PERFIL: “Não sou arrogante, sou articulada e diferente” – Rosário Luz (c/áudio)

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PERFIL: “Não sou arrogante, sou articulada e diferente” – Rosário Luz (c/áudio)
26/06/26 - 03:00 am

*** Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 26 Jun (Inforpress) - Por trás da analista acutilante e da escritora rigorosa, há uma mulher que assume a chatice como virtude, recusa o rótulo da fragilidade e confessa que as suas melhores ideias nascem a olhar para o tecto.

Numa viagem às suas memórias mais guardadas, Rosário Luz abre o livro da sua vida, da infância transcontinental ao sonho de dirigir a RTC, passando pelo feminismo gastronómico e as doces contradições do quotidiano.

Uma mulher de ideias firmes, alguém que prefere a liberdade da intervenção cívica e a riqueza dos afectos aos palcos da política partidária, e que não gosta de perder tempo com floreados.

O seu percurso é rico e diverso, dando-lhe uma visão muito completa da sociedade, pois, já esteve nos bastidores do poder, como assessora de comunicação no gabinete do Primeiro-Ministro e assessora do Ministro da Economia, já liderou a televisão pública, como directora da TCV e conhece bem o sector privado, tendo sido secretária-geral da Câmara de Comércio.

Esta bagagem faz dela uma mulher segura, que conhece o funcionamento do sistema por dentro, mas que escolheu manter a sua liberdade e o seu espírito crítico cá fora.

Se procurar este nome nos registos oficiais, Maria do Rosário Santos da Luz, encontra a filha de dois universitários progressistas que marcaram a história da consolidação de Cabo Verde, mas no debate público e nas livrarias, ela simplificou, Rosário Luz, porque mais conveniente profissionalmente.

Nascida em Lisboa num 25 de Agosto, facto que assume com o orgulho de uma “virginiana convicta”, Rosário prefere manter o ano exacto do seu nascimento sob um manto de mistério.

“Gosto de fazer mistério com a minha idade porque ninguém consegue adivinhar”, confessa.

É o preâmbulo perfeito para disparar, entre gargalhadas, uma das suas tiradas mais audazes: “Nós nascemos para liderar este país. É óbvio”, e para que não restem dúvidas da audácia astral, lembra que partilha o signo com duas das maiores referências da história e da alma crioula, isto é, Amílcar Cabral e Cesária Évora.

A história de Rosário Luz começou a desenhar-se na Lisboa colonial, aos sete anos, aterrou no Cabo Verde revolucionário e tradicional dos anos 70, e aos dez, viu-se em Nova Iorque, onde o pai, Amaro da Luz, servia como embaixador em pleno auge da Guerra Fria.

“Viver em três cidades completamente diferentes, tão jovem, dá-te uma visão da vida muito crítica. Em Cabo Verde, o russo era uma coisa boa, em Nova Iorque, o comunismo era demonizado. Percebi muito cedo que a narrativa e a realidade são coisas radicalmente diferentes”, recorda a analista para quem o hábito de comparar realidades virou o seu maior activo.

Filha do primeiro ministro das Finanças do país e de Maria Cândida, a primeira directora-geral dos serviços sociais, Rosário recusa o rótulo de “família abastada”, mas defende com orgulho o conceito de privilégio cultural.

Recorda o Peugeot 404 velho do pai, que os deixou apeados na Serra da Malagueta, para ilustrar que a riqueza da sua casa nunca foi material.

“O meu privilégio não foi material, foi acidental e cultural. Ter acesso a escolas em Nova Iorque, ter o conforto necessário que te dá o gosto de ler livros desde criança permitiu-me arriscar na vida. Temos uma rede familiar sólida… É preciso dividir o que é privilégio do que é ser endinheirado”, clarifica.

Após estudar Economia em Lisboa e Cinema na Emerson College, em Boston, além de uma passagem marcante de dois anos pela Guiné-Bissau, Rosário percebeu que a sua praia não era realizar filmes, mas sim descortinar o que está por trás das palavras.

Hoje, à frente da sua empresa de consultoria e comunicação, a Spina, é a própria Rosário quem reconhece as regras de um mercado estreito, onde a relação com o Estado exige um equilíbrio cirúrgico.

Sem papas na língua, assume que a sua postura independente dita o tom dos seus negócios, blindada por uma competência que lhe assegura uma carteira de clientes própria e o conforto de poder arriscar sem pedir licença.

É nessa independência que constrói a sua rotina milimétrica, todos os dias, acorda rigorosamente às 06:30, toma um café preto e treina com pesos e bandas elásticas no conforto de casa.

O esforço físico matinal serve uma justificação muito clara e saborosa, tudo para compensar o açúcar que assume como a sua maior tentação.

