Search
Generic filters
Exact matches only
Search in title
Search in content
Search in excerpt
Filter by Categories
Politica
Desporto
Economia
Sociedade
Ambiente
Cooperação
Cultura
Internacional
Destaques
Eleições

São Vicente/Reportagem: Agricultores e criadores de gado de Calhau “desolados” e acumulando “prejuízos” com falta de chuva

*** Por Letícia Neves, da Agência Inforpress ***

Mindelo, 17 Set (Inforpress) – Os agricultores e criadores de gado do vale de Calhau dizem-se desolados e “acumulando prejuízos” por causa da falta de chuva, que praticamente não cai há três anos e ainda “sem qualquer apoio” das autoridades.

António Pires é um destes e criticou o Governo por não olhar para a situação do vale do Calhau, que é uma “tristeza”, e fala, no seu caso, de uma horta “toda seca”, com a qual já nem conta, e que há três anos “nada produz, mesmo sendo um chão fértil, onde tudo dava”.

Uma mudança motivada, segundo a mesma fonte, que falava à uma reportagem da Inforpress no local, pela falta de água e que o obriga a comprar quatro carros de água por mês para sustentar os seus animais.

Por causa desta “grande despesa”, ajuntou, tem vindo a reduzir as cabeças de cabra, vaca, porco, ovelha, já que, asseverou, também gasta entre 16 a 17 contos por semana só em ração.

“Até tenho muita coragem, porque pior é se tivesse que fazer as contas de tudo que gasto aqui, acho que teria desistido”, declarou este agricultor e criador de gado, que se reformou, em 2015, como funcionário municipal e decidiu se dedicar à parcela de terra deixada pelo pai.

“É um investimento que fiz aqui e que agora está praticamente nulo e ninguém mo vai trazer de volta”, disse, adiantando também ser “nulo” o apoio do próprio Ministério da Agricultura, até para assistência técnica do gado, e como prova falou da morte de quatro ovelhas nos últimos dias, sem motivo aparente e sem ninguém a quem recorrer.

A seca no Calhau, conforme António Pires, dura desde 2016, deixando os poços “secos”, motivo pelo qual já o fez também reduzir trabalhadores na sua parcela, antes quatro e agora somente dois.

“Estamos a começar a desanimar e, por isso, apelo ao Governo para agilizar o projecto de dessalinização de água para agricultura e ver para São Vicente, que é uma ilha agrícola sim”, sustentou, justificando com o facto de ter colhido anos atrás uma única mandioca pesando 22 quilos e 1.500 quilos de batata.

Humberto Elísio Tanaia afirmou estar na mesma condição também causada, assegurou, pela falta de construção de diques, que não tem permitido a retenção da água por muito tempo.

Assim, “desanimado”, acrescentou, já nem vive da agricultura, mesmo morando na Ribeira de Calhau e procura o sustento trabalhando de pedreiro ou nos outros “biscates” que aparecem.

Mesmo assim, Humberto Tanaia disse ter requerido uma escavadora no Ministério da Agricultura para construir algumas bacias subterrâneas nesta área, em 2016, mas que somente se encheram duas vezes.

José dos Santos, um dos mais velhos do grupo, com 73 anos, também está “lutando” para sustentar as cabeças de cabras, porcos e galinhas, que o fazem gastar 4.500 escudos por semana em ração e milho.

Não obstante esta despesa, garantiu, tira “muito pouco leite” das cabras, que só chega para fazer seis-sete unidades de queijo por dia.

“Eu estou a levar porque esta é minha profissão e com 73 anos não tenho mais para onde ir, porque se fosse de outro jeito não daria”, lançou.

O presidente da Associação Agro-pecuária de Calhau e Madeiral, Filinto Brito, asseverou, por seu lado, estar-se a viver um “cenário medonho, de insegurança e muita incerteza” e sem perspectivas de boas notícias neste ano, já que se está em meados de Setembro e ainda nada da chuva, o que torna, considerou, “cada vez mais difícil” a agricultura e a pecuária.

“Temos muitas parcelas desactivadas e muitos criadores estão a diminuir o gado para metade e a ponto de acabar com a criação”, disse, adiantando estar a situação a atingir “mais de 100 agricultores”, mesmo número também apontado para o número de parcelas desactivadas.

Quanto a poços, estão contabilizados em Calhau 360, mas menos de 100 estão activos, algo que, segundo a mesma fonte, deveria ser prevenido há 10-15 anos, com a construção de diques, que manteriam os lençóis freáticos abastecidos.

“Então, mesmo chovendo, vai continuar a existir o mesmo problema, porque a garantia de água é de cinco, seis meses e depois volta ao mesmo”, assegurou Filinto Brito, lembrando que o último dique fora construído em 2001, quando a capacidade do vale é de “dez grandes diques”, que resolveriam o “problema definitivamente”.

Sendo assim, o presidente da associação afiançou que tem orientado os mais jovens a não se enveredarem pela profissão de agricultor, porque “corre-se o risco de ficar sem rendimento no futuro”.

“As autoridades não estão a preocupar-se com os agricultores deste vale, que tem grande potencialidade na produção de hortícolas e que são muito consumidas pela população de São Vicente”, considerou.

E mesmo com esta “calamidade”, Calhau, concretizou este responsável, não tem recebido visita, nem de deputados no poder e nem da oposição e nem se ouve falar do primeiro projecto de dessalinização de água para agricultura, direccionado ao vale de Calhau, há dez anos”.

LN/JMV

Inforpress/Fim

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
  • Galeria de Fotos