Porto Novo: Seca faz vergar “resistentes” do Planalto Norte que clamam por “socorro com urgência”

***Por Jaime Medina, da Inforpress***

Porto Novo, 29 Out (Inforpress) – O Planalto Norte do Porto Novo, em Santo Antão, para muitos “o rosto” da seca que assolou Cabo Verde, enfrenta mais “um ano adverso”, marcado pelas estiagens que fazem vergar os “resistentes” dessa localidade, onde falta “quase tudo”.

Se em 2017, a seca, que castigou, duramente, essa parcela do território, que outrora já foi celeiro da ilha de Santo Antão (há quem diga de Barlavento), colocou à prova as quase 70 famílias que ainda vivem no Planalto Norte, neste ano de 2018 as pessoas parecem estar a vergar, perante tantas adversidades, clamando pelo auxílio de “quem de direito”.

Para António Sabino Lima, presidente da associação comunitária no Planto Norte, é preciso que as pessoas dessa localidade sejam “muito resistentes” para aguentar essa seca sem precederes que castiga, e de que maneira, as populações locais.

Alerta que a situação de “extrema gravidade e requer urgência” em termos de solução.

Segundo este responsável, há necessidade das autoridades locais e centrais desencadearem “um plano específico e urgente” para o Planalto Norte, sob pena de se perder tudo aquilo que foi salvo com o plano de mitigação da seca e salvamento do gado, já concluído.

Com a situação de seca a agravar-se nessa zona, a Câmara Municipal do Porto Novo e o Governo devem articular um novo plano para acudir aos criadores que podem perder todos os seus animais, se ainda, antes do final deste ano, não forem accionadas medidas de apoio.

É preciso, também com a brevidade, melhorar o acesso à água nesse Planalto Norte, abastecido, até agora, com água auto-transportada por parte da edilidade portonovense, mas insuficiente para as necessidades das 600 pessoas que ainda vivem no local.

“Há que ter urgência para não se perder o que se conseguiu com o plano de mitigação da seca”, avisou este líder comunitário, que informou que há povoados nesse planalto, cujas populações precisam ser socorridas “o mais depressa possível”.

Segundo constatou a Inforpress no local, as populações estão a deslocar-se para outras zonas por uma questão de sobrevivência.

É caso de Pascoal Alves, provavelmente a comunidade mais isolada do concelho do Porto Novo, cujos habitantes estão a procurar outros sítios “para escapar à fome”, segundo o representante dessa comunidade, Manuel Gomes.

Das 15 famílias que antes viviam em Pascoal Alves, já estão lá apenas metade, porque são obrigadas a procurar outros sítios para poderem resistir às adversidades que a seca as coloca, avançou Manuel Gomes, informando que o gado nessa zona acabou por desaparecer e que, desde Julho deste ano, não se criou um único posto de trabalho nesse povoado.

“O gado em Pascoal Alves quase desapareceu. Ficaram muito poucas cabras, mas continuam a morrer. Sem emprego fica impossível viver nesta zona, onde as pessoas estão a passar fome”, informou o representante dessa comunidade, chamando, também, pelo socorro das autoridades.

Fidel Neves, morador em Morrinho de Égua, um dos oito povoados que enformam o Planalto Norte, disse, também, que se a câmara e o Governo demorarem a apoiar as populações “a situação pode tornar-se insuportável” para muitas famílias que “não têm por onde virar”.

Em Bolona, outra comunidade do Planalto Norte, a situação parece menos difícil, porque caiu alguma chuva em Setembro que permitiu o ressurgimento de algum pasto para os animais.

Os criadores das outras localidades já deslocaram os seus efectivos para as imediações de Bolona na esperança de salvar, para já, os seus animais, mas, segundo o pastor José Mateus, “daqui a pouco”, o pasto vai acabar.

Manuel Lima, delegado municipal no Planalto Norte, disse à Inforpress que a “situação é mesmo difícil”, confirmando que as pessoas dos povoados mais críticos estão a sair em direcção a outras zonas, onde possam enfrentar, com menos dificuldades, a situação de seca, que faz desse planalto “uma zona triste”.

Este responsável confirma que, nesta altura, o desemprego é generalizado no Planalto Norte.

As autoridades municipais admitem que o espectro da seca paira, efectivamente, sobre todo o concelho do Porto Novo, onde mais de 500 famílias, que dependem da pecuária e da agricultura de sequeiro, estão em situação de vulnerabilidade.

O edil do Porto Novo, Aníbal Fonseca, já tinha admitido, recentemente, que se está, “de facto perante uma situação preocupante”, já que “a seca que assolou, fortemente” este concelho em 2017 e 2018, ameaça agudizar-se em 2019.

Este município, segundo o autarca, já dispõe de “um plano de prevenção” para, caso a situação assim o exija, acudir às famílias, cujo sustento depende, designadamente, da pecuária.

Também, nos princípios deste mês de Outubro, os deputados do MpD, poder, eleitos por Santo Antão, alertaram para a necessidade de o Governo desencadear “uma acção” junto das populações mais afectadas pela seca no Porto Novo e na ilha, em geral.

“É uma chamada de atenção que estamos a fazer para que, brevemente ou quando for necessário, se possa desenvolver alguma acção junto das populações, tendo em conta que se prevê algum descaso com as chuvas”, sublinhava, nessa altura, Damião Medina, porta-voz dos parlamentares.

Toda essa preocupação à volta do concelho do Porto Novo, mais particularmente, sobre o Planalto Norte, acontece numa altura em que o ministro da Agricultura e Ambiente, Gilberto Silva, está de visita a Santo Antão para avaliação do ano agrícola.

Este governante esteve, nos últimos dois dias, no Porto Novo, a parte mais árida de Santo Antão, onde, “de um modo geral”, a situação parece “mais crítica”, pelo que o Governo vai “desenvolver acções no sentido de continuar a apoiar” as populações do campo, mormente os criadores de gado.

Porque, segundo Gilberto Silva, há sítios onde choveu muito pouco, mais também onde não choveu, o seu ministério vai desenvolver um projecto de apoio aos criadores de gado que incidirá na criação de uma nova forma de manejo dos animais, na recuperação dos campos de pastagens e na recolha e conservação do pasto.

Uma equipa vai estar, dentro de dias, no terreno para discutir com os criadores os meandros deste projecto, permitindo, assim, o arranque das acções “a curto prazo”, segundo Gilberto Silva, que disse ter chegado a “um entendimento” com os pastores sobre esta matéria.

Em relação ao abastecimento de água ao Planalto Norte, o ministro anunciou investimentos na ordem dos 60 mil contos que o Governo pretende realizar, em parceria com a autarquia, nessa zona, para resolver a situação de penúria de água, que afecta as populações.

JM/ZS

Inforpress/Fim

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