Urdi2022: Representante dos artesãos queixa-se de dificuldades de transporte nos municípios “encravados”

Mindelo, 05 Nov (Inforpress) – O representante dos artesãos na feira Urdi disse que os artesãos “não são tratados com dignidade” nos municípios “encravados” porque enfrentam problemas de transporte que impedem a venda e o envio das obras para outras localidades.

Gamal Mascarenhas, que falava no encerramento da 7ª edição da Feira de Artesanato e Design de Cabo verde (Urdi), que decorreu no Mindelo, considerou que à excepção de São Vicente, Santiago, Sal e Boa Vista, onde há uma movimentação turística, nas outras ilhas os artesãos têm um “problema gravíssimo” de transporte para escoar os seus produtos.

Por causa disso, sustentou, há “artesãos com qualidade, mas com preços totalmente reduzidos”, porque “não conseguem vender e têm de colocar um preço quase indigno” que “não valoriza” o seu trabalho.

“Os municípios periféricos têm um grande drama de falta de escoamento de produtos. Há peças boas, mas não sabem o que fazer com elas, a população não valoriza então o artesão fica com os produtos. Às vezes, são os donos de lojas que os descobrem e compram peças por 200 a 300 escudos para vender por mil ou 1500 escudos”, exemplificou, notando que nesta situação aquele que se esforçou para fazer a peça é quem “ganha mais pouco”, o que “é injusto”.

Outra crítica do artesão refere-se ao processo de aquisição do cartão do artesão que, segundo Gamal Mascarenhas, a ideia de criar o cartão “é boa” porque oferece ao artesão muitas vantagens dentro e fora do País.

Mas, referiu, têm tido “muitos constrangimentos”, principalmente nas ilhas “mais pobres” onde “muitos artesãos de qualidade” não acederam ao cartão porque para eles é “um susto” pensar em fazer o cartão, montar a empresa e pagar as Finanças se eles não conseguem vender os seus produtos.

Por causa disso, o artesão sugeriu que o Instituto Nacional da Previdência Social (INPS) também faça o saneamento das dívidas de empresas de artenato, assim como tem feito com as grandes empresas como a TACV e a Electra.

“Sabemos que o INPS, ao longo de todos os governos de Cabo Verde, é dos institutos mais sólidos do País. Tiram dinheiro do INPS, que é de todos nós que contribuímos, para sanear dívidas de empresas que estão em apuros como a RTC e A Electra. Se é dinheiro dos contribuintes porque é que não pode ser retirado para perdoar dívidas de pequenas empresas de artesãos”, questionou GamaL Mascarenhas, numa espécie de repto ao ministro da Cultura e ao ministro das Finanças.

A mesma fonte sugeriu ainda a cedência de espaços públicos, que não tem utilização, para os artesões trabalharem ou servir de lojas para vender os seus produtos, ao invés de ceder esses espaços a privados.

Também propôs a criação de espaços comunitários, com equipamentos comprados pelo Governo, tal como acontece em outros países, para uso de artesãos e a criação da rede de distribuição nacional de artesanato com pontos de distribuição em vários lugares.

Por sua vez, o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, disse que o discurso de Gamal é a prova de que o “discurso profícuo” entre artesãos acaba por trazer, pela primeira vez na Urdi, um caderno de encargos para o Governo e para as câmaras municipais.

Segundo o ministro, “o cooperativismo no artesanato é o futuro” e Gamal Mascarenhas “tem absoluta razão” quando fala disso.

Para Abraão Vicente o “recado” do representante dos artesãos “é muito mais para os artesãos do que para o Governo” porque, sintetizou, “o Governo não forma cooperativas e associações”.

“O Governo apoia, incentiva, estimula, financia e coopera com as cooperativas e este é o incentivo que passo aos vereadores.  A Urdi é um evento de São Vicente e lançamos o desafio de aumentar a qualidade do trabalho que fazemos e o desafio para que a loja CNAD esteja presente em todas as ilhas”, considerou o ministro, para quem a ideia das lojas já é um projecto da própria estrutura do Centro Nacional de Artesanato e Design (CNAD).

“É suposto serem abertas lojas em cada ilha. O trabalho que estamos a fazer com hotéis na Boa Vista e no Sal para abertura de lojas tem que ser acompanhado de um trabalho de sistematização”, argumentou o governante.

Sobre a questão da previdência social (INPS) e da formalização do sector, o ministro disse que são obrigatórios porque, lembrou, a responsabilidade de contribuir para a reforma e para a segurança social é individual.

“O artesão   tem que saber que deve contribuir, ninguém vai descontar para a reforma de outras pessoas. Isso é o mínimo que ele tem que fazer, ou seja, quando anexamos segurança, social, INPS e finanças ao cartão do artesão é uma tentativa clara de formalizar o sector e de dar aos artesãos os benefícios que o funcionário público e o das empresas privadas tem”, disse Abraão Vicente.

Até porque, lembrou, “não é nada bonito” ver pessoas que fizeram um trabalho de “muito mérito”, durante a sua vida, e chegar à velhice e “não ter uma reforma”.

Além dos discursos de encerramento foram entregues o prémio Djoy Soares para o trabalho de renda de Judite Fonseca, do Paul, Santo Antão, como escolha do público, e para Marcelino dos Santos, de São Vicente, como escolha do júri.

CD/AA

Inforpress/Fim

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