
Luanda, 30 Jun (Inforpress) — O comandante do AFRICOM rejeitou hoje a presença de tropas americanas para assegurar a paz na República Democrática do Congo e defendeu que o plano para a região assenta no investimento como motor de estabilidade.
Dagvin Anderson, general que lidera a estrutura do Departamento de Defesa norte-americano responsável pelas relações militares com os países africanos, falava à Lusa à margem da Conferência de Chefes de Defesa do AFRICOM (Comando dos Estados Unidos para África), que reúne hoje e quarta-feira representantes de 35 países, em Luanda.
Questionado sobre se os acordos de paz para a República Democrática do Congo (RDCongo), negociados pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, em Washington, poderiam implicar presença militar dos EUA no terreno, Anderson foi categórico: "Não estamos a planear ter quaisquer tropas americanas no terreno. Não há nenhuma discussão sobre isso neste momento".
O general reconheceu que os chamados Acordos de Washington para a Paz e a Prosperidade — que incluem um cessar-fogo permanente entre a RDCongo e o Ruanda, o desarmamento de grupos armados e acordos bilaterais que concedem a empresas norte-americanas prioridade no acesso a reservas de minerais críticos — associam paz e investimento económico, mas rejeitou que se trate de uma troca direta.
"Não diria que é um ‘quid pro quo’, mas permitem o investimento e o desenvolvimento para beneficiar desses minerais que lá estão, tanto para os países anfitriões como para outras empresas que estejam disponíveis e sejam capazes de investir”, acrescentou.
Anderson reconheceu que o Presidente angolano, João Lourenço, tem estado muito envolvido na mediação do conflito, adiantando que há oportunidades para que as nações da região trabalhem em conjunto, com o AFRICOM a disponibilizar-se para apoiar, nomeadamente, na partilha de experiências no combate ao terrorismo.
Sobre a escolha de Luanda para acolher a conferência, Anderson sublinhou o papel central de Angola na região e no continente, referindo que a relação bilateral tem vindo a aprofundar-se ao longo dos últimos cinco a seis anos.
Relativamente ao Corredor do Lobito - projeto ferroviário que atravessa Angola, ligando o porto angolano do Lobito à RDCongo e considerado estratégico por Washington —, Anderson afirmou que o AFRICOM não terá um papel direto na sua segurança, mas destacou que o investimento económico e estabilidade andam lado a lado: "O investimento ajuda a construir estabilidade e a construir prosperidade em geral, e isso acaba por levar à segurança”.
O general afastou, por outro lado, a hipótese de instalação de uma base militar norte-americana em Angola, esclarecendo que o Acordo de Aquisição e Serviços Recíproco assinado entre os dois países estabelece apenas um quadro logístico para cooperação pontual e não implica uma presença permanente.
A visita coincidiu com a assinatura, segunda-feira, de uma parceria entre a Guarda Nacional do estado norte-americano do Ohio e Angola, no âmbito do State Partnership Program, iniciativa que, segundo Anderson, permite construir relações entre forças armadas que vão além do domínio militar, estendendo-se a instituições académicas, sociais e oportunidades de investimento.
O general citou o exemplo da parceria entre o Ohio e a Hungria, como modelo do tipo de envolvimento de longo prazo que os EUA pretendem replicar em Angola.
Sobre o fim de projetos da USAID (agência dos EUA para o desenvolvimento internacional), o fecho de embaixadas e a redução de pessoal diplomático norte-americano em África, Anderson negou que o AFRICOM pretenda substituir o “soft power” pelo poder militar, afirmando que o papel das forças armadas é complementar e não substituto dos restantes instrumentos de poder.
Quanto às principais ameaças para o continente, o comandante identificou o terrorismo 'jihadista' como preocupação central, alertando que a Al-Qaida e o Estado Islâmico transferiram liderança e operações para África, que se tornou "o epicentro do terrorismo global".
Anderson destacou a este propósito a colaboração recente com a Nigéria, que resultou na eliminação de Al-Minuki, que descreveu como o segundo terrorista mais procurado do Estado Islâmico a nível mundial.
Sobre uma eventual relocalização do quartel-general do AFRICOM, atualmente sediado na Alemanha, para o continente africano, Anderson disse não antever mudanças a curto prazo, invocando os custos de uma tal transferência e o atual contexto orçamental norte-americano, mas remeteu qualquer decisão para os responsáveis políticos.
Inforpress/Lusa
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