São Vicente/REPORTAGEM: Sobreviventes do naufrágio do navio “Vicente” estão ainda sem indemnização

*** Por Carina David, da Agência Inforpress ***

Mindelo, 08 Jan (Inforpress) – Os 11 sobreviventes do naufrágio do navio Vicente, ocorrido a 8 de Janeiro de 2015, no mar da ilha do Fogo, estão sem indemnização, após seis anos do acidente que matou 15 pessoas, sendo três passageiros e 12 tripulantes.

Esta informação foi avançada pelo representante legal das vítimas do naufrágio do navio “Vicente”, Cirilo Cidário, à Inforpress que foi ao terreno saber como é que está a vida das famílias afectadas por este acidente.

Segundo Cirilo Cidário, o caso desses 11 sobreviventes ainda decorre na Procuradoria da República, porque se trata de um processo judicial.

“Há cerca de dois meses que fui contactado pela Procuradoria e dei-lhes algumas informações para poderem dar seguimento”, explicou o representante, que aproveitou para esclarecer que “o processo ainda não está concluído”, tal como “tem dito o ministro do Estado, Fernando Elísio Freire, há dois anos”.

Conforme Cirilo Cidário, o governante “tem vindo a dizer que o processo está tudo resolvido, mas não é verdade”. Os sobreviventes, adiantou, “nunca tiverem qualquer apoio”, apesar de “terem perdido todos os seus vencimentos que tinham no barco na altura”.

A mesma fonte avançou que “há duas famílias, incluindo a do seu irmão, que receberam a pensão de 20 mil escudos, atribuída pelo Governo, somente em Agosto de 2020, depois de uma grande luta”.

De acordo com o representante, além dos 11 sobreviventes que estão sem indemnização, ainda existem mais duas famílias que perderam os seus entes queridos no acidente e que não foram contempladas com o subsídio de 20 mil escudos.

“Das 26 pessoas que deveriam receber uma compensação do Estado, 13 famílias foram contempladas com um subsídio de 20 mil escudos mensais, faltando ainda duas famílias, a mulher e a filha do capitão do navio, que vivem em Cuba, e os familiares do marinheiro Claudino, que também deixou uma mulher e um filho deficiente em São Vicente.

Por isso, o representante legal das vítimas pediu que se agilize o processo dessas duas famílias porque, sentenciou, “elas têm direito a esse subsídio, uma vez que está publicado”.

O mesmo pedido fez em benefício aos sobreviventes para “redimir o sofrimento das famílias” porque, ajuntou, “se é difícil viver com pouco, mais difícil é viver sem nada”.

Um dos sobreviventes, Dalilo Fernandes, disse à Inforpress que depois do acidente ficou sem trabalho. Com dois filhos para criar, um de nove e outro de quatro anos, “desenrasca-se quando aparece algo para fazer”.

“É um trauma que fica. Fiquei decepcionado com o Estado porque prometeram nos indemnizar e até agora nada. Prometeram nos ajudar com emprego e nunca nos deram nada e nem olharam para nós”, afirmou Dalilo Fernandes, referindo-se ao primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, a quem acusou de dar o dito pelo não dito sobre a situação dos sobreviventes.

“O primeiro-ministro prometeu, na sua campanha, que resolvia a situação, mas no Parlamento, disse que não prometeu nada. Antes de entrar no Governo fez uma campanha sobre o acidente do navio Vicente e sobre a erupção no Fogo. Foi só falar, falar e não resolveu nada”, criticou a mesma fonte para quem “os que perderam familiares no naufrágio só receberam uma pensão porque houve pressão e várias críticas”.

O mesmo entendimento tem Manuel Fortes, outro sobrevivente que trabalhava na secção de máquinas do navio “Vicente”.

“Desde que tivemos o acidente, temos passado uma situação muito precária e não tivemos ajudas. Pior, nem trabalho conseguiram nos arranjar. Se não tivesses pulso para procurar trabalho poderíamos estar numa situação mais complicada”, afiançou, lembrando que “quando concorria para as legislativas, o actual primeiro-ministro disse que a primeira coisa que faria, se chegasse ao Governo, era resolver a indemnização dos sobreviventes”.

Para este maquinista, “o pior é que já vão fazer seis anos do acidente e o assunto não é abordado no Parlamento com frequência com dantes”. No seu entender, trata-se de uma “injustiça para os sobreviventes” porque, adiantou, “a indemnização é um direito que lhes assiste mesmo se fossem originários de famílias ricas”.

“É um direito que a pessoa tem porque lá fora (no estrangeiro) é a mesma cosa. Se todas as coisas copiam lá fora, porque é que não copiam as leis”, indagou Manuel Fortes, que disse que, “devido ao acidente, ficou com problemas psicológicos e respiratórios, mas nunca teve apoio algum”.

“Fui um dos que mais sofreu lesões. Nunca tive um psicólogo para me acompanhar e até ainda tenho um problema respiratório e tenho que ter sempre uma bomba respiratória por perto”, apresentou o sobrevivente, que relatou ainda que “desde 15 de Dezembro as crises respiratórias intensificaram-se, devido ao clima que ficou mais frio e por causa da ansiedade que sente quando se aproxima mais um aniversário da data do acidente”.

Instado como tem sobrevivido após o acidente, Manuel Fortes afirmou que tinha um táxi que alugou a um familiar para poder pagar dívidas que tinha com a banca e alimentar os dois filhos.

Agora, adiantou, trabalha numa viatura hiace, mas “a sua situação tornou-se complicada depois da pandemia da covid-19”.

O navio “Vicente” afundou-se a 8 de Janeiro de 2015, por volta das 22 horas, a quatro milhas do porto do Vale dos Cavaleiros, na ilha do Fogo, com 26 pessoas a bordo, entre tripulação e passageiros.

Além de passageiros, a embarcação transportava carga para a ilha do Fogo. Onze ocupantes foram resgatados com vida, quinze faleceram, das quais apenas um corpo foi recuperado.

As buscas foram iniciadas momentos depois de o navio se ter afundado e foram suspensas entre às 00:00 e as 02:00 da manhã. Entretanto, foram novamente retomadas por volta das 07:00 com o navio “Ostrea”, da Shell e o “Kriola”, da então empresa Cabo Verde Fast Ferry.

Os últimos sobreviventes a chegar à terra foram resgatados pelo navio Ostrea, com o apoio de um mergulhador dinamarquês, residente na ilha do Fogo.

As buscas decorreram durante três dias, não tendo sido encontrado mais nenhum sobrevivente, para além das 11 pessoas resgatadas com vida e nem foram encontrados mais corpo além do cadáver que tinha sido retirado do mar.

O balanço final deste “trágico acidente” foi 15 mortos (sendo 14 desaparecidos e um cadáver que foi encontrado) e 11 sobreviventes.

De acordo com o processo-crime instaurado na sequência do afundamento do navio “Vicente”, o comandante, um dos mortos desse naufrágio, foi considerado o autor material e singular de crimes de homicídio negligente.

CD/JMV

Inforpress/Fim

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