São Vicente/REPORTAGEM: Praça Estrela – Um mercado de vidas e nacionalidades que se dizem “em casa”   

*** Por Letícia Neves, da Agência Inforpress*** 

Mindelo, 03 Mai (Inforpress) – Assane Diouf, senegalês, é um dos comerciantes que diariamente labutam na Praça Estrela, no Mindelo, mercado que une nacionalidades de várias latitudes e com diferentes aptidões e que dizem sentir-se “em casa” apesar das diferenças.   

O mercado-feira da Praça Estrela, como é conhecido actualmente, foi inaugurado a 24 de Setembro de 1999 pelo então presidente da Câmara Municipal de São Vicente, Onésimo Silveira, já falecido. 

Para a sua concretização contou com parcerias da cooperação Suíça, Canadiana, Francesa e ainda da União Europeia, para além das câmaras do Porto e Portimão (Portugal).   

Internacionalização de apoios que parece reflectido nestes 23 anos de existência, já que por ali passaram e permanecem histórias de vidas, tanto de cabo-verdianos, como de cidadãos da costa oeste africana e de outros países. 

Um deles é Assane Diouf, 36 anos, senegalês, aliás, a nacionalidade presente na maioria das mais de uma centena de barracas ali construídas, segundo o presidente da Associação de Senegaleses em São Vicente, Baye Fall.  

O jovem, que viajou de Senegal em 2010 tendo como destino directo a ilha de São Vicente, fez o seu posto de trabalho na Praça Estrela, um “bom lugar para trabalhar”, onde repara telemóveis e vende acessórios, ainda mais “muito bem tratado” pelos cabo-verdianos.   

No mesmo ramo, o cabo-verdiano Jair Jorge, 30 anos, que hoje, por ironia do destino, representa a nacionalidade com menos expressão neste “centro comercial” a céu aberto, assegurou não sentir a concorrência e, pelo contrário, agradece a oportunidade que teve de trabalhar na barraca de um amigo e conseguir ganhar o seu sustento, num “ambiente de harmonia”, que permite o contacto com pessoas de todo o mundo.   

Aliás, foi essa possibilidade de ter o mundo num só lugar que também cativou Ouattara Anzoumanan, ou simplesmente Zoum, 33 anos, que decidiu em 2011 vir viver para Cabo Verde, mesmo sem conhecer o País, a convite do pai que já vivia em São Vicente.   

Com 22 anos, pegou da sua formação de seis anos e do seu diploma de costura conseguido no seu país, Costa do Marfim, e os colocou ao serviço dos cabo-verdianos, que passaram a interiorizar a moda africana, a ponto de levar a “arte” de Zoum até para desfiles de moda.   

Por isso, este costureiro não tem do que se queixar do seu trabalho na Praça Estrela, aliás, ali se sente “tranquilo e à vontade”. 

“Aqui damo-nos como irmãos”, assegurou, com um sorriso no rosto.   

Sensação semelhante tem Mamadou Alpha, 40 anos, da Guiné Conacri, igualmente no ramo da costura, que não se arrependeu, há quatro anos, de ter trocado Senegal por São Vicente, como lugar para viver, trabalhar e ajudar o irmão Cherif Barry, que desde 2006 montou barraca na Praça Estrela.   

“Em São Vicente e na Praça Estrela não há racismo e convivemos aqui sem problemas. Não posso dizer que há maldade porque nunca passei por isso. Vivemos uma vida simples”, sublinhou o cidadão africano, para quem “embora não se ganhe muito dinheiro, existe liberdade”. 

“Liberdade” e “lugar de encontro” são as palavras utilizadas por Bobo Djaló, da Guiné-Bissau, que em 2005 chegou à cidade do Mindelo e, em 2008, conseguiu a sua barraca, onde actualmente vende vestuário e calçado.   

“Aqui na Praça Estrela conforme nos comportamos, assim somos tratados. Podemos conviver bem, basta que aceitemos as diferenças”, aconselhou.   

Diferenças que também podem existir num ambiente familiar, que é como o presidente da Associação de Senegaleses em São Vicente, Baye Fall, caracteriza o mercado, onde há “união”, inclusive para fazer uma “caixa” em que cada comerciante, em pequenos montantes diários, junta o dinheiro para pagar a mensalidade da barraca, não importando a nacionalidade, senegalesa, costa marfinense, ganense, cabo-verdiana, guineense ou nigeriana.   

Baye Fall assegurou que todos os senegaleses “sentem-se bem” na Praça Estrela, onde as pessoas cuidam um do outro até para fazer a segurança e evitar furtos.   

Outras facetas, confirmou o artesão cabo-verdiano José de Pina, 47 anos, é a troca de experiência e a possibilidade de aprender novas línguas e novas formas de negociar com os irmãos da costa africana, com quem convive desde 2007, no “segundo maior centro comercial de Cabo Verde”, como denomina o mercado/feira.   

Mas, nem só de cabo-verdianos e africanos da costa africana se faz Praça Estrela, o Brasil também está representado pela missionária da Igreja Baptista Rivânia Lemos, que há 12 anos vive em São Vicente e partilha o seu tempo entre a confecção e venda de artesanatos, além de formações que dá a mulheres de comunidades mais carenciadas da ilha.   

“Eu sou também estrangeira aqui, mas sinto-me em casa, primeiro por ser Cabo Verde, mas também pelas pessoas que me cercam. Me sinto bem”, considerou.

Rivânia Lemos destacou a questão da harmonia reinante, que faz de Praça Estrela um “lugar perfeito, apesar das imperfeições”, como de não ter as condições ideais em infra-estrutura, condições de higiene e até mesmo de segurança, tal como enumeram os comerciantes.   

Mesmo assim, este mercado/feira e arredores é onde Mindelo mais fervilha, com comércio de topo o tipo desde vestuário, refeições quentes, hortaliças, peixes e até de transporte para as zonas mais distantes da cidade.   

Local que, aliás, no passado, foi uma salina, por ordem de um comandante, e um cemitério para sepultar as vítimas do surto de cólera que assolou Cabo Verde na década de 50 do século XIX.   

Foi também campo de futebol e cricket e para prática de exercícios físicos do Movimento Sokols, originário da República Checa.  

Em 1940 construi-se uma praça no largo, com canteiros de plantas em formato de estrelas, daí o nome Praça Estrela, que, em 1979-1980, acolheu uma feira popular. 

Reconstruída em 1999, metade do terreno destinou-se a um mercado para os comerciantes do antigo espaço de venda conhecido como “Tiosque”, que se situava nas traseiras do edifício da Câmara Municipal de São Vicente, destruído por um incêndio, e para comerciantes ambulantes da costa ocidental africana. 

A outra metade continuou com um quiosque, um coreto e espaços cobertos, que, actualmente, estão ocupados por vendedeiras de verduras e comerciantes de vestuário e artesanato.  

LN/ZS 

Inforpress/Fim  

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