São Vicente/REPORTAGEM: Empresas de som “à míngua” no Natal e fim do ano

*** Por Carina David, da Agência Inforpress ***

Mindelo, 23 Dez (Inforpress) – A quadra festiva que se aproxima vai revelar “tempos de vacas magras” para empresas de prestação de serviço e aluguel de equipamentos de som, em São Vicente, por interdição de eventos motivada pela covid-19.

Ou seja, lá se foi o “tempo de vacas gordas” para essas empresas, que vão ficar de “mãos a abanar” e “à míngua”, nesta quadra festiva.

É que, se nos anos anteriores a movimentação cultural e a proliferação de eventos, sobretudo no Natal e fim do ano, era “garantia de dinheiro” para pessoas e empresas que trabalham nessa área, neste ano de 2020 a pandemia da covid-19 debilitou o negócio.

No início deste ano, muitos foram os que investiram na importação de equipamentos, na esperança de conseguir ganhos, com os festivais, com eventos que já fazem parte do calendário cultural da ilha de São Vicente, com as campanhas eleitorais e com as festas do Natal e do fim do ano.

Os resultados foram “investimentos avultados” que se traduziram “em lucro zero”, dizem alguns desses profissionais entrevistados pela Inforpress.

Benvindo Santos, da empresa Palnet Som, é um dos que disseram  à Inforpress que está a fazer contas para continuar a pagar os impostos da sua empresa, e manter os funcionários, porque não quer perdê-los para depois formar outros e ter “mais custos”.

“Preparei-me e fiz um investimento de quase oito mil contos em equipamentos e não tive nenhum retorno. A campanha eleitoral foi praticamente zero, porque apenas aluguei carros de som, que também tem custos, e no Natal e fim do ano vou ter lucro zero de novo”, avançou Benvindo Santos, para quem “o Governo impediu a realização de festas e eventos, mas, até agora, não apoiou as empresas de prestação de serviços de som”.

“Ouço apenas o Governo a dizer que não há festas, mas para nós não vejo nenhuma ajuda. No meu caso, deram o lay-off aos meus trabalhadores, mas não fui incluído porque disseram que não tenho direito”.

Segundo Benvindo Santos, a Planet Som costumava fazer, em média, três a quatro mil contos nas campanhas eleitorais e na quadra festiva o lucro também “era bom”.

“Há cinco anos viajei para a ilha do Sal com todos os meus trabalhadores e equipamentos, num voo tudo pago, e voltei com mais de mil contos”, adiantou a mesma fonte, acrescentando que neste momento desenrasca-se com a montagem de andaimes e a retirar os posters colocados pelos partidos na campanha eleitoral.

Por sua vez, Anselmo dos Reis, da empresa Super Som, afirmou à Inforpress que a crise há muito que chegou à empresa, mesmo antes da pandemia da covid-19.

Isto, segundo apontou, “por culpa das gentes do poder” que escolhem “apenas empresas amigas” para contratar serviços de som e também das concorrentes, as quais apelida de “empresas de vender boca” que “denigrem a imagem da Super Som para ganhar trabalhos”.

“Os serviços de som agora em São Vicente são só para os amiguinhos de quem tem poder. Eles colam-se aos políticos e matam a Super Som. Os organizadores tomam facturas pró-formas em todas as empresas para ver o preço e dizem às empresas amigas para fazer um preço mais barato para poder ganhar o serviço”, criticou.

Este que foi um dos fundadores da Super Som, na década de 90, lembrou que a empresa “é uma das mais antigas de Cabo Verde”, já trabalhou nos festivais de todas as ilhas do País e com “grandes espectáculos”, como do falecido cantor jamaicano Gregory Isaacs, com a sambista Alcione e com o grupo Terra Samba, estes dois últimos do Brasil.

Por ser uma empresa popular, adiantou Anselmo dos Reis, os ganhos agora resumem-se aos serviços prestados a pessoas que mantém o carinho pela Super Som.

“Desde o ano passado as coisas estão mal porque São Vicente, neste momento, é para quem pode e a Super Som não cabe neste grupo. Fizemos alguns trabalhos para a campanha. Não deu grandes rendimentos porque eram apenas aluguer de carros de som”, explicou o sócio fundador, adiantando também que nas quadras festivas anteriores a empresa costumava fazer “30 a 40 contos por cada serviço” prestado a particulares.

Mesmo dizendo-se “à míngua”, Anselmo dos Reis afirmou que prefere não haver festas, porque “a população só ganha se colaborar para acabar” com a pandemia da covid-19.

“Se a doença propagar, não poderemos fazer nada. Mas há gente que prefere ganhar dinheiro e depois morrer. Prefiro não ter festas e ter saúde para a pandemia desaparecer e ter vida e saúde por mais anos para trabalhar”, garantiu, defendendo que “a única coisa que se pode fazer neste momento é abraçar a causa junto com o Ministério da Saúde, porque há muitos festivais, carnavais e festas de Natal e fim do ano que estão por vir”.

O profissional de som António Almeida é outro que entrou “neste barco da crise sem porto seguro à vista”.

Revelou que há sete anos que trabalhava na prestação de serviços de som num dos hotéis de Mindelo, mas que desde o final de Março, em que “o País parou”, por causa da covid-19, foi para casa “com uma carta na mão” com o aviso de que “ia perder a avença mensal no hotel”.

“Desde o fim de Março estou em casa sem nada. E dou graças a Deus que não pago aluguer onde moro, porque tenho casa herdada dos meus pais. E safo-me com a parte da alimentação e outras coisas”, desabafou a mesma fonte, revelando que agora trabalha com o hotel em casos pontuais.

Sem ganhos nesta época festiva, António Almeida disse não acreditar que o cenário mude na altura do Carnaval, em 2021.

Nos registos fica apenas o investimento de mais de quatro mil contos que fez, no início deste ano, e que “ainda não conseguiu pagar”, revelou.

“Fiz um investimento com a ideia de que possivelmente teria campanhas eleitorais, comícios e festas de fim do ano, mas fiquei só no prejuízo”, explicou, ajuntando que tem tido atenuantes com a dívida porque o investimento foi feito com uma empresa de Portugal, de que é representante em Cabo Verde.

Além das empresas e profissionais de som, a Inforpress constatou que a crise da covid-19 tem afectado o comércio local em São Vicente nesta quadra festiva, sobretudo os que actuam na venda de géneros alimentícios.

Num dos estabelecimentos de venda a grosso da cidade do Mindelo, por exemplo, a informação é que ainda as compras resumiam-se à “reposição do stock de pequenos revendedores da periferia”.

Nos supermercados, informaram que “as compras do Natal ainda estão fracas”, apesar da “procura desenfreada por ovos”.

Mas, a expectativa é que se intensifique nesta quarta-feira, 23, antes da noite de Natal. Mais animadas estão as lojas chinesas que estão a conseguir algum ganho com a venda de prendas, vestuários, sapatos e papéis de embrulho.

CD/DR

Inforpress/Fim

 

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