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REPORTAGEM/Tendas El-Shaddai: Vinte e três anos na “recuperação dos prisioneiros das drogas” (c/video)

*** Por Simão Rodrigues, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 14 Dez (Inforpress) – Fundada a 14 de Junho de 1996, em Santa Cruz, pelo missionário angolano Honório Fragata e um grupo de evangelistas jocumeiros cabo-verdianos e brasileiros, as “Tendas El Shaddai” já acolheram mais de 3000 toxicodependentes em busca de recuperação e reinserção.

Vinte e três anos passados à frente desta missão, Honório Fragata, carinhosamente tratado por “Tio” continua firme como o rosto da Casa Resgate e Restauração “Tendas El Shaddai”, onde já recebeu gente dos 12 aos 65 anos, todos do sexo masculino, que ali se concentram-se em busca de recuperação dos vícios relacionados com a droga e o alcoolismo.

“Padjinha”, crack e cocaína, de entre toda a espécie de drogas, são apontadas por Tio como as mais usadas mas o álcool é referenciado como o calcanhar de Aquiles das Tendas El-Shaddai porque que a grande maioria dos admitidos está relacionada com a complexidade do álcool e suas consequências.

Fragata disse que apesar das dificuldades do dia-a-dia por que passa esta modesta infra-estrutura, actualmente constituída por seis tendas, na sua grande maioria carregadas de remendos, dado ao seu avançado estado de deterioração, sente-se realizado por este “nobre trabalho na recuperação dos toxicodependentes”.

“Sinto que valeu a pena todo este sacrifício. Nada é mais importante do que recuperar o ser humano. Não importam números”, asseverou à Inforpress e adiantou que pelas Tendas já passaram multidões, de proveniências sociais diversas como sociólogos, psicólogos, pedreiros, electricistas, professores, engenheiros, estudantes, pastores, missionários, trabalhadores informais, carpinteiros, artistas, entre outras.

Apesar de se situar no interior de Santiago onde, recordou, não foi fácil a implantação nos primeiros anos face a alguma resistência da vizinhança, Honório Fragata confessa que em regra geral a maioria dos internos é proveniente da capital ainda que tenha estado a receber solicitações de todos os pontos do país e não só.

Hoje, gaba-se, nota-se a plena convivência entre os internos e a vizinhança a ponto de os jovens das redondezas das Tendas, no bairro de Achada Fátima, constituírem uma equipa e futebol que treina no campo de terra batida nas imediações deste primeiro centro de recuperação em Cabo Verde e para Fragata, o primeiro “em toda a África”.

Para além de trabalhar na recuperação de dependentes de diferentes pontos do país, “à base do tratamento espiritual”, as Tendas têm vindo a desempenhar um papel “importante” no restabelecimento de alguns toxicodependentes do estrangeiro, provenientes da Alemanha, de Angola, do Brasil, de Portugal, da França e da Inglaterra.

Reconhece que nem todos os tratamentos merecem o selo de sucesso pois existem sempre casos de fracassos e recaídas de pessoas que passaram por este espaço cercado por vedação de baixíssima altura e que alberga actualmente 30 internos, quando há bem pouco tempo estavam ali 45 toxicodependentes.

A vida nas Tendas, segundo este mentor, é contagiante e baseia-se na responsabilização das tarefas de cada um num sistema de rotatividade que vai desde o tocar do sino, às actividades culturais ou religiosas à volta da “Mesa Redonda”, nome por que é conhecido o espaço central onde são realizados cultos, orações, reflexões, palestras e distribuição da alimentação.

Hoje em dia, segundo Fragata, as condições de vida na Tenda têm sido bem melhores já que os obreiros, nome dados aos utentes mais antigos, não só ajudam na integração dos novatos como também já exercem uma profissão na padaria, na hidroponia, na Tenda dos Estudantes e na antiga carpintaria, “felizmente”, já numa fase avançada de recuperação.

Como projecto futuro anunciou a construção de pocilgas, “Lava-Jato” que visa apoiar os lavadores de carros, assim como apostar numa pequena embarcação de pesca como forma de um auto-emprego e organização financeira e familiar, feira de artesanato, para aproveitar a potencialidades dos jovens internos, para que praticamente a Tenda tenha a sua autossustentabilidade.

Honório Fragata revelou que a Associação das Mulheres Africanas ofereceu ao centro um forno brasileiro, capacitado para a produção de mil pães diários, que tem permitido aos jovens com mais de um ano do centro trabalhar nesta “indústria”, ter a sua subvenção e a possibilidade de ter o seu vencimento.

