Santo Antão: Professores apreensivos e alunos com medo de regressar às aulas no Liceu António Januário Leite

***Por Lucilene Fernandes Salomão, da Agência Inforpress***

Cidade das Pombas, Paul, 07 Dez (Inforpress) – Medo é a palavra que a Inforpress mais ouviu da boca dos estudantes da Escola Secundária António Januário Leite, no Paul, que temem voltar às aulas após “crise de pânico” e queda de duas alunas do 1º piso.

Abordados pela Inforpress, vários alunos quiseram falar para expor o que lhes vai na alma sobre o cenário vivido no liceu, onde alunas entraram em crise, sofreram desmaios, puseram-se aos gritos e outras caíram, uma das quais foi transferida para o Hospital Baptista de Sousa (HBS), em São Vicente.

Mas nenhum quis dar a cara porque temem serem tratados como loucos, alucinados ou por pessoas que estão a ver “bjon” (termo utilizado no crioulo de Santo Antão para definir medo ou algo sobrenatural).

“Parecia que estávamos num filme de terror. Por várias vezes, já assisti colegas que sentirem-se mal, mas nunca tinha visto alguém a chegar a esse extremo de atentar contra a própria vida, como aconteceu agora”, frisou um aluno do 11.º ano ao ser abordado pela reportagem da Inforpress.

Outro estudante caracterizou o episódio “estranho” e “diferente” das outras vezes que presenciou no Liceu. Com medo do que viu, avançou, já não consegue dormir à noite e não tem “coragem” de ir à escola embora reconheça que, se não for, ficará “prejudicado”.

Uma aluna, que esteve entre as afectadas pela crise, relatou a sua situação de angústia iminente com a possibilidade de passar por uma nova perturbação. A mesma disse que começou a ouvir gritos e a ver outras colegas sentirem-se mal até que foi “contagiada” pelo mesmo, mas não se lembra de nada do que aconteceu depois.

“Não quero relembrar, porque dá agonia lembrar”, afirmou.

Além de alunos, alguns professores do Liceu Januário Leite falaram à Inforpress, também eles sob condição de “anonimato”, por medo de “represálias”.

Segundo os docentes, há vários anos que convivem com esta situação no liceu, pelo que defenderam que é necessário “fazer um estudo mais aprofundado” sobre essa questão.

“Precisamos trabalhar o emocional destas crianças e adolescentes porque a situação está a tomar outro contorno. Desde o início do ano lectivo, vivenciamos quase diariamente esta situação”, frisou um professor, para quem se trata de um problema que tem levado os docentes do Liceu Januário Leite ao “esgotamento emocional”.

Por isso, em nome dos demais colegas, pediu ao Ministério da Educação que comece a “ver esta problemática com outros olhos”.

“Até porque, quem está a viver, assistindo tudo de perto, somos nós. Escusado darem directivas se não virem o que nós vemos quase que diariamente”, argumentou.

Outro docente aponta directamente à Direcção Nacional da Educação (DNE), a quem acusa de “estar a leste do problema” e de “não aceitar as propostas da comunidade educativa” para resolver o problema nem de “sugerir uma solução”.

“Sugerimos que os estudantes afectados ficassem em casa e nós os acompanharíamos, enviando-lhes as matérias e exercícios como se fez com a covid-19, até que recuperassem as condições psicológicas para regressar às aulas, mas a DNE não aceitou”, revelou a mesma fonte, lembrando que o ano lectivo está apenas no início, mas os professores “estão esgotados com essas crises que todos os anos acontecem no liceu”, o que, a seu ver, “não é normal”.

O medo também está na cabeça dos pais e encarregados de educação que pediram uma resposta para esta situação.

“Os meus filhos vão à escola e fico com o coração apertado. Precisamos ver e entender o que está a acontecer nessa escola, que já não é normal”, asseverou uma mãe.

