REPORTAGEM: Com bandeira hasteada, Tabanca de Achada Santo António “está de luto “durante 15 dias (c/áudio)

Cidade da Praia, 13 Jun (Inforpress) – A tabanca de Achada Santo António está de luto depois de um grupo de 12 ladrões terem roubado o santo na capela para o vender à “Rainha de passadio”, que deverá mantê-lo na sua posse até ao dia do resgate.

Esta é apenas uma parte do ritual da tabanca, realizada durante a tradicional festa junina de Santo António que é celebrada hoje um pouco por vários bairros da Cidade da Praia, como Lém Cachorro e Lém Ferreira, e ainda nas ilhas da Brava, Santo Antão (Paul), São Nicolau e São Vicente.

A festa, que se iniciou há uma semana, teve o seu ponto alto hoje com a celebração religiosa na Capela da tabanca de Achada Santo António, seguida do roubo do santo por um grupo de 12 ladrões, sendo três mulheres, três homens, mãe e pai do ladrão, madrinha e padrinho do ladrão.

Um dos “ladrões”, Carlos Soares, disse à Inforpress que, apesar de a capela estiver protegida, conseguiram driblar os guardas para roubar o santo (não se trata de figura ou imagem de um santo, mas sim é uma bandeira branca com uma cruz vermelha no meio).

Depois de terem roubado o santo, na capela, situada na rua da tabanca, os 12 ladrões puseram a dançar ao som do batuco e depois seguiram para a zona do Brasil, no mesmo bairro, para vender o santo à dona Suzana, que, pelo terceiro ano consecutivo, é a “rainha de gasadjo”.

Mas, antes de chegarem à casa da “rainha de gasadjo”, durante o cortejo, os ladrões foram saqueados objectos pelo caminho, desde manga, telemóveis, crianças, e, ao mesmo tempo, vendiam os objectos roubados aos próprios donos ou a quem estiver disposto a pagar.

Na casa da rainha, estes começaram a roubar os ingredientes para confeccionar o tradicional almoço, mas foram recebidos à pauladas. Com a situação resolvida, foi a vez de negociarem a venda do santo.

“Roubamos o santo e trouxemo-lo para a casa da Suzana, mas ela é muito pão-duro. Deu-nos apenas 10 contos. Esse dinheiro é para pagar o transporte e para realizamos a tradicional festa de ladrão, em que todos são bem-vindos”, disse o ladrão Gracindo Tavares.

Em conversa com à Inforpress, a “rainha do gasadjo”, a dona Suzana, que terá este estatuto por mais quatro anos, disse que apesar de não ter condições financeiras todos os anos brinca a tabanca porque gosta.

“Não tenho qualquer ajuda, por isso peço às pessoas um apoio para podermos comprar o santo, por isso é que pago apenas os 10 contos”, explicou.

A dona Suzana vai manter o santo na sua posse durante 15 dias e no dia 29 de Junho os ladrões vão ter de mostrar aos festeiros onde foram vender o santo para que este seja recuperado.

Enquanto este não seja recuperado, a tabanca, segundo explicou o presidente da Associação de Tabanca de Achada Santo António, Pedro Carvalho, fica de luto.

“Nesse momento, estamos de luto e não podemos sair para nenhum lugar e não podemos participar em nenhum festejo, até o momento de resgate do santo e do desfile de busca santo e só depois do desfile é que podermos participar em outras actividades”, disse, ajuntando que hoje vão dar continuidade com os festejos, com um almoço na rua da tabanca, onde todo o mundo é bem-vindo.

Depois do resgate, avançou, é hora do tradicional desfile de busca de santo pelas ruas da Cidade da Praia, em que vão mostrar à população toda a vivacidade da tabanca e a sua renovação.

A tabanca, que em tempos esteve “agonizada”, hoje em dia, realçou, graças ao apoio financeiro do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas e da Câmara Municipal da Praia estão a mantê-la viva e renovada.

Uma das conquistas mais aguarda pelos homens de tabanca é a sua classificação a património Nacional.

Classificação esta que, segundo avançou hoje à Inforpress, a directora do Património do Instituto do Património Cultural, Sandra Mascarenhas prevê a sua conclusão por ocasião do Dia de Tabanca, 29 de Julho, instituído pela Câmara Municipal da Praia.

“Neste momento, estamos na fase de validação do processo, revendo todas as fichas elaboradas, para no final de Junho e início de Julho, possamos submeter a proposta de classificação e esperamos a 29 de Julho ter a tabanca classificada como património Nacional” perspectivou.

Fez saber que todo o processo de inventariação das tabancas activas nas Ilhas de Maio e de Santiago já está concluída.


AMJMV
Inforpre/jmvss/Fim

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