São Vicente: Espólio de Cesária Évora transferido do Palácio do Povo para Casa do Coleccionador (c/áudio)

Mindelo, 11 Nov (Inforpress) – O espólio com objectos, roupas, discos e tudo o que se refere à vida da cantora Cesária Évora foi transferido do Palácio do Povo para a Casa do Coleccionador, no Monte Sossego, em São Vicente.

Em entrevista exclusiva à Inforpress, o coleccionador Francisco Paulina Rocha, dono do espólio que diz apresentar 95 por cento (%) de tudo o que foi a vida de Cesária Évora, dos quais 65% comprados aos filhos da Diva dos Pés Descalços e 30% fora de Cabo Verde, explicou que a transferência da exposição se deve à necessidade de obras no Palácio do Povo, que acolheu a mostra de “Cize” por dez anos.

“Estive lá no Palácio durante dez anos. Desde 2012, quando fui para lá, o Palácio estava a cair aos bocados e fiz um trabalho para colocar a exposição porque não justificava um turista ir visitar e o tecto caísse ou que tivesse outra danificação. Valorizei o Palácio porque aquele sítio estava morto. Mas, com a mudança do Presidente da República, José Maria Neves sempre referiu que o Palácio merecia um trabalho de fundo e é mesmo verdade, então eis as razões porque saí de lá”, explicou.

Segundo Francisco Paulina Rocha, antes da retirada do espólio do Palácio, foi-lhe prometido um espaço na ex-Conservatória de Registos de São Vicente, na Rua 5 de Julho, mas o prédio é alvo de “uma obra que nunca mais acaba, por causa de dividendos políticos”.

Também disse que recebeu “uma promessa do presidente da Câmara Municipal de São Vicente, Augusto Neves, de um espaço no centro da cidade que nunca se efectivou”.

A alternativa, conforme Francisco Paulina Rocha, foi transferir o espólio de Cesária Évora para a Casa do Coleccionador, na Rua Tia Tala, no Monte Sossego, onde há muitos anos tem exposta uma vasta colecção de peças antigas, adquiridas dentro e fora do País.

Mas o coleccionador afirmou que para isso teve de retirar 50% do espólio de Cesária Évora e guardar em armazéns, e ainda parte das suas antiguidades da casa para poder continuar a mostrar o legado de Cesária.

“Sempre lancei um apelo de união porque, para mim, a cultura não tem nada a ver com a política. Precisamos de nos unir para trabalhar aquilo que é e aquilo que Cesária Évora fez em termos de cultura e identidade”, afiançou a mesma fonte, que diz estar à procura de um espaço adequado, no centro da cidade do Mindelo, para projectar o seu trabalho de melhor forma para “não ficar a depender dos governantes e do presidente da câmara”.

Francisco Paulina Rocha revelou que já recebeu várias propostas mundiais de aquisição do espólio de Cesária Évora mas acredita que o mesmo deve ficar aqui em Cabo Verde, terra da cantora, e ser visitado e contemplado pelos turistas.

“É a minha iniciativa, mas penso que é um trabalho de todos os cabo-verdianos que amam a nossa cultura e a nossa identidade. Estou a pensar se, de facto, tiro o meu trabalho de Cabo Verde porque já passei por várias fases e promessas e não foi fácil retirar um trabalho, desenvolvido há anos, do Palácio para depois arrumar 50% do espólio um pouco aqui e acolá”, sintetizou o coleccionador.

Segundo o ex-emigrante, trata-se de um trabalho que “merece bastante consideração” e que é “valorizado internacionalmente,” mas Cabo Verde tem uma conjuntura, a nível político, que “não valoriza aquilo que deve ser valorizado, no dia a dia, nem a identidade cabo-verdiana”.

“Não há uma visão clara ou política em termos da nossa identidade. Porque em vez de unirmos para fazer um projecto em comum para projectar Cabo Verde em termos turísticos, falamos, falamos, mas não vemos acção para podermos pôr em prática coisas boas e lidas em prol da nossa cultura”, criticou, defendendo que o País deveria ter “um plano traçado, em termos de cultura, para valorizar os criadores na parte da originalidade e trabalhar em comum independentemente dos sucessivos governos”.

E é por defender que “cada um não pode trabalhar a cultura por si só” que Francisco Paulina Rocha informou que renovou o contrato de cedência de 56 peças com o Governo de Cabo Verde para colocar no Núcleo Museológico de Cesária Évora em São Vicente.

“Em 2013 cedi ao Governo de Cabo Verde 56 peças de Cesária Évora para colocar no Núcleo Museológico. Cedi durante cinco anos e já renovei o contrato para mostrá-los que devemos nos unir. Mas eles só me procuram quando precisam de mim”, declarou Francisco Paulina Rocha, que começou a coleccionar antiguidades desde criança.

CD/HF

Inforpress/Fim

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