“Sou maioritariamente vegetariana, mas sou capaz de comer um atum grelhado e depois comer três pudins de sobremesa. Faço exercício para poder continuar a comer bolos”, confessa entre risos.

Se os doces são o pecado, o cuscuz quente com manteiga e café com leite é o seu porto seguro sagrado, um prato que assume poder comer três vezes por dia, durante um ano, sem que nunca se enfastie.

Filha de um “casamento feliz” de 53 anos, Rosário sabe exactamente o que é preciso para manter uma união estável. E é precisamente por isso que afirma, sem rodeios: “Eu não sou essa pessoa. Não é uma questão de não estar casada… Eu não sou casável”, confessa entre uma sonora gargalhada.

Entretanto, mãe orgulhosa de Maria Alexandra, que acaba de se formar em Gestão no Porto, Rosário assume uma visão profundamente africana da família.

“O centro sempre foi a minha filha e os meus ascendentes. Os amores vão e vêm. Não há nada que eu preze mais do que a minha liberdade. Só prescindo dela pela minha filha e pelos meus sobrinhos”, disse.

A viver sozinha, o seu saudável isolamento e o desapego científico com que encara a exposição pública servem de combustível para o ócio criativo de que precisa para produzir.

“Sou uma pessoa preguiçosa. Adoro estar quieta a olhar para o tecto. É aí que as melhores ideias para os livros e análises me chegam”, revela.

No entanto, este recolhimento não a afasta de um mundo onde a sua vida social é seleccionada a dedo, preferindo jantares longos com o seu círculo mais íntimo a grandes badalações, circulando com elegância por vários quadrantes sem se prender a convenções ou fretes sociais.

Dessa quietude nascem as perspectivas afiadas sobre o mundo exterior, onde a hipocrisia e a falta de civismo a tiram do sério.

“Estamos numa fase de grande hipocrisia mediada pelas redes sociais, onde a amiga posta uma foto horrível e toda a gente comenta 'linda!'. Isso dá-me cabo dos nervos”, desabafa, estendendo a tolerância zero também a crianças mal-educadas.

“As pessoas dizem que eu sou arrogante. Não, eu não sou arrogante, sou articulada e diferente. Se chamam nomes à figura pública, encaro como um cientista encara um vírus. Sem raiva. Sou arrogante com palermas”, dispara com humor.

E quando o tema é a fragilidade, a resposta surge como um manifesto identitário de quem se assume herdeira de uma linhagem orgulhosa de mulheres cabo-verdianas que gritam e choram sempre que necessário, mas com um aviso prévio para os mais incautos: “Não confundas o meu choro com tristeza, confunde com perigo ou com raiva”.

No que toca às lides domésticas, assume com humor que tem cara de quem as rejeita, embora se orgulhe de cozinhar “muito bem”, encarando a cozinha não como um espaço de subjugação, mas como um autêntico território de poder.

Se nos salgados a sua especialidade é a tarte de atum e nos doces brilha com a tarte de limão merengada, a paixão pela culinária esfria no instante em que desliga o fogão, momento em que confessa com humor que basta ter de lavar um copo ou um prato para entrar em depressão.

Da cozinha à política é um passo natural para Rosário Luz, que cresceu com o debate público a correr-lhe nas veias e a ser discutido religiosamente nas cachupas de sábado na casa dos pais, embora o “bicho partidário” nunca a tenha conseguido morder.

“Nunca encontrei em Cabo Verde uma força política que me dessa confiança suficiente para ser militante”, confessa, admitindo que a análise que faz do país que foi de “mal a pior” lhe tira o sono e gostava de ver uma postura diferente na liderança nacional, preferindo que Cabo Verde fizesse política “como um virginiano, com a cabeça fria, e não com a emoção de que cada eleição vai salvar a pátria”.

Questionada se aceitaria um cargo político, Rosário Luz surpreende pela audácia.

“Há um único cargo que eu aceitaria proposto pelo Diabo em pessoa, a administração da RTC. Porque a comunicação é a chave para chegar a um país politizado, e não partidarizado como agora. Mas tenho a certeza de que nenhum governo é aberto o suficiente para pôr a televisão e a rádio públicas nas mãos de uma pessoa verdadeiramente independente”, revelou.

Guerreira, sem papas na língua e orgulhosa da matriz matrilinear da sua terra, Rosário Luz conclui com um recado directo às gerações mais jovens, avisando que não se podem importar narrativas de fora sobre mulheres frágeis porque a herança cabo-verdiana “é de Mãe Pretinha, uma herança guerreira”, finalizou a analista acutilante.

SC/CP

Inforpress/Fim

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