RD Congo: Uma geração de crianças abandonadas cresce nas ruas de Goma

 

Goma, República Democrática do Congo, 27 Ago (Inforpress) – Uma geração de crianças de rua prolifera no leste da República Democrática do Congo após duas décadas de conflitos armados. Só em Goma, há mais de duas mil crianças nas ruas, muitas delas perdidas ou abandonadas pelas famílias.

Estas crianças vivem de esmolas, pequenos roubos e abordam com frequência estrangeiros. De dia, vagueiam pelas ruas da cidade, capital da província de Kivu do Norte, onde procuram pequenos serviços que lhes garantam alguns cêntimos de francos congoleses.

De noite, abrigam-se debaixo dos bueiros de esgoto das principais rotundas da cidade ou em estaleiros de obras e terrenos baldios.

“Eu vivo em caixas de papelão. Não tenho o que fazer, não tenho como ir para a escola, não tenho como trabalhar. Por isso acabo por usar drogas. A vida não é fácil. Às vezes, lavo carros para poder comprar comida, mas não é todos os dias que consigo comer”, disse à Lusa Sylvain Mbuki, 18.

Com outros vinte adolescentes, o rapaz vive há cinco anos nas redondezas do Quartier des Volcans, uma movimentada área central de Goma onde vivem muitos expatriados e funcionários das Nações Unidas.

De uma comunidade a 10 quilómetros a norte de Goma, Mbuki é o primogénito de uma família de quatro irmãos e uma irmã. Seu pai morreu enquanto lutava durante a Segunda Guerra do Congo que terminou em 2002/2003.

Viúva, a sua mãe casou-se novamente e hoje consegue alguns trocados da venda de carvão e lenha, conta o rapaz.

A partir de um cadastramento feito pelas equipas dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), foram registadas 2.200 crianças em situação de rua.

Segundo Carla Melki, coordenadora de terreno da organização em Goma, estima-se que existam mais 1.500 crianças, adolescentes e jovens adultos ainda não registados.

“Constatamos que são muitas crianças que estão nas ruas. Algumas fugiram, foram expulsas, ou seus familiares desapareceram. É comum, quando as mães viúvas se casam novamente, o padrasto rejeitar o filho do primeiro casamento”, explicou.

A existência de centenas de crianças a viver nas ruas na capital de Kivu do Norte representa um grave problema social que pode fragilizar a cidade, que vive em paz desde o desmantelamento do grupo armado M23 em 2013.

Há quinze anos, foi criada a Missão de Paz da ONU na RD Congo (MONUSCO), que tem batalhões de militares e civis baseados na cidade.

Desde então, Goma tornou-se também um pólo humanitário para inúmeras organizações internacionais.

“Surpreendeu-me, quando cheguei a Goma, uma cidade com tantas ONG [organizações não governamentais] não ter nenhum projecto dedicado às crianças que vivem nas ruas. Elas não eram consideradas prioridade”, comentou Carla Melki.

Melki lidera um projecto pioneiro dos MSF, iniciado nos meses de Março e Abril, para dar assistência médica e psicossocial a crianças desamparadas como o jovem Mbuki.

Apelidada de “Bobo Mobile”, a clínica móvel para meninos de rua ou “maybobo” em swahili, realiza 200 consultas médicas todas as semanas em diversos pontos da cidade.

“Recebemos crianças de todas as idades, muitas filhas de pessoas que já viviam nas ruas. Vemos crianças a partir de quatro anos, mas a maioria tem entre nove e 14. Há também maiores de 18 anos, adultos que vivem nas ruas por mais de 20 anos”, contou.

Uma equipa formada por médicos, educadores e enfermeiros tenta dar acolhimento e oferecer apoio clínico. Cerca de 400 crianças passam diariamente pelo contentor estacionado em áreas públicas da cidade.

A maior parte dos casos atendidos é de malária, ferimentos, inflamações, doenças sexualmente transmissíveis e infecções respiratórias, além de acidentes no trânsito. Para casos mais complexos, a equipa do MSF os encaminha para unidades de saúde na cidade.

“As crianças sabem onde nos encontrar. Muitas apenas vêm em busca de protecção e para dormir”, disse Melki.

Mbuki sonha em ser cantor. Disse que já compôs duas músicas sobre sua própria realidade. Ele espera ser reconhecido como rapper e um dia poder viver da música.

“Sei que a vida de amanhã é para as pessoas que conseguiram estudar. Mas espero que minha música me ajude a ir embora. Gostaria de voltar para a minha casa, mas preciso de dinheiro”.

Lusa/Fim

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