São Vicente/Mindelact: “Negrinha” coloca dedo na ferida da história da escravatura

Mindelo, 11 Nov (Inforpress) – A Academia Livre das Artes Integradas do Mindelo (ALAIM) recebeu neste sábado o espectáculo “Negrinha” da actriz brasileira Sara Antunes, que conta “um pouco” a história da escravatura vivida no Brasil, mas, que fala também sobre Cabo Verde.

O texto, criado pela própria actriz, também tem “um pouco de Cabo Verde”, já que, como avançou Sara Antunes à Inforpress, a primeira vez que veio aqui, em 2006, teve vontade de colocar para fora essa peça, que estava dentro dela e que terminou nos palcos em 2007.

“Então, eu acho que essa peça nasceu com alguma coisa de Cabo Verde e a devolver para cá é muito emocionante, pude contar essa história de Cabo Verde e também do Brasil, que tem muita força”, asseverou a brasileira, que disse ter escrito o texto “baseado em factos verídicos”, como o de muitos senhorios que enterravam os seus escravos debaixo das casas para “dar sorte”.

Durante o espectáculo, a “Negrinha”, encarnada por uma branca, brinca muito com as cores, principalmente as cores das pessoas, encontradas no próprio público, que se transforma também em personagens da história, num cenário somente iluminado pela luz de velas.

“Tudo isso me enriquece e vou voltar muito cheia de emoções para o Brasil”, garantiu a actriz, que após o final da apresentação dedicou mais cinco minutos para recolher subsídios da plateia acerca do assunto abordado.

“Quando escrevi a peça há 10 anos isto não estava tão latente, mas que bom as coisas mudaram e estamos a conseguir discuti-lo”, ressaltou a mesma fonte, para quem mostra-se necessário “pensar junto” a questão do racismo, essa “história dolorosa”, que não e só dos negros, mas que “também os brancos devem se empenhar”.

Os mindelenses mostraram as suas opiniões e alguns “bem acutilantes” que Sara Antunes, disse estar a recolher, para saber se continua ou não com a “Negrinha”.

“Mas, até agora ainda não ouvi para não fazer o espectáculo, mas se um dia bater sério ele vai se fechar”, assegurou, mas, por enquanto disse o sentir “vivo e com sentido para ser feito”.

Neste sábado, também a ALAIM recebeu o espectáculo infantil “Fiu Fiu – Um encontro entre pássaros”, do Grupo Tibanaré, do Mato Grosso (Brasil) e que mostra, conforme o actor e encenador da peça, Jefferson Jarcem, que a linguagem do amor é “universal, e não importa se as culturas são diferentes”.

“Ele tem uma fala física, que dialoga com todo mundo, também tem uma coisa que se identifica completamente com Cabo Verde, que é a festividade, molejo e jogo do quadril”, classificou, referindo a vertente de dança da peça baseado no “lambadão”, típico daquele Estado brasileiro.

Por outro lado, segundo a mesma fonte, a peça “chama atenção para as diferenças”, com os dois pássaros, que se apaixonam, mesmo sendo de mundos e com personalidades “completamente diferentes”.

“Mas, que se equilibram a partir do amor, que gera amor e da esperança, que gera esperança”, ressalvou Jefferson Jarcem que assina a criação, dramaturgia e direcção da peça que vai ser reposta neste domingo.

Os dois espectáculos lotaram a sala do segundo palco do Mindelact, que prosseguiu com as apresentações neste que foi o penúltimo dia do festival de teatro.

Numa noite quase que totalmente dedicada às artes cénicas do Brasil, contou-se ainda com a performance “Híbrido”, do também brasileiro Robson Catalunha, no Centro Cultural do Mindelo, que também recebeu “Esta noite choveu prata” do mindelense Emanuel Ribeiro.

LN/CP

Inforpress/Fim

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