REPORTAGEM/Prostituição: Vida escolhida por várias mulheres para terem meios de sobrevivência

Cidade da Praia, 02 Jun (Inforpress) – Conhecida por ter iniciado vários jovens da Praia na vida sexual, ‘Libby’, a menina que veio da ilha do Fogo para trabalhar com parentes nos anos 60, teve que “entrar na vida” para poder pagar renda e alimentar-se.

‘Libby’, nome fictício, que constituiu família após os anos 80, afirmou à Inforpress, no âmbito do Dia Mundial das Prostitutas, que se assinala hoje, e tida como a profissão mais antiga do mundo, que teve de seguir esse caminho porque, na época, uma moça sem estudos tinha pouca opção de vida.

“Trabalhei na antiga casa de korkubada, que também era da ilha do Fogo, e que na altura era das poucas casas de prostituição existentes na Cidade da Praia, para além de outros existentes no bairro de Fazenda”, disse, referindo que hoje tem quatro filhas e dois rapazes e que todos sabem qual foi a sua vida.

Segundo a entrevistada da Inforpress “é impossível esconder o passado”, numa cidade “tão pequena” como Praia, onde “todos se conhecem”.

Por este motivo, prosseguiu, fez questão de falar da sua vida aos filhos, mas lembrando sempre que envidou pela prostituição porque não tinha apoio e nem família para a ajudar na Cidade da Praia.

“Não é vida que ninguém queria para os seus e, por isso, aconselho-os, sempre, a estudar e a trabalhar para poderem ter uma forma de sustento, mas nem sempre escutam o que queremos”, disse.

‘Libby’ contou que após “sair da profissão de vida”, passou por vários estigmas, mas que hoje em dia já ninguém se lembra.

Assim como ‘Libby’, Maria também viveu em casa de prostituição, mas afirma que ela era quem escolhia os seus parceiros.

“Eram muitos e vinham atrás de mim pela novidade que ouviam na época, pois fazíamos coisas que as esposas em casa não faziam e queriam todos experimentar”, acrescentou.

Maria, porém, admitiu que não conseguiu constituir família, mas que ainda é “querida” por todos que conhecem a sua história.

Lina, uma jovem estudante que, para pagar os estudos universitários, “participa em programas”, admitiu ter ganhado dez mil escudos numa noite, mas que em tempo de covid-19 a situação está difícil.

Lina, assim com as outras colegas, têm utilizado as redes sociais e o telefone para marcar trabalho.

Abordado pela Inforpress sobre este assunto, o sociólogo Raul Fernandes referiu que a prostituição não está caracterizada como crime, embora possa ser avaliada como atentado ao pudor.

Lembra ainda que como “a profissão mais velha do mundo”, é difícil dar combate no País, enquanto continuar a prevalecer “vulnerabilidades e diferenciação sociais”.

“Reduzir este fenómeno depende muito da melhoria das condições de vida no País”, concretizou, lamentando que, em plena quarentena devido à pandemia da covid-19, haja jovens a se prostituir para poderem pagar estudos e alimentar-se.

O Dia Mundial das Prostitutas tem como objectivo denunciar a discriminação e a exploração das prostitutas a nível mundial, assim como as precárias condições de vida e de trabalho.

A origem da data está no protesto realizado a 02 de Junho de 1975, quando mais de cem mulheres ocuparam a igreja de Saint-Nizier, em Lyon (França), em protesto contra a repressão sofrida com detenções e assassinatos que não eram investigados.

A data serve ainda para lembrar a brutalidade das autoridades, na época, que originou indignação, tendo em Junho de 1976 iniciado processos para regularização da profissão que é considerada a mais antiga do mundo.

PC/AA

Inforpress/Fim

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