População de Chã congratula-se com desvio de estrada das terras cultiváveis, mas diz-se abandonada

*** Por Jaime Rodrigues, da Agência Inforpress ***

São Filipe, 22 Abr (Inforpress) – A população de Chã das Caldeiras na ilha do Fogo congratula-se com a decisão das autoridades em desviar a rota da estrada nessa zona, cujo projecto inicial implicava a destruição das poucas terras cultiváveis que “sobreviveram” às lavas da última erupção.

Entretanto, avançaram à Inforpress que estão descontentes face ao abandono dessa comunidade que, conforme realçam, está inserida numa área protegida.

A última erupção de 23 de Novembro de 2014, além de destruir os dois principais povoados, consumiu 208 hectares de terras aráveis, correspondente a 24 por cento (%) das 848 hectares de terras cultiváveis que existia na Caldeira.

Atendendo que o projecto inicial da nova estrada “roubava” parte de terra arável que resta, a população se posicionara contra o mesmo, mas a notícia de que finalmente o trajeto da estrada foi desviado, atravessando as lavas acumuladas nas duas últimas erupções “tranquilizou a comunidade”.

No dia em que se celebra o Dia Mundial da Terra, 22 Abril, a Inforpress foi “espreitar” a situação em Chã das Caldeiras pós erupção de 2014, auscultando algumas pessoas residentes na Caldeira e outras que apesar de não terem ligação directa e originária com esta localidade “defendem e lutam” em prol dos interesses desta comunidade.

Danilo Fontes, conhecido no local por “Dom Danilon”, natural de Chã das Caldeiras é tido como um dos maiores defensores da localidade nas redes sociais. Ele considera que depois da erupção as pessoas já estão desligadas das promessas e cada um trabalha para recuperar a sua vida, já que das “promessas não se avançou quase nada e o pouco que se fez apresenta deficiências graves”.

Conforme disse, toma como exemplo a água que, apesar de ser um bem essencial e que devia ser disponibilizada de imediato pelas autoridades, pelo contrário, “deixaram a população padecer durante um ano depois de execução do furo e ainda hoje se “joga” com isso”.

A estrada, na óptica de “Dom Danilon” não foi feita para as pessoas de Chã, sublinhando a esse propósito, que não é aceitável que uma estrada que custa mais de 110 mil contos não disponha de um plano e que o traçado só foi alterado porque houve “pressão” por parte das pessoas que defendiam os terrenos agrícolas.

Mesmo assim, realçou, se esqueceram dos pequenos acessos para terrenos agrícolas e para as pequenas zonas situadas entre Cova Tina e Portela.

Com a construção da estrada, o Parque Natural do Fogo (PNF) foi muito sacrificado e teve a maior devastação da sua história, não obstante ser um “ex libris” da ilha, aponta Danilo Fontes, acrescentando que o Governo não leva em conta as pessoas de Chã.

“O jardim infantil em construção parece bonito, mas não respeita o ambiente que é espectacular para todos, menos para o Governo”, disse, sublinhando, contudo, que a “infraestrutura seria boa se fosse noutro local”.

Conforme referiu, o plano de “reconstrução” foi elaborado à revelia das pessoas de Chã e da opinião cientifica de vulcanólogos que estudaram o vulcão por mais de 20 anos e consideram Bangaeira como sítio vulnerável, mas mesmo assim foi escolhida para o assentamento, enquanto Portela é “um espaço sem plano e um futuro “ghetto”, apesar de ser preocupação da ministra das Infraestruturas”.

E não há como corrigir a situação porque não há “autoridade” em Chã das Caldeiras, enfatizou.

Por seu turno, o jovem Miguel Montrond, licenciado em Engenharia Agrónoma e Socioambiental, natural de Chã, recorda que a erupção “devastou a população resiliente” que meses depois regressou para reconstruir, de acordo com as suas condições, e investir para fazer “o motor de desenvolvimento da ilha” funcionar.

Ele enumerou alguns feitos, como reabilitação das 107 casas em Monte Grande e Achada Furna, mas adianta que passados três anos ainda a população aguarda pela concretização da maior parte das promessas.

“O furo de prospecção de água foi bom, mas teve várias falhas, a sede do PNF e posto policial encontram-se sempre fechados” disse Miguel Montrond que parabeniza as autoridades pela construção de estrada, mas adverte que a mesma deveria ser de seis metros de largura como foi anunciado no lançamento da obra, e porque a população precisa de uma estrada que “facilite e melhore a circulação e que evite acidentes”.

Por outro lado, lembra que o novo assentamento ainda não saiu do papel, assim como o plano detalhado, o que leva a população a reivindicar e se manifestar publicamente.

Entretanto, na opinião de Fausto do Rosário, professor e activista cultural, “se tivesse havido um discurso com coerência e claro sobre as responsabilidades do Estado para com os habitantes talvez não tivéssemos hoje as indefinições quanto ao assentamento e as demais infraestruturas, a localização e a forma de propriedade que deve existir na Chã”.

“A ausência de respostas permite um mundo de especulações contraditórias, que muitas vezes levam a tantas suspeições e acusações, que o Governo não está inume”, reforçou.

Segundo Fausto do Rosário, é necessário que haja uma relação saudável entre o cidadão e o Estado e não um clima de permanente confronto entre as vítimas e o Estado.

“É importante definir o que é Chã das Caldeiras enquanto património e sítio natural de grande valor natural, porque não existindo o Parque Natural, enquanto entidade gestora, não se sabe como é gerido, preservado e feita toda a gestão de um Parque cuja área é superior à ilha Brava”, disse, avogando que é necessário definir urgentemente a situação de Chã das Caldeiras.

Lembrou, por outro lado, que as pessoas irão continuar a viver lá e que de acordo com os parâmetros ligados às características da zona, devem ser adaptados determinas normas e procedimentos, observando que nunca foi a favor daquela que se chamou “solução Canárias para Chã das Caldeiras”.

“Foi um erro grave porque esqueceram o seu percurso, que há uma cultura autóctone desenvolvida durante 100 anos e que não é feita só de produção do vinho manecom, ou do queijo, mas que se reflete também nas construções e na aplicação do espaço”, enfatizou.

Fausto do Rosário argumentou ainda que Portela era extremamente bonita e não teve nenhum projecto arquitetónico e desenvolveu-se perfeitamente com a paisagem.

“Não sei se Chã das Caldeiras coaduna com importações de modelos que nasceram de realidades sociológicas completamente diferentes. A fixação e crescimento da comunidade determinou o tipo de Chã das Caldeiras, o tipo arquitetónico, a ocupação das terras e não podemos esquecer isso, porque enquanto continuamos a ver e a esquecer desta componente vai haver sempre problemas”, disse, lembrando que as casas de Chã não nasceram por acaso assim como a ocupação do terreno.

No final desta reportagem da Inforpress, a população fez questão de voltar a manifestar a sua “satisfação” com a poupança dos terrenos de agricultura neste processo de reposição da estrada, mas lembraram que continuam aguardando a disponibilização de terrenos agrícolas, na zona de Monte Velha, prometido pelo Governo que, para o efeito, chegou de fazer o levantamento sobretudo dos agricultores que perderam parcelas de terreno, para produção agropecuária durante a erupção.

JR/FPInforpress/Fim

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