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REPORTAGEM/São Vicente: Mulheres pegam no martelo e calcetam ruas do bairro do Alto Bomba (c/áudio)

*** Por Carina David, da Agência Inforpress ***

Mindelo, 10 Mai  (Inforpress)  – No Alto Bomba,  área de extensão da zona do Monte Sossego, o chão que os moradores irão pisar, doravante, terá, quase de certeza, pedras fixadas pelas mãos de dez mulheres calceteiras que assumiram a reabilitação do bairro.

Alto Bomba é um bairro que resultou de um crescimento sem planeamento urbanístico, com casas clandestinas, algumas de betão, outras de lata, muitas delas sem ligação à rede de esgoto e água e com ruas estreitas, qual tentáculos, cujo acesso faz-se, por vezes, aos ziguezagues, pisando o chão vermelho de terra solta.

Foi este ziguezague que a Inforpress fez para conhecer a história dessas dez mulheres, do alto em que se apercebe do contraste com o azul da vistosa Baía do Porto Grande, que de lá cima se consegue ver.  

O grupo chama-se “Amdjer d´obra” (mulher de obra) e surgiu através do Projecto Outros Bairros, do Ministério das Infra-estruturas, Ordenamento do Território e Habitação, que pretende intervir nos bairros informais de Cabo Verde, com a missão de contribuir para transformá-los, através da reabilitação, revitalização e acessibilidades.

“Fixar pedrinhas no chão já não apenas é coisa de homem, hoje também é trabalho para mulher”, reagiu assim à nossa primeira abordagem Maísa Fortes, 39 anos, que representa o grupo.

Moradora na zona de Cova, que fica logo ao sopé de Alto Bomba, a calceteira explicou que a ideia de usar a mão-de-obra feminina para calcetar o bairro partiu do convite dos próprios promotores do projecto que lhes proporcionaram uma semana de formação em calcetamento.

“Começamos a calcetar, primeiro, no outro lado de Alto Bomba, depois fomos trabalhar no projecto de reabilitação da Baía das Gatas e voltamos para Alto Bomba, no final de Abril. A nossa ideia é terminar o calcetamento total do bairro com as nossas mãos para podermos ver a nossa comunidade desenvolvida”, contou Maísa Fortes, à medida que ajeitava uma pedra a golpes precisos de martelo.

Maísa disse que começou a trabalhar como calceteira porque não tinha emprego e necessitava “urgentemente de um rendimento” para sustentar os cinco filhos, quatro dos quais estudantes, além da mãe.

“A minha família já se acostumou comigo a fazer um pouco de tudo porque desde pequenina trabalho. Sou mãe e pai dos meus filhos e ainda cuido da minha mãe”, declarou, reforçando que se sente auto-suficiente e com forças para fazer qualquer trabalho “e levar o pão para casa”,

A calceteira afirma que não se preocupa com o que as pessoas dizem acerca do seu trabalho, pelo facto de ser mulher porque, sublinhou, “as mulheres podem tudo”.  

“É basta querer porque é um trabalho como outro qualquer e todo o trabalho é digno, quer sejas homem ou mulher”, considerou, adiantando que os calceteiros que trabalham com elas no mesmo projecto não manifestaram claramente a sua rejeição à presença das mulheres, mas sentem essa repulsa na atitude deles.

“Não houve rejeição directamente. Mas, às vezes, acho que eles não nos ajudam na hora em que precisamos deles porque acho que querem ficar com o trabalho sozinhos. Directamente não dizem isso, mas, pela atitude e falta de apoios, mostram-nos que se dependesse deles não estaríamos aqui”, declarou, defendendo que “já é altura de uma mudança dessa mentalidade”.

O desemprego e a falta de um rendimento para a família  também foram os principais factores que fizeram  de Leila Fernandes, 45 anos, a calceteira mais velha do grupo.

“No início várias pessoas disseram-nos que era trabalho para homem, mas não nos preocupamos com isso. Continuamos a fazer o nosso trabalho porque estávamos a gostar. E, particularmente pensei que se é um trabalho através do qual posso ganhar dinheiro então vou ficar nele”, revelou esta outra moradora da zona de Cova, com firmeza, tal quanto à forma como selecciona cada pedra que crava no chão.

Aliás, recordou, foi com esta firmeza que diz ter convencido o marido de que “a mulher consegue tudo, basta ela quiser”, já que também ele achava “estranho ver mulher a calcetar”.

Uns metros mais à frente, encontramos Silésia Pereira, 35 anos, natural de Santo Antão, e que vive desde os dois anos em Alto Bomba. Para ela, calcetar era algo que nunca imaginou fazer, não fosse a falta de emprego a despertar-lhe “este dom”.

“Quando este projecto terminar sentir-me-ei orgulhosa porque sei que contribui para embelezar o meu bairro. Uma dessas pedrinhas foi colocada pelas minhas mãos”, lançou, com regozijo, lembrando que sempre teve o apoio do companheiro, que é pescador.

Por sua vez, Alicia Gomes, 20 anos, uma das mais jovens calceteiras, adiantou que antes do projecto a esperança de encontrar um trabalho parecia perdida.

Mas, fez a formação de calceteira, a aprendizagem correu-lhe bem e já pensa em crescer e profissionalizar-se neste ramo.

“Já tinha vontade de trabalhar porque só o meu companheiro a trabalhar não dá. Vim porque nada está fácil. Estou a fazer uma experiência para ver a possibilidade de me profissionalizar futuramente e quem sabe futuramente serei uma chefe de calceteiras. Por enquanto, este é meu sonho”, respondeu,  enquanto procurava a pedra certa.

Segundo a jovem, o trabalho é “árduo e exige paciência”.

Isto porque, precisou, para trabalhar com pedras, estar de cócoras debaixo do sol e encerrar o dia com costas doridas e mãos calejadas “é preciso coragem”.

“É cansativo, mas estou a gostar. Para obter o que se quer é preciso um pouco de cansaço”, afirmou a calceteira, que se orgulha em colocar “pedrinhas no caminho” pelas ruas do seu bairro.

CD/AA

Inforpress/Fim

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