Afirmou que os jovens já contam com cartão do vendedor, cedido pela autarquia santa-cruzense, cartão de sanidade numa parceria com o Ministério de Saúde, forma encontrada para pôr as potencialidades dos utentes a favor das comunidades, na lógica “vendendo mais barato, vencendo na mesma”, já que ultimamente os turistas têm vindo a visitar o centro.

“Isto de modo que a tenda passe a ter uma cooperativa de prestação de serviços para que o ex-toxicodependente não se transforme num “mendigo da noite”, mas que consiga mesmo transforar o lixo em algo de luxo através da implantação de uma fábrica”, esclareceu.

Devidamente legalizada no Boletim Oficial Nº10 II Série de 07 de Março de 1994, as a Tenda El-Shaddai vive de um financiamento da Comissão de Coordenação de Combate ao Álcool e outras Drogas (CCAD) de 230 mil escudos e de um subsidio do Ministério de Saúde actualmente de 150 mil escudos anuais, o que torna-se “manifestamente suficiente para cobrir as despesas”.

Com cinco anos de tendas, António Boaventura, de Achada de Santo António, é dos utentes mais antigos das Tendas e mostra-se realizado pelo papel de obreiro que tem vindo a desempenhar neste centro.

Define-se como um ex-toxicodependente da droga que passou por várias recaídas, confessou que tem vindo a ter uma vida marcada por altos e baixos, mas que encontrou no “El-Shaddai” a sua reinserção social e “plena recuperação” como homem depois de longos anos de vida boémia.

Enquanto isto, José Euclides, licenciado em agricultura pela UNI-CV, vizinhança do centro, garante ter estado a dar a sua contribuição como voluntariado, na hidroponia, com resultados na desinfecção, protecção, prevenção e produção de verduras como tomates, alface, salsas em estufas e nos aviários na produção de galinha e ovos.

Por outro lado, Honório Fragata faz questão de destacar “a sensibilidade que a autarquia local sempre teve para com a Tenda”, sublinhando inclusive que foi beneficiado com uma das habitações da Casa Para Todos, que decidiu transformar em “residência comunitária”, alegando que não consegue “viver num palácio e deixar os meninos no centro”.

A este propósito, o presidente da câmara de Santa Cruz, Carlos Silva, classificou as Tendas El-Shaddai como “um grande instrumento de desenvolvimento social, sobretudo no que toca à integração e reinserção das pessoas que a procuram para superar as vicissitudes da vida”.

Silva afirmou mesmo que este centro tem dado um grande contributo social, sobretudo no domínio de protecção social e das pessoas que mais delas precisam e que a sua autarquia vê as Tendas como “uma das suas grandes parcerias do domínio do desenvolvimento social deste município e a autarquia tem dado toda a atenção moral, psicológica e material”.

O psicólogo de formação, Elton Garcia, nascido na cidade da Praia, mas que cedo se transferiu para São Lourenço dos Órgãos, depois de sentir-se “viciado na droga e álcool” disse ter procurado a Tenda há pouco mais de um mês, com “o objectivo de recuperar o ego, virar devidamente as costas às más companhias, para dentro de três meses regressar “curado” a casa”.

Para este psicotécnico, a Tenda El-Shaddai “tem vindo a desempenhar um papel social extremamente importante para o país, com reflexos directos no estado físico e psicológico dos seus utentes que caíram ‘na desgraça da vida’”.

Opinião corroborada por Nilton Roberto, de Chã de Alecrim (São Vicente) que disse ter procurado a Tenda depois de se sentir “no fundo do poço” e que veio propositadamente com uma missão de recuperar, na íntegra, a sua auto-estima, para recuperar a família que deixou na ilha de Porto Grande.

Quem também se mostra determinado na sua recuperação é o angolano Carlos Guimarães, 32 anos, sem família constituída, que descobriu as Tendas há uma semana por intermédio de um familiar, tio, por sinal pastor da Igreja Pentecostal.

Depois de 18 meses de residência no bairro Eugénio Lima, na Cidade da Praia, disse que neste curto espaço nas Tendas já se sente plenamente integrado “melhor do que tinha pensado, de modo a entregar a vida a Deus”, asseverando mesmo que se sente “livre dos vícios adquiridos, primeiramente em Angola”, com continuidade nestas ilhas.

 

SR/HF/CP

Inforpress/Fim

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