Os casos de desmaios nas escolas de Cabo Verde já acontecem há alguns anos. Alguns especialistas dizem que estão relacionados com o ambiente escolar que despoleta estas crises que apelidam de “histeria colectiva”.

No entendimento da psicóloga Lenira Fernandes, as causas desta “histeria colectiva” nos adolescentes podem ser tanto de foro psicológico como hormonal.

Lenira Fernandes explicou que muitas vezes estes adolescentes vão à escola sem comer ou mesmo podem ter algum tipo de intoxicação alimentar ou stresse, o que segundo a mesma pode desencadear numa “histeria colectiva”.

“O que está a acontecer neste momento é um fenómeno que quase todas as escolas estão tendo no País durante anos. Isso tem de ser um objecto de um estudo para podermos trabalhar na prevenção. De qualquer das formas, este fenómeno acontece de forma isolada nas escolas, mas pode acarretar consequências tanto físicas como psicológicas nos afectados”, frisou.

A mesma fonte sublinhou que diversas escolas no País estão a trabalhar na prevenção, com um plano estratégico para dar respostas, caso ocorrer “histeria colectiva”, mas caracterizou a situação de “preocupante”, justificando que o País tem registado tantos casos que, no seu entender, o fenómeno está a tornar-se recorrente.

“Acho que toda a comunidade educativa tem de ter um olhar mais cauteloso e mais preocupado, devido a esse fenómeno. Há estudos que dizem que uma das causas maiores e mais comum em meninas é devido às alterações hormonais que acarretam stresse e ansiedade”, pontuou.

Questionada sobre as causas desse fenómeno atingir mais meninas, Lenina Fernandes esclareceu que as meninas estão reunidas e estão mais susceptíveis de sentir os sintomas das suas colegas, mas salientou que tal fenómeno não afecta só meninas, mas pode afectar os rapazes também.

O presidente do Racionalismo Cristão da Ribeira Grande, António Rodrigues, foi categórico em dizer que naquela escola “não tem nada” e explicou que tal fenómeno só acontece porque muitos que lá vão estão com “pensamentos negativos”, o que cria uma união de negatividade, destacou.

“Entendemos como sendo um fenómeno espiritual, com a concentração de vários espíritos com pouco esclarecimento espiritual. E com a fragilidade do pensamento dessas jovens, cria-se toda essa avalanche de negatividade”, pontuou.

A mesma fonte afirmou que o centro do Racionalismo Cristão tem recebido vários estudantes para acompanhamento, não só deles, mas também dos familiares porque, explicou, em princípio ele tem de adoptar uma prática de “higienização espiritual e mental”.

António Rodrigues considerou ainda que com a prática da higienização espiritual e mental estes conseguem “fortalecer” o “equilíbrio”.

“Nós continuamos a fazer as nossas práticas racionais na nossa casa racionalista e ao mesmo tempo apelamos às pessoas para frequentarem as casas racionalistas no sentido de fortalecerem os seus pensamentos de forma a terem um viver consciente, equilibrado e harmónico”, apelou.

Apesar da análise dos psicólogos, um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), divulgado em Outubro de 2021, projectou que crianças, adolescentes e jovens poderiam sentir o impacto da pandemia da covid-19 na saúde mental e no bem-estar por muitos anos.

Segundo a instituição internacional essa parcela da população já carregava problemas emocionais e avançou que, globalmente, mais de um em cada sete meninos e meninas entre os 10 e os 19 anos vivem com algum transtorno mental diagnosticado.

Ainda de acordo com a entidade, a ruptura com as rotinas, a educação, a recreação e a preocupação com a renda familiar e com a saúde deixaram muitos jovens com medo, irritados e preocupados com o futuro.

As inúmeras tentativas de falar com o director Nacional da Educação, Adriano Moreno, a delegação ou mesmo com a direcção da escola e com o pároco da Paróquia de Santo António da Pombas, foram infrutíferas.

LFS/JMV

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