cuidados especializados sem romper os laços familiares. 

É essa perspectiva que o Lar de Esperança e Conforto pretende promover. Segundo Paulino Marçal, a entrada de um idoso numa instituição não deve significar o afastamento da família, defendendo a manutenção das visitas, chamadas, participação nas decisões e presença afectiva.

A proposta inclui alimentação adaptada às necessidades de cada residente, acompanhamento diário, actividades de estimulação cognitiva, momentos recreativos e iniciativas destinadas ao bem-estar emocional. A instituição pretende ainda abrir as portas à comunidade, através de voluntariado, visitas e actividades que contribuam para reduzir o isolamento dos idosos.

 

A solidão constitui, aliás, uma das preocupações associadas ao envelhecimento, sobretudo quando os amigos desaparecem, os filhos vivem longe ou as rotinas familiares se alteram, reduzindo os momentos de conversa, companhia e participação social. 

Do lado das famílias, a prestação de cuidados permanentes em casa pode também representar uma exigência física e emocional, sobretudo quando é necessário conciliá-la com o trabalho, os filhos e outras responsabilidades. 

A experiência de outros países mostra que envelhecer com qualidade exige mais do que um lugar para morar. Em Portugal, Japão e países nórdicos, diferentes modelos apostam na combinação entre cuidados especializados, autonomia, actividades, comunidade e ligação às famílias, procurando evitar que a institucionalização seja sinónimo de isolamento.

É também esse desafio que se coloca agora em Santa Catarina. Nesta fase de arranque, o Lar de Esperança e Conforto procura conquistar a confiança das famílias, consolidar parcerias com unidades de saúde e entidades comunitárias e afirmar uma nova forma de olhar para a velhice.

No fundo, a instituição quer provar que “colocar um familiar num lar não precisa significar afastá-lo. Pode significar encontrar novas formas de estar presente, quando cuidar em casa deixou de ser possível sozinho. Porque envelhecer, afinal, não deveria significar deixar de pertencer a uma família”, finalizou o responsável.

MC/JMV

Inforpress/Fim

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